Comportamento

Criatividade faz a Páscoa ficar mais doce

Doceiras artesanais tentam driblar as dificuldades criando alternativas para manter a clientela

10 de Abril de 2020 - 15h02 Corrigir A + A -

Por: Ana Cláudia Dias
anacl@diariopopular.com.br 

A Satolep Especialidades só ofereceu os ovos com casca de brownie (Foto: Divulgação  - DP)

A Satolep Especialidades só ofereceu os ovos com casca de brownie (Foto: Divulgação - DP)

As irmãs Brandi adotaram até o drive-thru para atender aos clientes (Foto: Annabella Doces Personalizados -  Divulgação - DP)

As irmãs Brandi adotaram até o drive-thru para atender aos clientes (Foto: Annabella Doces Personalizados - Divulgação - DP)

Joseane Rocha, a Josi Chocolatier, apostou nos doces para quem tem restrição na dieta (Foto: Divulgação - DP)

Joseane Rocha, a Josi Chocolatier, apostou nos doces para quem tem restrição na dieta (Foto: Divulgação - DP)

Em meio a tantas notícias envolvendo o combate ao contágio pelo novo coronavírus, muitos nem perceberam que a Páscoa estava chegando. Mas isolamento social não significa que a data vai ser mais amarga este ano. Doceiras de Pelotas que desenvolvem um trabalho artesanal, especialmente com chocolate, driblam os desafios para que as guloseimas cheguem a seus clientes da melhor forma possível.

Mas se engana quem pensa que foi fácil para quem se dedica à fabricação de doces e chocolates para festas, eventos e datas comemorativas, pelo contrário. O susto foi grande, mas a ideia é colocar a criatividade para funcionar e dessa forma ir ao encontro das necessidades da clientela. Atitudes como mudança no cardápio e adesão à tele-entrega entraram no planejamento.

A confeiteira, artesã e jornalista Bianca Brandi viveu essa expectativa nas últimas semanas. Em sociedade com as irmãs Érica e Eduarda, ela virou doceira há nove anos quando criaram a Annabella Decorações, na época o foco eram as decorações de festas infantis. Com o passar do tempo se voltaram para a fabricação de peças em biscuits, crochê e papelaria, além dos doces personalizados, que é o carro-chefe do trabalho.

Neste ramo, as datas comemorativas, claro, são muito bem-vindas. "Todo mundo precisa de uma lembrancinha pra presentear, daí criamos algumas opções específicas para cada data", lembra Bianca.

Então, de repente tudo mudou. "Foi muito tenso esse ano! Uma incerteza total, pois quando começamos a planejar nosso cardápio de Páscoa não sabíamos em que ponto estariam as coisas. Se falava na possibilidade de isolamento social, de fechar o comércio... Até então era tudo só 'possibilidades'."

No decorrer do mês de março tudo foi evoluindo muito rápido. "Dormíamos num cenário e acordávamos em outro", comenta. Apesar de ser um ano atípico, não tinham como esperar, elas tiveram que arriscar.

A Annabella Doces Personalizados (@annabelladoces no Facebook) poderia não vender nada. Ou, totalmente ao contrário, poderia ser um sucesso de vendas em função de que ninguém iria querer se arriscar a sair e frequentar supermercados para comprar chocolate. Ou seja, muitas conjecturas e nenhuma certeza.

O medo de comprar insumos demais ou aquém da necessidade foi o primeiro desafio a ser superado. "Acertamos tudo com os nossos fornecedores e deu tudo certo", comemora Bianca.

Segundo a doceira, o que mudou mais fortemente foi a falta de clientes para aquelas chamadas "lembrancinhas" para amigos especiais, como a professora da escola, o porteiro, o colega de trabalho. Por outro lado, a clientela está fazendo a encomenda e pedindo pra entregar na casa dos seus afetos.

Mesmo com tudo isso, uma semana antes da Páscoa, o trio já bateu o número de vendas do ano passado. "E as pessoas costumam deixar as encomendas para a última semana, então essa semana deve ser bem movimentada", prevê a doceira.

Um dos produtos criados para este ano são os vidrinhos decorados com coelhinhos de biscuit que vão com cenourinhas, que são docinhos de leite em pó. Outra aposta são as barras recheadas para o público adulto.

Pensando na comodidade e na segurança de todos, as irmãs colocaram à disposição três formas para a retirada da sua encomenda. Duas delas são mais conhecidas: delivery, com um entregador especializado que levará a encomenda de carro, com taxa fixa de entrega, e tradicional, com retirada no endereço da produção. "Estaremos aguardando com álcool gel e toda a higiene redobrada", completa Bianca.

O mais inovador é o sistema drivre-thru, no endereço determinado por elas e diretamente no veículo do cliente. "Não sei como vão ser os próximos dias, então que seja uma ótima Páscoa."

Novos hábitos

Também especializada em doces personalizados, Joseane da Rocha, a Josi Chocolatier (@josichocolatier ou @joseanerocha, pelo Facebook), foi surpreendida com o cancelamento das festas e eventos. "Embora a Covid-19 já viesse sendo comentada desde o começo do ano, ainda assim pegou a gente de surpresa."

A doceira diz que a função dos adiamentos se tornou um transtorno, mas que dá para reverter com muito trabalho. O medo é que os eventos sejam mesmo cancelados. Josi trabalha muito com pacotes promocionais e algumas das clientes que compraram para agora estão repassando para os amigos, que têm festas no final do ano. Outros estão deixando para o ano que vem. Dessa forma, além de não ganhar com os eventos, ela não recebe novas encomendas. Em média ela recebe de três a quatro novos pedidos depois de cada evento.

