História

A pandemia que Pelotas viveu

A luta contra a Covid-19 não é a primeira doença de caráter mundial que chega ao município, mas de todas a gripe espanhola é a mais famosa

18 de Abril de 2020 - 14h31 Corrigir A + A -

Por: Ana Cláudia Dias
anacl@diariopopular.com.br 

Em 1918 pouco se sabia sobre doenças virais (Imagem Pixabay - DP)

Em 1918 pouco se sabia sobre doenças virais (Imagem Pixabay - DP)

Estima-se que o vírus Influenza matou cerca de 100 milhões ao redor do mundo (Foto: US Army -Divulgação - DP)

Estima-se que o vírus Influenza matou cerca de 100 milhões ao redor do mundo (Foto: US Army -Divulgação - DP)

Professora Lorena Gill lembra que, como agora, na época se  intensificaram as redes de ajuda (Foto: InfoCenter DP)

Professora Lorena Gill lembra que, como agora, na época se intensificaram as redes de ajuda (Foto: InfoCenter DP)

Se as incertezas rondam os acontecimentos destes primeiros quatro meses do ano, a única convicção é que a Covid-19 vai marcar para sempre a história do planeta em 2020. O novo corona vírus transcendeu fronteiras, alterou rotinas, economias e tem deixado um rastro de mortes. Mas essa não é a primeira vez que a humanidade lida com as consequências de epidemias e pandemias. Disseminadas por diferentes motivos algumas doenças fizeram estragos mundiais em outros séculos.

Com fatos que se assemelham aos dos dias de hoje, a mais famosa delas foi a gripe espanhola (1918-1919), o vírus influenza. Há cem anos, no início do século 20 ela saiu da Europa e atacou vários países de diferentes continentes e se estima que tenha matado entre 50 e 100 milhões de pessoas ao redor do mundo.

A gripe espanhola é a mais conhecida das pandemias por causa dos números impressionantes que ela deixou. A história registra cerca de 500 milhões de infectados. O Brasil não ficou passou livre por essa doença viral e teve muitas perdas. A mais famosa foi do então presidente eleito, em março de 1918, Francisco de Paulo Rodrigues Alves, e morto pela influenza em janeiro de 1919.

A estimativa é a de que 35 mil pessoas tenham morrido no país e a cidade mais atingida foi o Rio de Janeiro. Os jornais da época descreviam o caos: pessoas caiam mortas nas ruas já esvaziadas pelo medo do contágio. Os cadáveres eram recolhidos e empilhados em carroças e, homens fortes que se arriscassem a andar pelas vias corriam o risco de serem convocados para ajudar no enterro dos corpos, porque já não se tinha mais coveiros o suficiente.

Dentro desse turbilhão pandêmico estava a Pelotas do início do século 20, uma cidade com 82.294 habitantes e que também viveu dias de medo. A professora doutora Lorena Gill Lorena Almeida Gill, do Núcleo de Documentação Histórica da Universidade Federal de Pelotas (NDN/UFPel), lembra que desde o século 19 Pelotas vem sendo atingida por diferentes doenças causadoras de muitas mortes. O município teve incidências e reincidências de enfermidades, como: cólera, varíola, peste bubônica, febre tifoide e gripe espanhola. 

Mas os registros nos jornais tornam a gripe espanhola a mais falada até então. A pesquisadora lembra de um relato pormenorizado sobre o que aconteceu com a cidade em face da pandemia, feito pelo escrevente municipal Alberto Coelho da Cunha, em um documento que publicou que se chama Estatística de Mortalidade para o ano de 1918. Nesse escrito Cunha registra que 353 pessoas morreram em decorrência dessa influenza. Porém, a Santa Casa anunciava em mais de 400, o jornal O Rebate descreveu mais de mil mortos. "O número oficial de mortos no Rio Grande do Sul é de 3.971, mas nessa época cerca de 91% das pessoas morriam em casa e cerca de 9% em hospitais, por isso esses números podem ser maiores", fala Lorena Gill.

Um censo de 1920 apresenta que Pelotas registrava 48.225 habitantes da área urbana e o restante, 34.069, distribuído entre os distritos de Monte Bonito, Retiro, Buena, Quilombo e Arroio do Padre. "Então mesmo se considerarmos apenas os números oficiais, muita gente morreu", pondera a professora.

A gripe aparece na Europa em setembro de 18. No Brasil começa a ser registrada em meados do mesmo mês, já em Pelotas, em outubro. A pesquisadora lembra que em um primeiro momento a Influenza era tratada como uma gripe comum e os jornais pelotenses e, para ela, esse é um dos diferenciais do que acontece hoje.

