Crônica

Afeto

09 de Fevereiro de 2019 - 08h00 Corrigir A + A -

Por Maria Alice Estrella

Afeto não se compra. É espontâneo. Nasce como veio de água numa curva qualquer da encosta do coração e se derrama em vertente, sulcando o solo da alma. Surge ao acaso, repentinamente, e se apossa do território intangível do querer bem. De uma maneira tranquila, cria elos indissolúveis e invisíveis. Fortes laços que se sedimentam no tempo e superam espaços.

Por ser gratuito, o afeto se desvincula de toda a ideia de comercialização. É uma via de mão única, muitas vezes, apesar e além. Independe de retribuição. Impede tentativas de manipulação, pois possui energia própria e se abastece em si mesmo.

Afeto é, em essência, a alavanca das relações humanas na sua expressão mais pura.

Gestos, posturas, palavras, silêncios são alguns dos mecanismos de ação e realização do afeto. Vinicius de Moraes deixou registrado num belíssimo poema: "E posso te dizer que o grande afeto que te deixo, não traz o exaspero das lágrimas, nem a fascinação das promessas, nem as misteriosas palavras dos véus da alma. É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias".

Afeto é o sentimento com roupa de domingo, porque enfeita a vida, expõe o nosso lado mais bonito, festeja, celebra, distingue. Afeto, quando demonstrado, é espetáculo de fogos de artifício em meio à escuridão.
O afeto é despertado por algum mecanismo de vivência na realidade da convivência, da descoberta do outro e de nós próprios. Fantástica e imperdível experiência que somos passíveis de protagonizar.

Salientando que afetividade é fonte de saúde a preservar, constantemente, num nível de equilíbrio entre a sensibilidade e a percepção do que trazemos na bagagem, se deduz quão significativos são os encontros de "ànema e core". (alma e coração)

Somos capazes de transbordamentos de afeto por alguém em especial, por muitos e por tantos quantos acionarem em nós o desencadear do carinho. E se desafetos surgirem, isso se justifica: nem sempre se agrada a todos. Leva algum tempo para que se consiga avaliar posturas e expressões nesse exercício de viver. Algumas desencadeiam afeto, outras nem tanto.

Misteriosos os labirintos da alma que as emoções percorrem para o aconchego apaziguado do afeto puro e simples.

O afeto de ontem, de hoje, de sempre. O afeto que surgiu sabe-se lá por que razão, sabe-se lá de onde. Mas que justifica o sorriso na face, o brilho no olhar e a ternura no abraço.


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