21 de Maio de 2022 - 05h00

O cinema I

Por: Rubens Amador

Para a maioria dos da minha geração, foi o cinema a principal distração de massa que já houve. O cinema tornou-se uma arte: a sétima! As outras foram arquitetura, pintura, escultura, música, literatura e teatro. São as chamadas Belas Artes, conceito europeu. Das arenas romanas e gregas, que no passado também enfeitiçavam as pessoas apesar da sua brutalidade, o cinema, o máximo que poderia ferir, era quando mostrava cenas de tristeza, vividas pelos atores na tela. Algumas inesquecíveis.

Até surgir a televisão, foi o cinema a grande distração popular em todo o mundo. Hoje muitas casas daquele espetáculo foram transformadas em supermercados, garagens ou estacionamentos. A América do Norte dominou esta arte como alegria industrial. Ali foi o grande reduto, depois espalhou-se pela Europa e deslumbrou também as demais Américas. Parecia que aquelas horas de encantamento mágico jamais seriam superadas como fator de alegria e divertimento. Um deslumbramento. O grande barato da juventude do passado era colecionar fotos de artistas, recortados de revistas. Os álbuns. Fui um grande colecionador.
Minhas coleções me trazem à memória nomes como os dos irmãos Barrymore e sua irmã Ethel. Rita Hayworth, Judy Garland, James Dean, Alain Delon, Charles Boyer, Brigitte Bardot, Jean Gabin, e muitos outros inesquecíveis.

Os pobres juntavam dinheiro para poderem comprar seus ingressos e, pelo menos nos domingos, fazerem – sem o saber – suas catarses semanais. Cada cidade de certo porte tinha, de um a seis cinemas. Havia grandes casas de projeções, famosas, que se tornaram grandes empresas. Em Pelotas, por exemplo, havia a XIS, (Xavier e Santos), que dominava o setor com as melhores casas. O cinema nos fazia muito felizes. Nenhuma outra arte popular atingiu tantas pessoas no mundo com suas histórias.

Os artistas eram adorados e grandes nomes surgiram nas telas. Seus nomes até hoje são lembrados com nostalgia. Entre a gurizada a gente considerava filho de porteiro de cinema o mais feliz dos garotos. Eu e o Célio Arruda (onde andas?), subíamos até o teto do Hotel Brasil, onde ele morava, pegado ao Sete de Abril, e nos deitávamos sobre as telhas metendo nossas cabeças num daqueles respiradouros que têm até hoje nos camarotes do Sete de Abril – de forma oval – e assistíamos de graça a filmes inéditos da semana, embora quando o filme terminava nossos pescoços doíam muito.

Tinha outro amigo, o Índio, (este anda por aí e seguido nos encontramos). Seu pai era fiscal do Ministério do Trabalho e tinha uma “permanente”, que lhe permitia entrar em qualquer cinema. O Índio, muito camarada, ia até um portão de ferro que tinha no Capitólio, depois que entrava, me passava a “permanente”, e quinze minutos após eu a apresentava ao porteiro e entrava de graça. Era o tempo difícil das vacas magras, idade entre os 13 e 14. Eu gostava de passar para traz o porteiro do Capitólio, que era o mais durão de todos na cidade. Não dava mole para ninguém.

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