02 de Julho de 2022 - 05h00

AINDA CESAR

Por: Rubens Amador

Talvez sejam poucos os que sabem que a primeira autópsia realizada na história da medicina foi praticada no corpo de César, assim que ele foi assassinado. O nome do médico romano que a realizou era Anfísius.

Conta a história universal que a primeira coisa que chamou a atenção do esculápio foi um papel amassado que César trazia em sua mão direita ensanguentada. Tratava-se daquele bilhete que um cidadão do povo lhe entregara quando o ditador ia para o Senado naquele dia fatídico, conduzido em sua liteira. A pessoa teria se aproximado, aberto a cortina, e entregue discretamente na mão do comandante das legiões romanas o referido bilhete, afastando-se para não se envolver. Nele estava escrito um aviso: para que não fosse àquele encontro no Senado, pois seria assassinado.

Pairam dúvidas se César leu o citado bilhete e se inteirou do complô que o aguardava. O certo é que marchou para o Senado. Especula-se que César, por sofrer desde a juventude de epilepsia, era um homem que sofria muito, pois naquela época não havia medicamentos que atuassem nas regiões límbicas do cérebro, como já vimos. Além de seu sofrimento proveniente do chamado Grande Mal, seu procedimento como ditador sanguinário teria se acumulado em sua consciência, e agora o seu superego o cobrava.

Crimes como os que praticou na Gália foram resumidos por Plutarco numa só frase: “Em menos de dez anos tomou de assalto mais de 800 cidades; subjugou trezentos 300 estados; e, dos três milhões de homens que ao todo enfrentou em diversas ocasiões, matou um milhão e aprisionou outro tanto.” Mas César não se limitava a matar apenas os que combatiam contra ele. Em uma de suas invasões chacinou quase meio milhão de mulheres e crianças - horrendo monumento de crânios humanos levantados à sua glória militar! Seu discricionarismo ia a tanto, que divorciou-se da própria esposa porque um amigo procurara seduzi-la. Não tinha razão alguma para crer que ela tivesse correspondido, “mas, a mulher de César” – disse – tentando justificar o injustificável, “deve estar acima de qualquer suspeita”.

Porém, ele era considerado “omnium mulierum vir”. Isto é: “o marido de todas as mulheres”; embora os gracejadores de Roma, que seriam os caricaturistas e humoristas de hoje, o chamassem de “a mulher de todos os homens”. E aqui se poderia perguntar jocosamente: “Até tu, César?”.

Voltando aos seus últimos passos, sua marcha para o Senado naquele dia 15 de março do ano 44 a.C., seria, pois, um encontro deliberado com a morte. Por que não? Não deixa de ser curiosa a expressão: “Até tu, Brutus, meu filho!”, por ele pronunciada, cheio de surpresa. Ao indagar: “Até tu?...” Pode-se especular que já sabia que havia outros implicados naquele crime. Porém jamais deve ter pensado que seu próprio filho participasse da chacina, sendo um de seus matadores ali na Escadaria do Senado. Teria ele lido o bilhete encontrado em sua mão? Isto ficará para todo o sempre sem uma resposta.

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