04 de Dezembro de 2021 - 05h00

O beijo da morte I

Por: Rubens Amador

Kiss, em inglês, sabemos todos, quer dizer: Beijo! Pois 'kiss' era o nome da boate de Santa Maria que transformou - de repente - um ambiente de alegria, descontração, alguns beijos furtivos, próprios de jovens dançando embevecidos, em gritos! No princípio sem que ninguém compreendesse a razão de ecoarem naquele ambiente de música e cores tanto desespero! Em certo momento todos correm. Todos em direção da porta de saída, num gesto de puro reflexo. Mas os seguranças os impediram - logo no início- (cumprindo ordens) que os jovens, moças e rapazes, por ali saíssem sem antes pagarem a conta.

Tudo foi rápido; parecendo aos seguranças que se tratava de uma das costumeiras brigas que geralmente ocorrem quando há muita gente junta. Mas não se tratava de fuga da conta, logo viram os funcionários, o que acontecia era a corrida desesperada de uma multidão que sempre perde a razão e o sentido de discernimento, quando buscam salvar suas vidas! Havia fogo no teto, que rapidamente cresceu em intensidade, e este foi o pavor inicial. Mas aquele fogo maldito desprendia uma fumaça negra que cegava, intoxicava e não permitia a ninguém naquele ambiente uma livre respiração, pois estava queimando suas vias respiratórias e seus pulmões com monóxido de carbono, naqueles pobres jovens que até poucos segundos vestiam-se com aprumo e elegância. Ato contínuo, a pequena e única porta de saída liberada recebia uma "manada" de criaturas procurando salvar suas vidas. E como sempre acontece nessas situações, o cavalheirismo é substituído pelo impulso animal do instinto de conservação. E corpos de moças e rapazes formaram um sangrento tapete humano, onde a cada pisoteada do que conseguia sair matava outro por sufocamento ou trauma importante na cabeça, principalmente. Os saltos altos usados pelas moças na ocasião se tornaram agulhas afiadas que perfuraram o corpo de colegas moribundos naquele único e desumano trajeto que o destino colocou naquele ambiente que se transformou - de repente - de um beijo carinhoso num beijo da morte!


Foi uma tragédia indescritível que deixou logo, a dezenas de mortos, dando àquelas criaturas cheias de vida, há minutos, a esperança no futuro; num cenário da mais cruenta das batalhas. Foi um espetáculo dantesco! Duzentas e trinta e seis pessoas até agora estão mortas e enterradas, deixando cada uma delas no coração de seus pais, irmãos, tios e tias, e demais parentes e amigos, um oceano de lágrimas que ainda não poderão ser canalizadas devidamente.


Sobrou só a desesperança e a dor. Santa Maria chorou. O Brasil chorou. O mundo chorou! Esta tragédia de reunião de moços em busca de alegria e festa veio trazer à pacata cidade de Santa Maria, berço maior da formação cultural de jovens provindos de vários lugares de nosso Estado, um acontecimento que levará muitos e muitos anos para se apagar.

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