23 de Outubro de 2021 - 05h00

A morte de Diana

Por: Rubens Amador

Tia Natália, à noitinha, quando meu tio retornou da faina campesina, se queixou mais uma vez: "A Diana, não satisfeita em ameaçar as ovelhas, comeu todos os ovos da ninhada, Rhode, e agora deu para matar os pintos também". Meu tio Pedro, que não era de muita conversa, ordenou aos meus dois primos, seus filhos, de 16 e 17 anos de idade: "Amanhã deem cabo dela!". Nos meus 13 anos, pensei se aquilo não queria dizer uma sova bem dada. Mas nada perguntei.

Depois do jantar foi que os guris me convidaram: "Amanhã vamos matar a Diana, queres ir conosco?". Engoli em seco, mas não quis passar por medroso, afinal eu era menino da cidade e eles estavam sempre "inticando" por causa disto. "Claro, eu quero ir com vocês, sim", respondi, procurando aparentar postura bem machista. Mas naquela noite custei a pegar no sono, pensando se eu ia aguentar a cena que já mentalizava morbidamente.

O dia amanheceu lindaço. Despertei pensando em Diana e no seu fim próximo. Era uma cadela toda branca, mestiça com galgo. Gaudéria, não tinha dono, apesar de ter nome. Andava por aí... Ultimamente Diana dera para rondar a propriedade dos meus tios. Ah, sua ladra!

Mesclado com ganidos ouvi chamarem meu nome: "Rubens, vamos!". Vesti-me depressa e corri para fora da casa indo para o terreiro onde o Aristeu e o Dirceu (meus primos) já estavam com a cadela amarrada. Aristeu levava a tiracolo uma arma de caça, que calçava enormes cartuchos verdes e que eu vira ser manuseados por ele, à noite, na véspera. A mim tocara levar uma pá de corte.

Caminhamos um bom pedaço mato adentro. Perto de um riozinho, Dirceu, o mais velho, determinou: "Aqui tá bom!", e amarrou a cadela que gania sem parar. "Ela sabe de tudo", me segredou o Aristeu. Diana foi amarrada a uma árvore fina. Tomamos uma distância de sete ou oito metros aproximadamente. Os guris, como eu era hóspede em férias, vindo da cidade, resolveram ser gentis e ao mesmo tempo me testarem: "Toma, atira tu, tchê!". Mais uma vez não quis dar o braço a torcer. Peguei a arma fingindo descontração, mas louco de medo. Jamais atirara a não ser com bodoque. Apontei. Vi a pobre cadela pulando junto ao eucalipto que a prendia, debatendo-se em uma premonição fatal. Descobri que a via completamente desnítida, pois do meu cenho caiam grossas gotas de suor, fruto do meu metabolismo descompassado, por certo.

Encenei um pouco e falei: "Obrigado, sinto que hoje não estou bom de pontaria. Não vai dar." E fiz uma proposta: "Quem sabe a gente caminha outro tanto e larga a cadela bem longe? Depois deste susto garanto que ela não vai mais perseguir ovelhas, comer ovos ou pintos". Eles riram e me garantiram que não adiantaria nada, que ela seguiria o rastro e à tardinha já estaria de volta.

"Não tem jeito mesmo. E o pai deu ordem para matar ela." "Vamos logo com isso", disse o Aristeu. "Eu dou o primeiro tiro. Se falhar, aí tu dá o outro", propôs para o irmão, que concordou. Aristeu ajoelhou-se. A cadela branca e magra se debatia com ganido que era um lamento. Eu fingia olhar, mas estava de olhos fechados. Houve um silêncio indicativo de que a pontaria estava sendo feita.

PUM!!! Um tremor passou pelo meu corpo. O estampido seco ecoou ao longe. Abri os olhos em tempo de ver Diana caindo, enquanto de um de seus flancos jorrava filete de sangue. O tiro fora certeiro.

Em silêncio, ajudei a cavar com a pá que trouxera. Pela corda mesma que a prendia, foi posta na pequena vala e a cobrimos com terra. Naquela noite não pude jantar e lembro-me que custei a conciliar o sono pensando na execução de que participara.

Ainda hoje, vez por outra, me acode aquela cena triste. E cada vez menos entendo como homens adultos puderam matar, como se cão fosse, a um Federico Garcia Lorca, que jamais foi predador. Apenas pensava e criava coisas lindas através de sua poesia imortal.

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