Arte

Cuqui quer cada vez mais

Multiartista radicada em Pelotas lança o EP Tristinha, primeiro trabalho solo, disponível a partir desta sexta nas plataformas digitais

23 de Julho de 2020 - 14h11 Corrigir A + A -
Vocalista da Musa Híbrida deu vasão às próprias músicas (Foto: Divulgação - DP)

Vocalista da Musa Híbrida deu vasão às próprias músicas (Foto: Divulgação - DP)

A veia compositora de Camila Cuqui vai pulsar cada vez mais daqui pra frente. Após um início que ela mesma considera tímido, dentro da Musa Híbrida, a multiartista radicada em Pelotas lança nas plataformas digitais nesta sexta-feira (24) Tristinha, um EP todo próprio, resultado da caminhada e das parcerias que construiu na carreira. O Diário Popular a entrevistou com exclusividade.

Diário Popular: O EP é formado por músicas compostas em três momentos distintos teus. Quais são eles e como eles interferiram na composição?

Camila Cuqui: O momento mais distinto é a resgatada canção Tudo tá tão errado, que é a última do EP. Esta, diferente das demais, foi gravada durante a turnê da Musa em 2018. Gravada na Casa Verde, no ES, que foi um dos lugares que fomos melhor recebidos em toda nossa vida. Os gatos ficavam no tapete enquanto a gente gravava. Essa música acabou não entrando pro disco que lançamos, então agora voltei a ela, adicionei umas vozes. A mixagem dessa canção é do Vini Albernaz, na verdade, a composição em si é o que a aproxima das demais. Ela já era uma desesperança em relação “ao mundo e geral e em mim”, o que a traz muito para perto das outras duas canções. O som da poça foi realmente a primeira música que editei, pra publicação Poça, que minha namorada Inácio Rafaela organiza. A primeira edição da publicação e uma versão da música estão disponíveis no site https://paraquepossa.tumblr.com/. Abatida é uma das letras que há horas estava rondando nossas cabeças e sendo cantarolada aqui em casa. Apesar de serem momentos diferentes, nessa viagem em 2018, por exemplo, nós presenciamos as primeiras carreatas a favor do governo atual e agora estamos mergulhados nesse problema. São diferentes pontos de um mesmo caminho.

DP: Tu tratas esse trabalho como um projeto de autoconhecimento. O que aprendeste sobre ti mesma no processo?

CC: Apesar de obviamente ter imbricações na minha vida pessoal, esse autoconhecimento é bastante sonoro. Que sons eu faria se fizesse sozinha? Essa pergunta sempre esteve presente. Eu aprendi até agora que fazer um som é mais fácil do que parece, é necessário quebrar uma parede invisível da capacidade. A área da música por vezes te coloca quinhentas barreiras e te dá a impressão de que se não souber ler partitura talvez seja melhor não fazer. Acho que essas especificações técnicas recaem bastante sobre as mulheres, que precisam se provar continuamente. Se eu que estou na área demorei oito anos a despertar essa autoprodução, acredito que muitas mulheres por aí fiquem na incapacidade sem na verdade ter tentado. Eu venho das artes visuais, quando eu faço um desenho e uma parte não me agrada, eu recorto ele todo e remonto as partes que gostei com partes novas. Assim também funciona a edição sonora que venho fazendo, a mixagem está na tentativa e erro.

DP: Como começou a tua relação com a música? Quando começaste a compor?

CC: Eu tenho duas canções bem ruins que compus pra “”””amigas””””” quando eu era adolescente e estava trancada dentro do armário. Nunca mostrei elas pra ninguém. Acho que como elas não foram muito bem aceitas por essas amigas, ahaha, eu acabei ficando um pouco travada na composição. A primeira música que foi ouvida foi já dentro da Musa Híbrida, no primeiro disco, eu não compunha nada e fui influenciada pelo Alércio a ajudá-lo a terminar “Seamar”. Quando digo influenciada, quero dizer que ele sentou do meu lado e disse: vamos fazer isso. Passamos a noite toda mexendo e ela entrou pro disco. É algo que agradeço imensamente que ele tenha feito por mim. Dentro da Musa Híbrida, tanto Vini como Alércio sempre me pediram músicas, nunca foi uma relação, sei lá, Caetano e Bethânia. Eles viram a minha vontade e sempre me cutucaram para que fosse feito, sempre se interessaram no que eu tinha a dizer por mais romancinho sapatão bobo que fosse. De 2012 pra cá, só aumentou a proporção de músicas minhas nos discos da Musa e agora eu quero é mais.

DP: As tuas músicas dentro da Musa tinham uma pegada mais acústica, principalmente no início, e no EP usaste mais o eletrônico. Como funcionou essa transição e por que ela ocorreu?

CC: Eu sempre amei a pegada eletrônica que o Vini faz. Quando eu levei minhas canções lá no segundo disco, o Vini achava fofo, gostava de tudo e sempre queria deixar elas como estavam. Eu sempre reclamei apesar de saber que no show funciona muito bem a mistura das mais acústicas com as mais beats. Já no single meu km - rudadinhos, acho que colocamos mais elementos pela minha insistência. No último disco, Piscina vazias iluminadas em pé, vejo que minhas canções entraram mesmo pra vibe eletrônica nas mãos do Vini. Agora, na minha mixagem, a maior parte dos elementos são virtuais, poucos são os instrumentos que gravei. Um baixo, um teclado, mas mesmo assim modificados, recortados, cheios de efeitos. Eu nem tenho um violão que seja elétrico e tou a procura de sonoridades diferentes, de possibilidades.

DP: O que te deixa mais triste no Brasil de 2020?

CC: As notícias, a política, o descaso. Acho que todas as mazelas que vivemos vêm um pouco do negacionismo. Existirem pessoas que acham que a terra é plana contribui para a desconstrução da verdade e da ciência de uma maneira que é corrosiva. E quando eu falo de terraplanismo, não estou realmente focada nesse movimento, mas sim em toda uma construção de pensamento das fake news, que figuras como Bolsonaro e Trump se aproveitam. A gente ter que viver uma pandemia em meio a esse caos político me deixa tristinha demais.


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