"Sabe, Borboleta"

"A música cura mais que cloroquina"

Canção dialoga com o momento de isolamento social

11 de Maio de 2020 - 10h32 Corrigir A + A -
Leandro letrou composição de Tarita (Foto: Divulgação - DP)

Leandro letrou composição de Tarita (Foto: Divulgação - DP)

 

Depois de sair da mente de quem escreve, a canção está livre. Cada um entende ela como quiser. Meio como uma borboleta quando deixa o casulo. Fruto da parceria entre os artistas Leandro Maia e Tarita de Souza, Sabe borboleta, linda composição, encontrou repouso na interpretação de quem respeita o isolamento social. Sobre a tabelinha, o Diário Popular conversou com o músico pelotense.

DP: De que forma a canção dialoga com esse momento que estamos vivendo?

LM: Sabe Borboleta é uma canção cujo significado é aberto. Nossa intenção inicial foi a de produzir nossa parceria no rol de atividades que a Tarita está desenvolvendo. A reverberação da canção nas pessoas, no entanto, foi potencializada pela imagem da Borboleta como metáfora de transformação, metamorfose. De alguma forma, as pessoas se sentem "encasuladas", dentro de um casulo, durante o período de isolamento social, mas fazem isto com consciência e esperança de que dias melhores virão. A Borboleta, por entre o pólen das flores e o pó das estrelas, nos faz pensar na imensidão contida nas pequenas coisas. Acho que vivemos este momento de pequenas belezas que passavam despercebidas.

DP: O que te encanta no trabalho da Tarita de Souza? Onde a arte de vocês se encontra?

LM: A Tarita é uma artista muito especial e talentosa. Gosto muito de suas canções, sua delicadeza e a leveza com que lida com a música e com a vida. É também professora de música - inclusive já educou musicalmente alguns famosos - e atua como regente coral. Temos uma biografia muito parecida, no fim das contas, esse trânsito entre a canção, o canto coral, a produção cultural. Ambos crescemos em apartamentos fechados e tivemos de adiar os estudos de piano em função de uma casa com mais pessoas e sem espaço físico para a música. Ambos somos filhos de trabalhadores que precisaram estabelecer a própria independência financeira para dar vazão à criação musical intensa que sempre desejamos. Quem me apresentou a Tarita de Souza foi o pianista e parceiro André Mehmari. Estávamos em Portugal, gravando a canção Waterfall com Maria João Grancha, e letrei uma canção do André para a Tarita cantar. Acabou virando um single, lindo, intitulado Distraídas. A partir desse momento ficamos muito amigos, e a Tarita me deu a honra de enviar a melodia de Sabe Borboleta para eu letrar.

DP: Como esse período de distanciamento social está afetando teu processo de composição?

LL: Existem altos e baixos. Confesso que é um momento muito triste, no país, no mundo, com as pessoas. Existe muita desumanidade, intolerância e individualismo. Essas coisas nos afetam negativamente e é preciso controlar esse momento de depressão. Existe um romantismo que coloca o artista em sofrimento como um criador exuberante. Isto é bobagem. Agora, quando nos disciplinamos e colocamos a criação como algo essencial na ordem do dia e no cotidiano das coisas, criar é resistência e alegria. E as parcerias exercem um papel crucial neste momento de isolamento. Parcerias musicais e sobretudo a parceria com o público, que não deixa a peteca do artista cair.

DP: Em que estágio de produção está o teu próximo disco? Quais teus planos para a sequência do ano?

LL: Meu próximo álbum se chama Guaipeca: uma ilusão autobiográfica. Possui umas dez a doze canções inéditas. Ele possui um caráter memorial e humorístico ao mesmo tempo. A fase preliminar é audiovisual, em parceria com a Bumbá Produtora de Conteúdo. Gravamos pela cidade de Pelotas rodando no meu fusca 1972, incluindo participações de Paulo Gaiger, Nauro Júnior e Maria Falkembach. Tem canção em parceria com Jerônimo Jardim, outra canção em homenagem ao Barão de Itararé, com gravações feitas na Colônia Z3, Mercado Central, Barro Duro e Laranjal. As canções inéditas virarão um disco físico e virtual que está em fase de pré-produção. O lançamento será realizado num fusca palco, em locais públicos, pequenas comunidades e ocupações artísticas consentidas, meio circo de uma pessoa só, no caso, um Guaipeca, que significa cachorro vira-lata em gauchês.

DP: Qual o papel da música nesse momento?

LL: Pode usar como tîtulo da matéria: Música cura mais do que cloroquina. Desce mais macio do que conhaque, realça mais do que sutiã e é muitíssimo mais importante do que a maioria das coisas que vínhamos consumindo e desperdiçando antes da pandemia. Música é serviço essencial.


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