16 de Outubro de 2021 - 05h00

O boateiro

Por: Rubens Amador

Estávamos no período mais duro da Revolução. Apesar disto o homem não se emendava. Se estava em um velório, logo puxava o primeiro pelo braço e ia dizendo, com aparente mistério: "Amanhã o dólar vai triplicar. Esta me veio de fonte limpa!" E em outra rodinha já dizia que tinha ouvido na TV que o General Normélio estava mobilizando a tropa, sempre olhando para os lados como se estivesse revelando segredo de Estado. Se estava no futebol, puxava assunto com o vizinho e já lascava: "Me disseram que ouviram, em edição extraordinária, que os americanos estão desembarcando na Amazônia". O outro abanava a cabeça e já se virava para o amigo ao lado para passar a última "de fonte fidedigna", quentinha.

E assim nosso personagem ia espalhando boatos na feira, no café, no prado. Onde encontrasse interlocutor, lá vinha ele com "a última de fonte muito autorizada". O homem se tornara uma espécie de virulenta epidemia de boatos. Até o ponto que o coronel comandante do Regimento mandou prendê-lo. Quando, trêmulo, o fofoqueiro entrou acompanhado de duas praças no gabinete do militar-chefe, este encarou-o bem e bradou: "Então você que é o famoso boateiro, não?" "Céus, logo eu que sou inimigo de fofocas, meu coronel!" Aquela contestação lhe saiu com voz diferente da habitual. A boca seca. "Deve haver algum engano." O militar levantou-se e foi desenrolando uma espécie de édito da Idade Média, enquanto, lendo-o, minuciava: "Dia 2, no Café Torrado, às 9h você afirmou que a Casa da Moeda estava falimentar. Dia 8, no Cine Fagulha…" (e narrava novo boato). "Dia 17", continuou, "às 15 horas, na sala do conhecido dentista José Gralha, você largou sua 'ultima quentinha'".

Nosso anti-herói ouvia o relatório, branco como folha de papel almaço sem pauta. "Mas coronel…" Tentou armar mais um desmentido. "Tem mais", atalhou o militar , alteando a voz: "Dia 30, no velório do Dr. Teodorico, você falou em certa bomba que iria explodir na praça!".

O homem, frente ao comandante militar, tremia ante aqueles minudentes relatos dos boatos maldosamente por ele espalhados. O coronel dirigiu-se aos dois soldados que escoltavam o preso: "Amanhã, às 5h, ao amanhecer, vamos fuzilar este tipo inconsequente!". Um forte mau cheiro se fez sentir na ampla sala. "Levem-no, e ligeiro", ordenou o oficial, acercando-se de enorme janela aberta.

Cinco horas da manhã. Ouvia-se o cacarejar de um galo ao longe. No horizonte o sol começava a surgir. No pátio da unidade militar tudo encenado: quatro tamboreiros, sete soldados com seus fuzis ante um tronco de grossa árvore que serviria para amarrar o "condenado". Tratava-se apenas de um susto que o comandante queria dar naquele empedernido boateiro. As próprias balas seriam de festim, de onde só sairiam estampidos, nada mais. A cena, patética e silente! O fofoqueiro era todo um "béribéri" na última potência. Amarrado o "condenado", o praça afastou-se. O coronel desembainhou sua espada e ordenou com voz firme: "Atenção... Apontar… Atirar!". Assim que os tiros se fizeram ouvir, nosso anti-herói caiu pesadamente… desmaiado e com palidez cadavérica. Em poucos minutos, porém, já estava de pé, braguilha toda molhada, enquanto o próprio coronel o desamarrava e dizia-lhe, com ênfase: "Olha, hoje foi só encenação, seu fofoqueiro de m..., com os fuzis sem bala, mas na próxima…" "Pode deixar, meu coronel. Jamais de minha boca sairá qualquer boato. Juro pelo que há de mais sagrado!" Pelos muros do quartel dava para ouvir-se as risadas da soldadesca.

O boateiro, recomposto, já vestido e humilhado, foi posto para fora da unidade e, quando caminhava a cerca de 500 metros do quartel, deparou-se com um padeiro seu conhecido, de carroça, na faina de distribuir pães àquela hora da manhã para seus fregueses. "Ezequiel, vem cá, ouve aqui a última!" E entre misterioso e novidadeiro, falou entre dentes: "Olha, nosso exército anda pelas 'caronas'. Eles não têm nem balas para os seus fuzis… Quem te fala sabe o que está dizendo..."

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