02 de Outubro de 2021 - 05h00

Um encontro com Getúlio Vargas

Por: Rubens Amador

O ano foi no início do inverno de 1949. Carlos Barboza Furtado era cunhado do Cel. Eurico de Souza Gomes, diretor da Central do Brasil, e que veio na comitiva de Getúlio Vargas, que estava em caravana política por Pelotas. Carlos, que era casado com uma prima-irmã minha, perguntou-me: vou ao encontro do Eurico, que está lá no Grande Hotel, queres ir comigo? Prontamente concordei.

Ao lá chegarmos, um número enorme de pessoas se apertava frente ao hotel. Nós fomos abrindo caminho por entre as pessoas. Foi neste exato momento que, olhando para a esquina fronteira ao hotel, vejo - vindo - o ministro Oswaldo Aranha, de braço como o Dr. José Brusque, hoje estátua em nossa principal praça. Em seguida chegamos à escada que levava ao primeiro andar onde estava parte da comitiva. Carlos Furtado, meu primo político, solicitou a um integrante da comitiva que cientificasse ao Cel. Eurico que seu cunhado estava ali. O militar, solícito, subiu a escada apinhada de gente, e após breve demora, apareceu na grade, no patamar do primeiro andar, a figura de Eurico, fazendo sinais com a mão para que subíssemos. Carlos puxou-me pelo braço e fui atrás dele. No exato momento que atingíamos o primeiro piso, de um quarto, à esquerda, vinha saindo Getúlio Vargas em direção ao quarto principal que dava para a frente do Grande Hotel, fronteiro à praça Cel. Pedro Osório, no mesmo piso.

Ao vê-lo pessoalmente, pele crestada pelo sol (vinha de Itu), sorridente, trajando um terno de casimira azul, com listras largas, esbranquiçadas, trazia sobre os ombros um xale de cor marrom com franjas. Estendi-lhe a mão, como fizera o Carlos, e ele retribuiu o gesto, sempre sorrindo, detendo-se por segundos em sua marcha, sem nada dizer. Foi neste exato momento que olhei para a porta do quarto de onde o agora ex-presidente saíra, portas abertas em par, e vi a figura de um negro enorme, sem chapéu, apenas com uma camisa branca, apoiando-se com ambas as mãos na parte superior da porta, tal sua altura. Era o famoso tenente Gregório Fortunato, que, fiscalizava o pequeno trajeto de seu chefe, creio, cuidando o percurso "do homem".

Foi tudo muito rápido, pode-se imaginar. Mas a cena ficou-me gravada na mente até hoje pelo carisma inegável com que aquele homem de baixa estatura imediatamente eletrizava as pessoas. Ele estava vivendo seus últimos momentos de simples humano. Em breve se tornaria um mito. Saímos com o Cel. Eurico e, de carro, percorremos vários pontos da cidade que Eurico de Souza Gomes, pelotense, não revia há muitos anos. Fomos até a chácara em que passara longas temporadas com a família, na Guabiroba. Foi uma tarde em que rodamos muito, ele matando saudades. Lembro-me que fez questão de ir ao Café João Pessoa, depois Nacional e hoje Aquários.

Voltando à figura ilustre e carismática de Getúlio Vargas, só vim a lembrar-me dele, com ansiedade, em certa manhã, pelas 7h30min de 24 de agosto de 1954. Eu me arrumava para sair para o trabalho quando ouço na Rádio Nacional, em edição extraordinária, a notícia dada por Eron Domingues, emocionado, cientificando ao país que, naquele momento havia se suicidado Getúlio Vargas, com um tiro no peito, após forte pressão do Exército à beira da insurreição. "Serenamente saio da vida para entrar na História", deixou escrito.

Já tenho contado aos meus netos, com orgulho, que embora fortuitamente, apertei a mão de um homem que jamais sairá das páginas da nossa história e que realmente foi um líder que deixou muitas obras importantes. Contei-lhes quem foi este grande homem, para que reconheçam o mito, mais tarde, ao folharem as páginas da História, e seguindo a tradição verbal de família dos que, como eu, fui seu contemporâneo.

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