Os periódicos de maior circulação eram o Diário Popular e Opinião Pública, ambos adotaram uma conduta mais resignada que tentava barrar o alarmismo e o medo. "A 17 de outubro são publicados os primeiros casos da doença em Pelotas, 'porém nenhum deles de caráter alarmante...'," escreve a historiadora Renata Brauner Ferreira, reproduzindo uma consideração escrita no periódico Opinião Pública. A gripo espanhola em Pelotas foi objeto de pesquisa do mestrado de Renata, em História, pela UFPel.

Mas a partir de um dado momento os jornais passam a divergir no tratamento dado ao tema, enquanto o Diário Popular, por razões políticas, mantem a postura apaziguadora, o Opinião Pública adota um tom mais sensacionalista, o que fez com que sofresse censura. Não se podia publicar o nome dos mortos, por exemplo. "A censura à imprensa era outro diferencial daquela época", acrescenta Lorena.

Nos jornais também não faltavam receitas de remédios caseiros contra a doença. Entre as recomendações estavam os caldos de galinha e limão e a administração de quinino. O que ocasionou, por exemplo, com que os preços do limão e do quinino aumentassem vertiginosamente.

Silêncio nas ruas

Na época não havia isolamento social, mas havia a recomendação do resguardo, comenta Lorena Gill. E o medo do contágio, juntamente com enlutamento por causa das mortes, fez com que a cidade ficasse deserta.

Novamente Alberto Coelho da Cunha em suas memórias, descreve a historiadora Renata Ferreira, detalha a situação: "...cinemas e casas de diversões cerraram as portas, clubes e casas de jogatina, pensionatos de artistas e meretrizes perderam a frequência habitual. Fora farmácias e casas funerárias, o movimento único da cidade encontrava-se desde o amanhecer no Mercado Público...qualquer outra classe de atividade tinham fechado, suspendendo os trabalhos...Sentia-se a cidade tomada de estupor."

"Em alguns aspectos é parecido com o que ocorre hoje, mas outros não. Porque naquela época havia um grande desconhecimento das causas da gripe, do tempo de incubação do vírus", fala a professora. A pandemia foi realmente impressionante, mas segundo a historiadora, muito porque as autoridades, nem a população não estavam preparadas.

A pesquisadora ainda destaca o chamado "bode expiatório". A Espanha, foi o primeiro, e ficou identificada pela doença por ter sido o primeiro país a começar a falar sobre ela.

Lorena explica que a Europa vivia ainda a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e a Espanha se posicionava como país neutra no conflito. Quando começaram a ocorrer os primeiros casos, o país ibérico passou a divulgar sobre aqueles acontecimentos. "Foi o primeiro país a publicar sobre o assunto."

Lorena Gill lembra que a guerra ajudou a disseminar a doença, pois provocou deslocamentos humanos muito grandes e colocou populações com déficits nutricionais, deixando assim um campo aberto para a disseminação da Influenza. "Aqui em Pelotas, às vezes, chamavam a gripe não de espanhola, mas de alemã." Isto porque a Alemanha saiu perdedora da guerra. "Ela era um bode expiatório melhor que a Espanha, seria um vírus alemão", fala a pesquisadora.

Solidariedade

Assim como hoje, as redes do solidariedade se formaram naquela época. "Naquele momento também se criam redes de solidariedade. Existia uma grande desigualdade social naquela época, como existe agora."

Em seu texto a pesquisadora Renata escreve: "A cada dia aumenta a quantidade de donativos, mais as pessoas se mobilizam... .O combate à doença passa a suplantar o medo do contágio. O mal as isolou, a guerra contra ele as une... essas redes de solidariedade são formadas como uma espécie de subversão ao isolamento."

Outro fato que une os acontecimentos é que as epidemias evidenciam sim as desigualdades sociais. A professor Lorena lembra que em 1918 morreram muitas pessoas que viviam em cortiços, bem como hoje, por exemplo, nos Estados Unidos morrem mais negros e latinos, que não têm acesso ao sistema de saúde, que lá é pago. "É uma doença contagiosa, todos podem se contaminar. Mas se teu corpo tem mais imunidade, se podes ficar em casa com renda, se vives em local com um menor número de pessoas, se podes ter um bom tratamento, tuas chances são maiores de sobreviver."

Porém, assim como no passado que a pandemia trouxe situações positivas aos países, como a busca por saneamento, por exemplo. Lorena Gill vê a possibilidade de que acontecem situações positivas, a partir deste momento de luta contra a Covid-19.

Economicamente ela concorda que pouco pode mudar, mas para a professora é importante questionar de que novas formas solidárias poderiam ser construídas a partir do que se está vivendo? "Estamos começando a ver a necessidade do outro."


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