27 de Novembro de 2021 - 05h00

À propósito de um epigrama meu

Por: Rubens Amador

Dentre os epigramas que costumo escrever de vez em quando, um chamou a atenção de profissional da área que o leu e discutiu comigo minha afirmação. Como em psicologia sou mero "amador", comecei a pensar em embasar o que afirmei: "Acho que todos nós somos neuróticos. E que esta situação se instalou em nós quando descobrimos que somos finitos." Com quem da área discuti o assunto por primeira vez confessou-me que ficou em "dúvida" sobre minha afirmação.

Há poucos dias, porém, encontrei-me com outro psicanalista muito capacitado, que fez toda sua formação em Buenos Aires durante muitos anos, e então abordei o mesmo assunto com ele. Ao dizer-lhe meu epigrama, ele mostrou-se surpreendido tal como se nunca tivesse pensado no assunto, e como bom psicanalista que é, ficou pensando um pouco e a seguir respondeu-me que "sim, a afirmação dá o que pensar-se. Há algo de verdade no teu epigrama."

Então passei a pensar na argumentação inconsciente que me levou a criar a sentença. Como poderia defender minha tese? Então lembrei-me que os Autistas e os Downs, têm os seus conhecidos problemas, mas, penso, jamais são neuróticos. A neurose, também penso ser: um conjunto de sintomas que indicam um transtorno do sistema nervoso, sem que um exame anatômico ache lesões no dito sistema.

As razões que determinam as condições dos autistas e portadores de Down, são as mesmas, no meu ponto de vista: eles ignoram o fenômeno Morte! Jamais sabem dela, e portanto não a temem!

Daria um exemplo: separaríamos três grupos; cada um com dez indivíduos, todos com 12 anos de idade. Dez seriam Autistas. Dez, portadores da Síndrome de Down. E os outros dez seriam de meninos dos que consideramos "normais", que já sabem tudo sobre a vida e a morte!

Estamos em Dubai, onde há o edifício mais alto do mundo, o "Burj Khalifa", com 200 andares e 828 metros de altura. Os autistas e os síndrome de Down, seriam levados, todos, por um acompanhante até o topo, sem nenhum tipo de angústia ou emoção por parte de qualquer um deles. Já quando chegássemos ao terceiro grupo ser-lhes-ia perguntado quem gostaria de subir até o último andar. Estou inclinado a responder que apenas dois os três daqueles meninos se ofereceriam para atingir os 828 metros de altura. (Você que me lê deve estar imaginando-se ante uma situação dessas e pode julgar).

Os sete ou oito meninos que se negaram a subir traziam consigo um medo até certo ponto irracional, por conhecerem o fenômeno "morte."! Os "normais", sentir-se-ão muito mal, se levados a força para lá. Suarão, tremerão, ficarão tontos, e serão inclusive incapazes de darem alguns passos em tal altura. Essas criaturas, tal como a maioria dos seres humanos têm esse medo introjetado, desde que ficaram sabendo da nossa finitude.

Já os que para lá fossem levados, SEM MEDO ALGUM, creio que nada sentiriam. Um dos dois ou três que tiveram coragem de subir, entretanto, podem ter até outros medos, como d'água; de insetos; de escuridão; ou outras situações criadas por suas mentes. Agora, cada um com sua neurose. Baseado nessas especulações "amadoras", é que acredito no meu epigrama: "Acho que todos nós somos neuróticos. E que esta situação se instalou em nós quando descobrimos que somos finitos."

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