25 de Junho de 2022 - 05h00

OS IDOS DE MARÇO

Por: Rubens Amador

Júlio César foi o único general romano invicto em batalhas. Era amado pelo povo. Demagogo, acabou provocando a ira da aristocracia. Sofria de epilepsia num tempo em que não havia medicamentos que atuassem na região límbica do cérebro e seu sofrimento determinava-lhe comportamentos hoje dignos da moderna psiquiatria. Por exemplo, quando os senadores ofereceram-lhe a coroa de rei, agradeceu e zombou da oferta, embora todos soubessem que era isto que desejava.

O povo exultou com sua negativa, o que ofendeu aos senadores. Passado certo tempo, conta Plutarco, concederam-lhe o único título superior ao de ditador: deus-vivo. Porém, César reagiu à homenagem de forma inimaginável: cometeu a gafe de ficar sentado após ter-se recusado a receber a honraria. Isso foi considerado pelos senadores um grande insulto. Não esconderam seu desagrado em altas vozes. César, então, de repente afastou o manto e ofereceu o pescoço bradando: “Venham matar-me! Não me defenderei!”.

Como leigo, atrevo-me a supor que a epilepsia de César já estava a mostrar que o grande personagem vinha imbuído do instinto de morte, dado seu sofrimento. Quando César morreu, antes dos 60 anos, os homens geralmente já eram considerados velhos, porque até então a medicina pouco podia fazer. César foi casado três vezes; era homem de grande energia e libido. Cleópatra foi uma de suas amantes – dentre as quais estava, também, a mãe de Brutus, Servília Cepião, que, disse Suetônio, foi o maior amor de sua vida.

Brutus sofria desde jovem; perseguido que era por boatos que questionavam sua origem. César reforçou esta ideia ao conceder-lhe honrarias e promoções. O grande general romano aos 56 anos foi proclamado ditador perpétuo de Roma. Conta Plutarco que a traição começou a ser urdida pelo senador Caio Cássio Longino, um jogador de temperamento forte. Na guerra civil que levou César ao poder em Roma, Cássio lutou do lado errado. Pensou que César ia executá-lo por isso. Mas, ao contrário, César o perdoou e o promoveu. Mas quando César negou-se a promovê-lo mais uma vez, passou a odiá-lo, e iniciou a conspiração famosa, segundo Plutarco, procurando logo a Brutus, que sabia estar ressentido com o protetor de ambos. Quem sabe Brutus no fundo o odiava por ter sido Cesar amante de sua mãe.

A história do cão que morde a mão que o alimenta repetia-se. No dia 15 de março de 44 a.C., César ia carregado em sua liteira por centuriões depois de ter dispensado toda a segurança, em direção ao Senado, onde cerca de 60 senadores o aguardavam; porém, só uma parte deles, não mais que cinco ou dez, participaram do crime. De repente acercou-se da liteira um tipo aparentando discrição e entregou um bilhete: “Leia sozinho e rápido este bilhete, pois contém assunto de muita importância”. Tratava-se de professor grego chamado Artemidoro. Não há provas de que César tenha lido.

Ao chegar na reunião, os senadores o cercaram para cumprimentá-lo, “Ave César!”. Enquanto isso, alguns mais próximos ergueram adagas romanas e começaram a esfaqueá-lo. Cássio atingiu-lhe no rosto e Brutus na virilha.

Vinte e três foram as punhaladas, mas só uma fatal, desferida na lateral das costas. Na sua mão direita, ensanguentada, estava o bilhete que Artemidoro lhe entregara e que o avisava do atentado. César desprezou também a um oráculo e que lhe advertira que “se cuidasse com os idos de março...”.
Creio também, que César usou os senadores para matá-lo e, assim, passar à história, ganhando a imortalidade e se livrando do chamado Grande Mal, como é conhecida a epilepsia. Afinal, repito, dando ênfase ao fato de que, na derradeira hora, proferiu: “Até tu, Brutus, meu filho”. Se indagou: “até tu ...”, é que sabia que também havia outros consumando o atentado. Só não imaginava o filho de criação entre os conspiradores. Teria sido lido o bilhete? Ficará para sempre no conhecimento só de Deus. Não lhe parece?

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