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A vida refletida em mais de mil textos

Maria Alice Estrella completa, neste mês, 20 anos como cronista do Diário Popular

13 de Agosto de 2018 - 12h05 Corrigir A + A -

Por: Ana Cláudia Dias
anacl@diariopopular.com.br 

Imagens. Fatos do cotidiano inspiram a autora. (Foto: Carlos Queiroz - DP)

Imagens. Fatos do cotidiano inspiram a autora. (Foto: Carlos Queiroz - DP)

Com O estranho que dorme lá em casa, a poeta e cronista Maria Alice Estrella estreava, em 9 de agosto de 1998, a coluna que se tornou referência no Diário Popular. Ao longo dos últimos 20 anos foram mais de mil crônicas. Textos que a cada ponto final estimulam a reflexão sobre as sutilezas da alma humana.

Maria Alice conta que ao encarar o desafio da coluna semanal, se propôs fazer um exercício de literatura, no qual teria de aprender a se desnudar para poder explicitar as coisas como ela as vê. “Esse exercício continua sendo uma experiência única e invejável”, fala.

Atualmente, a crônica é publicada na página 3 do caderno Estilo, mas a estreia foi na extinta coluna Autores e Livros, uma seção também dominical. O sucesso foi tanto que em pouco tempo a autora ganhou as quartas-feiras. Na sequência dos anos, os textos tiveram ainda ilustrações de nomes como André Macedo, o quadrinista Alma, e Kaká Dufech.

Esse longevo vínculo com o Jornal tem colocado Maria Alice na casa das pessoas, invadindo seus cafés da manhã, as reuniões familiares e, especialmente, seus momentos mais reservados. Tanta proximidade trouxe grande retorno e reconhecimento. Mas a cronista confessa que quando começou não tinha noção do alcance que teria nem a responsabilidade junto aos leitores.

Atualmente, os leitores se manifestam por e-mail ou por meio do Facebook, mas já se aproximaram por carta e telefone e há aqueles que chegam a interpelar a cronista nas ruas, numa loja ou na padaria para expor relatos que dão conta do quanto as palavras podem tocar os corações.

Alguns chegam a dizer que a escritora os conhece profundamente e que dado texto foi escrito para eles.

Apesar de já ter recebido prêmios e troféus em certames literários, a cronista confessa que esse retorno é extremamente importante. “Isso tem um peso e um valor que são intangíveis.”

Estilo poético
No início, as crônicas eram datilografadas e a cronista as trazia em mãos para o Jornal. “Até que um dia eu me dei conta que estava ficando obsoleta e comprei um computador”, conta.

Com um estilo bem poético, Maria Alice tem facilidade de se conectar ao trivial e extrair dele aquelas inspirações e angústias mais bem guardadas. A cronista revela que seus textos se alicerçam normalmente em imagens, cenas do cotidiano a inspiram. Mas a fonte pode ser um filme ou um livro, uma palavra ou um assunto recorrente. “É uma partilha, o cronista é muito mais intimista do que o escritor que publica em livros.”

O que ela evita são os temas polêmicos, como política e violência. A intenção é não emitir conceitos e não transpor barreiras sobre assuntos os quais ela não domina. A ideia é sempre abordar sentimentos, emoções e constatações que a vida lhe trouxe.

Apesar de falar intimamente a muitos, pouco fala de si. Uma vez e outra deixa escapar a intimidade de Maria Alice, como na última coluna, Pai nosso, que lembra do próprio pai. Poucos sabem que é porto-alegrense e bacharel em Direito, mãe de três filhos e avó de três netos.

Escrita delicada
Escrever semanalmente por 20 anos também tem sido um exercício de comprometimento, não só com a edição do Jornal, mas também com o leitor. Por este motivo, a cronista se dedica a escrever como quem esculpe uma estátua, delicadamente. “Tenho muito cuidado com as palavras no sentido de não simplificar muito o texto. Essa prática desses anos formou em mim uma disciplina”, explica.

Para a cronista são muito importantes a disciplina do texto e a intimidade com as palavras, com a intenção sempre de deixar bem claro sobre o que se está falando. “É o meu estilo, não consigo ser diferente.” Uma proximidade que ela mostrou em livros como Por entre as pedras e Vitral, de poesias, Perdidos e achados, de contos, e Um perfil no tempo, de crônicas.

Como tem a prática, diz que alguns textos saem muito rápido, uma ou duas horas e estão prontos. Outros têm de ficar de um dia para outro. Às vezes eles lhe esgotam as energias, outras são como um sopro de vida, reenergizam a autora.

Disciplinada, a cronista revela que consegue escrever em qualquer lugar porque quando se concentra no texto, não ouve nada ao seu redor. “Não ouço o que as pessoas estão falando. Nem atendo o telefone.”


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