Para diminuir os prejuízos, Josi, que há muitos anos trabalha com chocolates na Páscoa, está apostando na diversificação. "No meu caso estou investindo com força total em algo que eu estava fazendo que são doces e chocolates para alérgicos, fitness e lowcarb", comenta.

A doceira cursa Nutrição atualmente, o que tem agregado conhecimentos nesta área. Mesmo assim, ela percebe que as vendas de Páscoa estão mais lentas do que em anos anteriores, especialmente dos doces tradicionais. Neste sentido, as clientes têm ajudado, indicando o trabalho nas redes sociais. "Isso nos conforta e dá força para continuar."

Outra dificuldade desse período é a compra de insumos especiais para os doces para quem tem restrição na dieta. Criteriosa com o produto que sai das suas mãos, Josi também aumentou os cuidados na produção. "Tá sendo uma Páscoa bem diferente."

"Desde o momento que começou a quarentena, suspendi os atendimentos pessoalmente." Além disso, a doceira segue todo um esquema para entrar no local da produção. Na porta ela troca o calçado e deixa tudo o que não é referente à execução das iguarias de fora, incluindo o celular. A peça é higienizada várias vezes. "Durante o trabalho troco de touca, luva e máscara."

Os doces chegam aos clientes por tele-entrega, que ocorre na sexta e no sábado, com dia e hora marcados pelo cliente. O entregador usa luva, máscara e álcool gel para passar na máquina de cartões e nas embalagens. Hábitos que, segundo a doceira, deveriam ser comuns há muito tempo.

Como forma de agradecer, ela não está cobrando as entregas. O que gera uma despesa maior. "Para mim o importante é conservar os clientes."
Para esta Páscoa, Josi encerrou as encomendas e decidiu não apostar na pronta entrega. A logística inviabilizaria.

Adesão à tele-entrega

A mudança na rotina assustou as proprietárias da Satolep Especialidades (@satolepespecialidades, no Instagram). "Este ano, com a função da Covid-19 e a situação de quarentena, tivemos que adequar muitas coisas. Estávamos nos preparando para uma coisa e foi outra bem diferente", conta Andressa Tessmann Jansen.

Andressa conta que começou o negócio em 2008, em Florianópolis, onde a mãe Márcia Tessmann tinha uma cafeteria com especialidades de Pelotas e da região. Em 2011, quando retornaram a Pelotas, a marca ficou guardada em uma caixinha.

"Minha mãe começou a produzir pães de mel recheados que eram revendidos por algumas empresas da cidade e foram a nossa renda por um bom tempo", lembra.
Alguns doces ela levava para vender no colégio, o que ajudou a ganhar freguesia. "Começaram a surgir

encomendas e eu, que sempre gostei muito de estar em volta da cozinha, comecei a fazer brigadeiros e cookies para aos meus amigos, junto com os pãezinhos de mel", fala.

Logo a dupla começou a produzir os brownies, que na sequência viraram naked brownies. Então começaram a surgir os eventos. Márcia é quem faz a base (massas e recheios) e Andressa ficou com a parte da decoração, divulgação e contato com os clientes. "A nossa cozinha é totalmente caseira, trabalhamos em casa e somente sob encomendas."

A dupla não trabalha com o chocolate, porque Andressa diz que não consegue um resultado como gostaria. Pesquisando viram que o bolo mais famoso que faziam poderia também ser estrela na Páscoa.

No ano passado criaram os Ovos de Colher com Casca de Brownie e ofereceram também os Ovos no Pote. "Este ano estamos trabalhando apenas com os Ovos de Colher com Casca de Brownie ou Blondie", conta Andressa.

A aposta, claro foi em função do isolamento social. A doceira relata que todos as festas agendadas para abril foram adiadas e a Páscoa começou com baixa movimentação. Ou seja, tinha tudo para dar errado.

Com a mudança no comportamento dos clientes elas também tiveram de se adaptar. "Costumamos encerraros pedidos com dez dias de antecedência, dessa vez estendemos", conta.

Uma das mudanças foi a adesão ao serviço de entrega, que elas não tinham e passaram a oferecer. A tele é terceirizada, mas de carro para que as doçuras cheguem em perfeito estado ao destino.

Unindo estados

A dupla ainda criou as "pequenas doses de doçura", são caixinhas com brigadeiros, brownies ou pães de mel para presentear. Andressa revela que a clientela está encomendando e enviando para a casa dos amigos e parentes. As embalagens cheias de doçura vão até com bilhetes de carinho.

E elas não ficaram só na adaptação para a Páscoa. Para as comemorações de aniversário, reduziram as porções: bolos menores, mais brigadeiros. Os kits anteriores atendiam até 20 pessoas, mas agora as comemorações têm em média cinco pessoas em casa.

Andressa confessa que a primeira semana de quarentena foi assustadora, demorou a cair a ficha. "Mas com essas estratégias e adaptações tudo se encaixou. A Páscoa que corria o risco de amargar está sendo bem doce", fala.

Uma das surpresas positivas deste novo momento é a clientela que se apresenta de outros estados. São familiares que pretendiam passar o feriado em Pelotas e tiveram de cancelar o plano. Essas pessoas estão encomendando e solicitando a entrega. "Uma forma de estar junto, mesmo que de longe."


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