Comportamento

Entreter as crianças requer criatividade e planejamento

Em meio ao isolamento social, famílias precisam cuidar para manter os pequenos estimulados e ativos

29 de Março de 2020 - 09h02 Corrigir A + A -

Por: Ana Cláudia Dias
anacl@diariopopular.com.br 

Antônio foi o primeiro a testar o livrinho de colorir (Foto: André Choer - Especial DP)

Antônio foi o primeiro a testar o livrinho de colorir (Foto: André Choer - Especial DP)

Programete ensina cuidados contra a coronavírus para os pequenos (Foto: Divulgação TV Cultura - DP)

Programete ensina cuidados contra a coronavírus para os pequenos (Foto: Divulgação TV Cultura - DP)

Psicopedagoga indica manter uma rotina (Foto: Jô Folha - DP)

Psicopedagoga indica manter uma rotina (Foto: Jô Folha - DP)

O combate ao contágio pelo novo coronavírus exige o distanciamento social. Entre as famílias, entreter as crianças e mantê-las longe da ansiedade e do tédio são desafios diários.

Cheios de energia e acostumados a uma rotina, muitos dos pequenos podem rejeitar a ideia de ficarem longe dos amigos e familiares e da ausência de atividades fora da casa. Driblar essas dificuldades requer reorganização familiar e planejamento de atividades para o dia a dia. Tudo para que os filhos não fiquem carentes de estímulo, cuidados e afeto.

O melhor neste momento é tentar manter a rotina das crianças, aconselha a psicopedagoga Stéphanie Valente Balreira. A orientação da profissional é que sejam mantidos os horários de despertar, café da manhã, almoço, lanche e jantar. Bem como daquele soninho da tarde, para os mais pequenos, e especialmente da hora de dormir.

Durante o dia, Stéphanie chama a atenção para a necessidade que as crianças têm de gastar energia. "Ficar em casa ocioso pode acarretar o acúmulo de energia e daí vir a dificuldade de dormir", fala.

A sugestão é dividir as tarefas do dia por horário. Pela manhã, por exemplo, a família pode se dedicar ao gasto de energia. Se tem sol e está calor, por que não aproveitar o pátio da casa para atividades como jogar bola, correr, pular corda, entre outras brincadeiras que façam os pequenos mexerem o corpo? "Para dar aquela despertada."

Adaptadas, essas atividades também podem ser feitas dentro da casa, para aquelas famílias que moram em apartamentos. Pouco antes do almoço, que tal ver aquele desenho preferido, essa seria uma atividade para acalmar antes de sentar à mesa.

Depois da refeição vem aquela preguicinha. Para a psicopedagoga, o ideal, se a criança quer ou está acostumada a tirar uma sonequinha que o faça, mas o tempo não deve ultrapassar 30 minutos.

À tarde, as atividades podem ser dentro de casa, que tal montar uma barraca de lençóis e travesseiros? Outra sugestão é a contação de histórias. Se os pais ou responsáveis estiverem dispostos, até uma dramatização pode ocorrer, a partir de uma história conhecida ou inventada.

Contar histórias estimula a cognição e a atenção. Depois disso podem fazer uma oficina de slime ou cupcake. Stéphanie aconselha deixar um pouco as tecnologias de lado e buscar a interação com a criança. "Como ela (a criança) está em isolamento social, as únicas pessoas que ela tem para brincar sãos os familiares."

A falta de estímulo pode ocasionar aquela birra, manha ou teimosia que chamam a atenção de forma negativa, adverte a especialista. À noite é bom trazer o pequeno para uma atividade mais calma. Jogos menos corporais, como da forca ou de tabuleiro vão exigir atenção dos pequenos e estimular a aquisição de cultura.

A intenção é ir serenando para que o corpo entenda que é hora de descansar. Para embalar o soninho, a leitura pode entrar novamente. "Sempre indico contar histórias antes de dormir."

É importante que as crianças percebam que apesar de estarem todos em casa, todo o tempo, os horários e as regras se mantêm, é uma forma de dizer que as noções de limite não se alteraram. "Tudo tem um porquê para as crianças."

A psicopedagoga reforça que as crianças captam tudo, especialmente se há tensão no ambiente familiar. Por este motivo é essencial que os pais ou responsáveis se preocupem em explicar o que está acontecendo e o porquê. De preferência de forma lúdica, respeitando o limite de cada idade.

Ainda sobre atividades e ajuda aos pais, Stéphanie lembra que profissionais de diferentes áreas estão envolvidos em oferecer ajuda de forma on-line. "Recursos é que não faltam." A própria especialista tem disponibilizado no seu Instagram (@psicopedagogia_stephanievb) dicas para ajudar toda a família a enfrentar esse momento de resiliência.

Desenho para colorir

Um desses profissionais que estão disponibilizando seu trabalho em favor das famílias com crianças é o designer e ilustrador André Mancini Choer. juntamente com o irmão Samuel. Os irmãos Choer, conhecidos pelas ilustrações que recriam prédios históricos de Pelotas, colocaram o traço inconfundível a serviço dos pequenos, criando ilustrações para pintar.

