Cinema

Doutor Gama em cartaz em Pelotas

Filme que resgata trajetória do abolicionista Luiz Gonzaga Pinto da Gama pode ser conferido até dia 22 no Cineflix

18 de Setembro de 2021 - 12h58 Corrigir A + A -

Por: Michele Ferreira
michele@diariopopular.com.br 

Na telona. Longa foi lançado em agosto de 2021 e está em capitais brasileiras (Foto: Divulgação - DP)

Na telona. Longa foi lançado em agosto de 2021 e está em capitais brasileiras (Foto: Divulgação - DP)

Aos dez anos, Luiz Gama foi vendido como escravo pelo próprio pai para pagamento de dívidas de jogo (Foto: Divulgação - DP)

Aos dez anos, Luiz Gama foi vendido como escravo pelo próprio pai para pagamento de dívidas de jogo (Foto: Divulgação - DP)

Ativista. Luiz Gama libertou mais de 500 homens e mulheres escravizados (Foto: Divulgação - DP)

Ativista. Luiz Gama libertou mais de 500 homens e mulheres escravizados (Foto: Divulgação - DP)

Em nós até a cor é um defeito. Um vício imperdoável de origem. Um estigma de um crime. As palavras chegam como convite para assistir a Doutor Gama, o longa inspirado na vida do maior abolicionista do país. O filme poderá ser conferido até o dia 22 deste mês, já que Pelotas passou a acompanhar quatro capitais brasileiras e conseguiu colocar em cartaz a obra que enaltece a história do primeiro homem negro a se tornar advogado no Brasil.

Ao longo do mês de outubro, uma outra iniciativa passará a valorizar a trajetória de Luiz Gonzaga Pinto da Gama. Um projeto de lei entrará em plenário na Câmara para dar o nome do herói nacional - reconhecido por lei federal - à rua 2 do Residencial Eldorado, no bairro Três Vendas.

"Precisamos fazer estas reparações, estes resgates", destaca o vereador Paulo Coitinho (Cidadania), autor da proposta.

Para buscar ressignificados

É preciso fortalecer a luta antirracista. E Doutor Gama chega também com este propósito. "O filme ajuda a ressignificar a nossa luta e o nosso papel histórico", destaca o coordenador do projeto Museu do Percurso Negro de Pelotas, Luís Carlos Mattozo. Na construção desta narrativa, é fundamental destacar que os negros contribuíram com fatos relevantes nas mais distintas áreas do conhecimento e das artes em todo o país.

E em solo pelotense, não foi diferente. O povo negro escravizado construiu muito mais do que os casarões que encantam turistas no Centro Histórico. Prepararam muito mais do que o charque que os livros de história e os relatos orais fazem cruzar de geração a geração.

Aqui, nestas terras, eles criaram o tambor de sopapo, hoje valorizado como Patrimônio Imaterial de Pelotas. Por aqui também viveu Luciana de Araújo, a "mãe preta", fundadora do Instituto São Benedito. Foi também aqui que o artista plástico Miguel Barros deu início à carreira que o levou a vários estados brasileiros e para o exterior. E foram, mais uma vez, as mãos, as almas e os corações dos negros que ajudaram a dar vida a Banda União Democrata, que acaba de celebrar 125 anos.

É preciso derrubar uma segunda escravidão

"Não reconhecer a presença dos negros na cultura, nas artes e nas tecnologias de ponta é uma forma de justificar a teoria de que o negro era incapaz. Um ser de segunda classe", destaca Mattozo. E assim, com perversidade, o Brasil construiu uma ideologia racista, que se perpetua há séculos. "E gerou uma política pública de exclusão social, que é a escravidão moderna", reitera.

Por isso, é urgente fazer ecoar a luta de Luiz Gonzaga Pinto da Gama. Durante a escravidão - tangível - os negros eram levados ao tronco, em um cenário de absoluta exploração com algemas, correntes, tortura e morte. Hoje, o racismo ainda agride, machuca, prende e menospreza. É a escravidão intangível - enfatiza Mattozo.

"Seguimos reféns de uma exclusão social que nos joga pra favela, pra os guetos. Não nos garante serviços públicos de qualidade, que nos joga pra marginalidade, pro subemprego".

Quem foi Luiz Gama? 

O baiano, natural de Salvador, era filho de uma escrava liberta e de um fidalgo português. Aos dez anos, entretanto, foi vendido como escravo pelo pai para o pagamento de uma dívida. No cativeiro, aprendeu a ler e escrever e reconquistou a liberdade após provar que havia nascido livre. Tentou, então, cursar, Direito na Universidade de São Paulo (USP), mas enfrentou hostilidade. Ainda assim, persistiu como ouvinte das aulas.

Advogado autodidata, conseguiu uma provisão, um documento concedido pelo Judiciário do Império que o autorizava à prática do Direito. Assumiu, então, a missão de libertar e garantir o direito dos escravizados. E teve sucesso: libertou mais de 500 pessoas. Ativista político, Luiz Gama era também jornalista e poeta.

Em 1859, publicou a coletânea de poemas satíricos, Primeiras trovas burlescas, em que faz uma crítica social e política e denuncia as questões raciais do ponto de vista negro, na primeira pessoa.

Prestigie o filme! 

* Cineflix:
- Sala 1, às 17h50min
Conforme a procura, poderá permanecer em cartaz após dia 22/9

* Doutor Gama
- Direção: Jeferson De
- Roteirista: Luiz Antônio
- Elenco: Cesar Mello - Luiz Gama (adulto)
                Angelo Fernandes - Luiz Gama (jovem)
                Pedro Guilherme - Luiz Gama (criança)
- Trailer: bit.ly/doutor-gama

* Pelotas junta-se à grade de exibição:

- 4 capitais estão com o filme em cartaz: Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador e Palmas.

- A motivação para trazer o longa a Pelotas surgiu com a live promovida pela Comissão da Verdade da Escravidão Negra, através da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) do Rio de Janeiro, que incluía bate-papo sobre o filme, com a presença do diretor e do protagonista Cesar Mello.

A partir daí, Luís Carlos Mattozo deu início às tratativas para viabilizar as sessões em Pelotas. Argumentações apresentadas ao programador nacional da rede Cineflix foram fundamentais para que Doutor Gama entrasse em cartaz por aqui.

 


Comentários


Diário Popular - Todos os direitos reservados