Esporte e respeito

A ave rosa vai decolar

Real Flamingos S.C. participará da Copa SulGay e terá história contada em documentário

27 de Janeiro de 2019 - 08h13 Corrigir A + A -

Carlos Queiroz 78178

Equipe treina no Laranjal para a competição que disputará em Santa Catarina (Foto: Carlos Queiroz - DP)

O chute é igual. A vontade de vencer é igual. O respeito é maior. Formado em 2017 a partir de histórias de preconceito, o time pelotense LGBT+ de futebol, Real Flamingos S.C., disputa em fevereiro a 3ª Copa SulGay, primeira competição da equipe. A trajetória virará documentário financiado pelo canal Futura.

Hoje com 25 anos, Norton Duarte sempre teve grande apreço pelo futebol. Jogava com o time do bairro, time do trabalho, sempre levando a sério o hobby. Sempre se deu bem com todos, o esporte tem isso de aproximar as pessoas. Aos 16 anos, assumindo-se homossexual, viu o jogo virar. Não através da exclusão sumária, assim de um dia pro outro, mas de forma mais covarde: aos poucos, através de piadas que, no fundo, também significavam que ele não pertencia mais àquele grupo. "Num dia eu estava marcando um jogador do outro time e alguém disse 'passa a mão na bunda que ele se distrai'. São coisas que vão tirando a tua vontade de estar naquele meio. Esse foi o final não só da minha experiência em times héteros, mas também das amizades que eu tinha", conta.

Em 2017, ansioso por jogar, mas ainda sem vontade de voltar a um mundo que lhe era tóxico, Duarte conheceu a Champions LiGay, campeonato formado por times LGBTs montados em diversos estados do Brasil. Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul, através de Porto Alegre, estavam entre os representantes da competição que o pelotense acompanhou do início ao fim e resolveu entrar em contato. "Perguntei como tinham organizado e pedi uma ajuda para montar um time na minha cidade. Me mandaram um folder convocando o pessoal de Pelotas a formar uma equipe gay", lembra.

Ao publicar o chamado em uma rede social, Duarte recebeu a mensagem de um colega de trabalho. Rafael Tavares perguntava se a proposta era séria. Os dois, então, partiram em busca de novos interessados em formar um time inteiramente LGBT+. Grupo formado, um primeiro treino foi marcado - e apenas os dois compareceram. Mas, pouco menos de dois anos depois, o Real Flamingos tem 30 membros assíduos, um treino por semana e se prepara para disputar a primeira competição.

Tavares, que relata ter sido excluído do times de futsal em que jogava ao se assumir gay, salienta a importância da comunidade que o Real Flamingos formou. "A gente se sente acolhido. Existe uma exigência por respeito e amizade, então é um jogo com muito menos ofensas do que em meio aos héteros."

Sentir-se pertencente é o que aproximou Miguel Caldas do time pelotense. Membro da base do Juventude, de Caxias do Sul, até os 13 anos, ele deixou o futebol após lesionar o joelho. Bissexual, encontrou no Real Flamingos oportunidade de seguir jogando. "Existe a cobrança, claro, mas nunca o xingamento."

Quem também deve viajar é o Mister Diversidade Pelotas, Yuri Espinoza. Apesar de tratar hoje o futebol como um hobby, ele relata ter recebido proposta para integrar as categorias de base do Grêmio, em Porto Alegre - apesar de ser colorado de coração. "Fui convidado para um teste, mas acabei não indo. Tive medo de passar, do que poderia acontecer."

Preparação

O momento, o criador Norton Duarte conta, é de misto de emoções: os 14 atletas que representarão a equipe vivem ao mesmo tempo a euforia pela conquista e a corrida para conseguir o dinheiro necessário para a viagem. Só a inscrição custou R$ 1.000,00. Existem ainda gastos com transporte, hospedagem, alimentação. Para isso, o time colocou à venda o uniforme criado - inteiramente rosa -, adesivos com o escudo e uma rifa. Ainda falta um tanto, porém, e o auxílio da Câmara, através do vereador Marcos Ferreira - Marcola (PT), confirmado na última quinta-feira, foi bem-vindo. "A expectativa é unir ainda mais o grupo e participar, no segundo semestre, de um campeonato nacional", completa Duarte.

A competição e o cenário

A Copa Sul Gay será disputada na Grande Florianópolis, entre 8 e 10 de fevereiro, e está em sua terceira edição. Participam do torneio equipes formadas por gays oriundas de Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. A ideia é, exatamente, dar campo para pessoas que curtem jogar bola, mas são excluídas ou se sentem desconfortáveis e meio a times héteros.

O cenário nacional mostra que vem crescendo a coragem de jogadores homossexuais em assim se assumir e se sentir livre para fazer algo que se gosta. Além da Copa SulGay, em 2018 surgiu a Champions Ligay. Disputada em Porto Alegre, recebeu 250 atletas distribuídos em doze times. Barbixas, time de Minas Gerais, foi o grande vencedor.

Documentário

Carlos Queiroz 78175A trajetória do Real Flamingos na Copa SulGay terá registro. O estudante de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Leonardo da Rosa, aprovou em edital do Canal Futura a realização de um documentário contando a história do time pelotense. O filme será transmitido, na TV aberta, no meio do ano.

Ao Diário Popular, Da Rosa conta que a ideia para a produção surgiu, também, da publicação que Norton Duarte fez em redes sociais chamando gays a formarem uma equipe de futebol. "O tema do edital era coletivos jovens. Mandei mensagem para a página do time e eles toparam", conta. As gravações começam neste domingo e se estenderão durante e depois do campeonato disputado na Grande Florianópolis.

Na opinião do estudante, o Cinema , através de ações como a do edital em que foi contemplado, proporciona mais visibilidade a temas importantes, mas nem sempre discutidos na sociedade - a homofobia no futebol entre eles. "É necessário e temos responsabilidades, como realizadores audiovisuais, em contar e buscar histórias como essa, mostrando e gerando discussão sobre os preconceitos que vivenciamos no dia a dia", comenta. "Acredito que a iniciativa do Real Flamingos, e agora através do documentário, gere discussão e repercussão além de Pelotas, para que combata todo e qualquer tipo de preconceito no esporte, que é historicamente machista e homofóbico", completa.

Contribua

O Real Flamingos ainda precisa de apoio financeiro para viajar. A camisa oficial do time, ao custo de R$ 60,00, e o adesivo com o escudo, que sai por R$ 2,00, estão à venda na página oficial da equipe.


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