Até agora disponibilizaram três livros, com cinco páginas cada, para download através do perfil no Instagram.A ideia surgiu também pela necessidade de entreter o pequeno Antônio, de três anos e oito meses, filho de André e da jornalista Paula Gracioli. Sem poder ir para a escolinha no turno da tarde, Antônio passou a exigir mais atenção dos pais, que também não podem contar com a ajuda de familiares por causa do período de isolamento.

Moradores de um apartamento próximo à praça Coronel Pedro Osório, a família tem uma rotina de atividades que inclui manter o pequeno na escolinha durante a tarde. Agora é um esforço diário para não deixá-lo entediado.

O pai conta que entre as atividades destes dias estão jogar bola no corredor, andar de skate, bicicleta, brincar de carrinho, arrumar o quarto e desenhar. Além de filmes e desenhos animados.

Mas como o garoto gosta de atividades fora de casa e com a proximidade da praça, claro que ele começou a questionar o isolamento. Ele pediu para andar de skate na praça e fazer coisas do cotidiano, como ir até o chafariz e brincar na pracinha. "A gente explicou para ele que (o coronavírus) é um dodói; que está todo mundo dentro de casa e não tem como ver o vovô e a vovó. Ele está com saudade dos avós", conta Choer.

As chamadas de vídeo e os telefonemas ajudam na hora de manter o contato. Mas apesar dos questionamentos, Antônio dá demonstrações de que está compreendendo a situação. Outro dia, quando estava à janela, ele viu um homem e uma mulher com cabelos brancos andando na rua, a reação natural fez com que gritasse: "Vovô vai pra casa, olha o coronavívus".

De qualquer forma tem dias que ele fica bem entediado, foi aí que Samuel Choer teve a ideia de fazer o livrinho de cinco páginas com os desenhos deles. O piloto o próprio Antônio testou e adorou, animando os Choer a compartilhar a novidade. "A gente se dividiu, eu faço um desenho aqui, posto, o Samuel fez a segunda edição que eram uns rostinhos."

A primeira edição foi com desenhos de gatinhos, agora a intenção é fazer dois por semana. Inclusive os mais velhos foram lembrados e poderão baixar um só com desenhos de carros dos anos1980.

No Instagram (@choer51b), no Facebook e no Linkedin eles postam os desenhos prontos, já colorizados. O link das folhas com os desenhos, em preto e branco, é colocado para download na bio do Instagram.
A dupla já recebeu retorno dos internautas que baixaram o primeiro e o segundo livros. "As pessoas tiraram fotos dos desenhos dos filhos." Essas imagens estão em uma aba do Instagram chamada Livro de Colorir.

Outras iniciativas

Primeiras Páginas

O grupo PET Educação, da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), criou o programa Primeiras Páginas. O programa está sendo desenvolvido desde o dia 16 deste mês, de forma on-line. São propostas ações como compartilhamento de áudios com a leitura de contos infantis de diversos autores, a leitura das primeiras páginas de livros infantis e de suas capas, e participação em lives sobre leitura e literatura para diferenciados públicos, como protagonistas ou participantes. Dentro das propostas estão, também, pesquisa, seleção e compartilhamento de livros digitais para crianças e seus familiares.

Ao enviar material a mães, pais e professoras, o PET Educação se propõe a contribuir para que juntos, em casa, crianças e seus familiares possam escutar, ler mais e até gravar os seus próprios áudios e compartilhar com amigos e colegas, além de familiares distantes.

Para se informar ou acessar qualquer uma dessas ações, o contato pode ser feito com a tutora do Grupo PET Educação, professora Cristina Rosa, através do e-mail cris@ufpel.tche.br.

Patrimônio em casa

O Laboratório de Educação para o Patrimônio, da Universidade Federal de Pelotas (LEP/UFPel), também disponibilizou para download o livro Colorir para conhecer. A publicação traz uma pequena mostra dos detalhes dos estuques dos forros da Casa número 8, da praça Coronel Pedro Osório, onde está sediado o Museu do Doce da UFPel.

O livro pode ser baixado na fanpage do LEP no Facebook . O mesmo espaço também recebe os desenhos pintados pelos internautas para serem compartilhados.

Educação antivírus

A TV Cultura exibe programetes com as personagens do Quintal da Cultura, que tiram dúvidas de forma didática sobre diversos assuntos que envolvem a pandemia do coronavírus (Covid-19). Composto por dez vídeos, exibidos durante a programação, o projeto aborda temas como o poder do sabão para a higienização das mãos, o que é coronavírus, exemplos de como as crianças podem se divertir em casa, como cuidar dos idosos durante a pandemia e muitos mais. Os programetes, que contam com tradução em Libras, também estão sendo disponibilizados no YouTube e Instagram do programa.

 


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