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Da UFPel para o mundo

Frutos de trabalhos de conclusão do curso de Cinema de Animação, dois curtas de egressas da universidade concorrem ao Grande Prêmio do Cinema Brasileiro

23 de Maio de 2020 - 11h43 Corrigir A + A -

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Tema. Auto-aceitação é abordada em Céu da boca. (Imagem: Céu de Boca)

A produção artística da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) é destaque nacional. Muito um fruto da troca cultural que a instituição causa na cidade, os curtas Só sei que foi assim, de Giovanna Muzel, e Céu da boca, de Amanda Treze, estão concorrendo ao Grande Prêmio do Cinema Brasileiro. Ambas as produções são resultado de trabalhos de conclusão (TCC) do curso de Cinema de Animação.

Em Céu da boca, Mari está se tornando um rinoceronte. Para ela essa transmutação é um sinal de que se tornou uma má pessoa; nesse cenário a protagonista entra em um processo de autoanálise ao se questionar sobre ser uma pessoa ruim em meio a tais processos metamórficos. O filme conta com dublagens de Andrea Terra, Dante dos Santos, Jamón de Souza, Lucas Honorato, Micael Jambers, Murlo Spponton e Olívia Caetano.

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Reconhecimento. Giovanna venceu o Festival de Gramado. (Foto:Divulgação)

Ao Diário Popular, a diretora conta que o tema principal é a busca e a aceitação de si mesmo. “A ideia do filme emergiu a partir de diálogos internos, coisas que eu curto e coisas que eu queria que desenhar. O filme foi meu trabalho de conclusão de curso e eu buscava curtir cada etapa do processo.”

Na visão da animadora, o curso da UFPel teve a importância de representar o estudo, ponto importante para tornar menos nebuloso o fazer artístico. “Durante o curso tive a oportunidade de estudar cinema e de interagir com pessoas que compartilham da mesma paixão. Tive a oportunidade de aprender com alguns e trabalhar com outros. É com muito carinho que me lembro dessa trajetória.”

Sobre projetos atuais, a artista diz que desde o ano passado tem se dedicado às histórias em quadrinhos. Dentro dessa vertente, publicou Brisa errada, de forma independente, e teve a oportunidade de expor o trabalho na Artists’ Alley da Comic Con Experience (CCXP). “No mais, não estamos vivendo um período amigável para a produção cultural e por isso alguns projetos maiores estão engavetados aguardando sua viabilização, através de editais e leis de incentivo. Resistimos”, salienta.

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Habitat. Músico pelotense mora atualmente em sítio em Caxias do Sul. (Imagem:Só sei que foi assim)

Já Só sei que foi assim conta a história de quando Santiago, o melhor amigo de Júlia, encontra um livro falando sobre a selva e como é a vida lá. Ele então decide que está na hora de finalmente agir como um tigre e parte em uma jornada até a selva. Durante essa aventura eles confrontam inseguranças e encontram algumas das forças que possuem. O filme tem no elenco Jacson Piovesan e a própria Giovanna e recentemente venceu o Festival de Cinema de Gramado.

Em entrevista anterior ao Diário Popular, a diretora afirmou que o filme aborda o autoconhecimento e reflete muito o período em que morou em Pelotas e estudou Cinema de Animação na UFPel. “É sobre ter passado quatro anos aí e ir embora. Todos os tchaus que tive de dar e o que passei nessa fase da vida.”

Sobre próximos projetos, Giovanna conta que pretende continuar atuando na cena da arte independente. Para tal, abriu recentemente uma página no apoia-se para quem quiser ajudar na produção dos trabalhos. Ela criou também uma newsletter gratuita onde conversa sobre os processos criativos.

Juntas
Giovanna celebra a possibilidade de poder levar o nome da UFPel e, ainda, estar lá junto a Amanda Treze, de quem é admiradora e amiga.

A amizade, inclusive, rendeu frutos recentes: as duas dirigiram juntas Ressaca, um curta de animação baseado em trecho do romance Dom Casmurro, de Machado de Assis. O resultado foi a vitória no Festival do Minuto. “Foi tudo feito à distância por ligações e o resultado ficou bem interessante”, comenta. O resultado também está disponível online.

Duas
Giovana e Amanda são duas mulheres com trabalho reconhecido na animação. Indagada sobre a representatividade desse fato, a primeira diz preferir se voltar aos dados acerca do número de mulheres em cargos criativos dentro do setor.

Recentemente, a UFPel também produziu estudo sobre o assunto. A egressa do curso de Cinema e Animação, Ramona Krüger, realizou artigo científico em que apresenta realidade pouco positiva: embora atuem até mesmo mais que os homens em áreas como a produção, as mulheres ainda recebem consideravelmente menos oportunidades em posições de criação, como a direção geral, em que apenas 16% das entrevistadas afirmaram atuar (ante 28% dos entrevistados, e o storyboard (16% contra 25%). Foram entrevistadas 240 pessoas em um formulário online.

Orgulho
O coordenador do curso de Cinema de Animação, professor Michael Kerr, celebra o reconhecimento das produções. “Trata-se de um evento anual, realizado pela Academia Brasileira de Cinema e que tem a proposta de premiar os melhores filmes e profissionais do setor audiovisual do país. Estar com duas alunas e seus trabalhos concorrendo mostra um ótimo caminho que vem sendo trilhado pelo curso, buscando um nível de excelência na produção audiovisual no país.”

O Portal Curtas está com uma página especial com todos os indicados no primeiro turno da categoria curta-metragem do Grande Prêmio do Cinema Brasileiro. Assista: http://portacurtas.org.br/Especial/.

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