09 de Outubro de 2021 - 05h00

375, matei-os por ordem!

Por: Rubens Amador

Há vários anos li o livro acima. Era escrito pelo carrasco oficial da justiça americana que operava a famigerada cadeira elétrica. Ele descreveu o comportamento de alguns condenados que sentaram na "frigideira", apelido dado pelo pessoal ao trágico assento. Narrou o autor que havia corajosos que enfrentavam seu sacrifício com elevação e sobranceria. Contou que quase todos se afirmavam inocentes, na undécima hora - (nós vimos todos os dias este filme) - dos crimes que os levaram àquela punição final. Boa parte dos condenados costumavam deixar breves recados para familiares e amigos. Tinha os que demonstravam fraqueza na derradeira hora: gritavam; esperneavam; e então era preciso serem afivelados à cadeira elétrica com energia e força pelos guardas.

As mulheres, disse em seu livro, eram as que se comportavam da maneira mais firme; geralmente fazendo oração no derradeiro momento. Mas, lembro-me, que o autor do livro enfatizava o profundo respeito das testemunhas legais nas execuções como representantes do Estado, cidadãos nomeados, como aqui se convoca um jurado.

À sala de execuções, disse o autor de 375. Matei-os por ordem!, como que se transformava em um templo, onde reinava a emoção e o respeito. Podiam-se notar furtivas lágrimas no ambiente, mas sobretudo respeito pela decisão de um tribunal que julgavam isento.

Quem não estava convicto da culpa do condenado, podia pedir exclusão de seu testemunhar por questão de consciência. Segundo o verdugo oficial, os condenados tinham tido seus processos exaustivamente examinados. Havia provas contundentes e definitivas, mas assim mesmo todos esperavam (sentimento de empatia?) que, no derradeiro momento, o telefone tocasse e o senhor governador mandasse suspender a execução.
Conta ainda o autor do livro que sentia percorrer entre todos uma sensação de alivio e discreta satisfação quando isto acontecia; inclusive - disse - que também sempre ansiava discretamente por aquele telefonema.

Trabalhava de capuz, pois presuntivamente quase ninguém sabia quem ele era; temia aos fotógrafos, que poderiam flagrá-lo e expô-lo ao ódio dos que eram contra a pena de morte, ou de algum parente de alguém a quem já tivesse executado por ordem. Ele sentia-se um profissional da morte e dos seus salários sustentava a família e praticava o lazer.

Como leitor, não esqueci a maneira como enfatizava o respeito que então imperava no recinto, onde cada partícipe daquele ato era prévia e cuidadosamente revistado. Jamais houve qualquer fotografia ou filme de qualquer execução. Era isto rigorosamente proibido por lei. O máximo que as estampas do livro que escreveu mostravam a cadeira elétrica em dois ângulos, e tinha minuciosamente explicado o seu funcionamento.

Pois isto tudo me vêm, a propósito do que também li a respeito da sala de execução do ditador Saddam Hussein, (acabo de ver em filme, também) e que mais parecia um rinhadeiro, onde cada um dos presentes livremente ofendia ao condenado, ridicularizando-o em altos brados, sem que nenhuma autoridade presente expulsasse o manifestante, pois houvera quebra de certa ritualística que prevalece nas sociedades civilizadas.

Ou seria uma questão de cultura? Um "juiz" presente disse que pensou em suspender a execução, dadas as manifestações desrespeitosas - mas não o fez _ e devidas a todo o ser humano, culpado ou não, no ato de sofrer a privação da vida.

Tudo o que aconteceu ali, e testemunhamos pela TV, dá bem uma amostra de como se houveram também os seus julgadores. Houve espécie de claque macabra, sem nenhum sentimento cristão ante o criminoso, apesar disso digno do respeito humano ao expiar por suas alegadas culpas.

Acho que o mais digno que aconteceu naquele lúgubre ato, se isto é possível, foi a forma valente e corajosa como se portou o condenado, que lia palavras do Alcorão, até ser interrompido pelo baque surdo do alçapão que de repente se abriu sob seus pés, levando aquele homem em desgraça política à presença do mesmo Juiz que haverá de julgar a todos nós um dia.

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