14 de Maio de 2022 - 05h00

A LONGA NOITE

Por: Rubens Amador

Trezentos longos anos. Foi o quanto durou a longa noite da escravatura no Brasil. No dia 13 de maio que passou nesta sexta, comemorou-se a abolição daquela crueldade social que se praticava sem nenhum freio contra o negro. Nem mesmo a Igreja, com sua religiosidade e poder, que então era até mesmo radical, pouco conseguiu através de uma pregação e luta ante aquela iniquidade.

Foi uma época em que seres humanos não despertavam qualquer sentimento de piedade. Eram vendidos como gado; tratados como animais; depois de sofrerem o pior dos tormentos, que era serem retirados do seu convívio familiar, de seu solo; de sua cultura; e de repente serem aprisionados com grilhões, separados de tudo, e de um momento para o outro se viam metidos em um calabouço cercado de água por todos os lados, sem saber para onde seriam levados. Eram os navios negreiros, que a genialidade de Castro Alves tão bem descreveu em seu poema imortal.

Nosso país tem realmente esta dívida social para com os negros, a quem, talvez por uma questão cultural, ainda, decorridos tantos anos, não os integramos afim de que possam desfrutar igualdade de condições com os brancos. Negar isto é impossível. Integramos o negro, timidamente, a quem as leis protegem, mas é pouco ainda. Falta que estes patrícios tenham mais escolaridade e oportunidades de trabalho símiles às dos brancos. Hoje temos juízes togados nos tribunais, médicos cirurgiões, advogados ilustres, escritores, pessoas negras que lutaram contra a pobreza e mobilizaram os seus valores internos a favor de si. Para lembrar o país que mais discriminou, é preciso que se diga que pessoas que se elevaram por esforço próprio, apesar de toda discriminação que sofreram, como Collin Powell (general de quatro estrelas) e Condolezza Rice (cientista política e diplomata), são exemplos expressivos da sociedade americana, que cometeu tanta injustiça contra o negro. Recentemente entrou na Suprema Corte da América, pela primeira vez, uma juíza, togada de alta qualificação: também uma mulher negra, chamada Ketanji Brown Jackson. Esses são exemplos exponenciais na vida política e jurídica da América. Assim, parece que o aculturamento também é um alto fator da aceitação ampla, onde o cidadão negro passa a merecer o mesmo respeito e admiração que o branco desfruta quando vence por esforço próprio.

Os americanos do Norte chegaram a uma conclusão sobre o importante tema: depois de anos e anos de uma segregação iníqua, criaram leis de proteção ao cidadão afro-americano, muitas delas graças ao pastor Martin Luther King e a outros batalhadores. Mas a sociedade americana concluiu, dizia, que só há uma maneira de, num sentido amplo, melhorar as condições do negro, integrando-o literalmente. Que é o que estão fazendo através das telas do cinema, do teatro, da literatura, onde os negros antes só apareciam ora como cabineiros em trens, ora como empregadas domésticas de pano na cabeça, ora como marginais. Hoje esses cidadãos são mostrados nas telas e nos palcos, ora como dirigente de empresa, médico, militar ou cientista. Todos somos iguais perante a lei dos homens, a lei do amor e a de Deus.

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