09 de Abril de 2021 - 10h52

Lugar de ciclista é na rua?

Por: Diário Popular

Por Felipe S. Gonçalves
Psicólogo, ciclista e colaborador

@psi.felipesg / felipesg5@yahoo.com.br

Essa semana me deparei com vários relatos de acidentes ou quase-acidentes entre motoristas e ciclistas. É fato que existem riscos nas ruas quando falamos de ciclomobilidade no Brasil. Mais de 8 mil ciclistas morreram no trânsito nos últimos 10 anos, e o numero de acidentes só aumenta – 45% em sete anos (Abramet). Além das fatalidades, é considerado normal – e lembremos aqui do conceito normal matemático, que lê como norma o que mais se repete, mesmo que negativamente – acidentes de trânsito que não levam a óbito, mas causam estrago na saúde do indivíduo. O Sistema Único de Saúde registrou quase 10 mil internações hospitalares para tratar traumas decorrentes de colisões de bicicleta com outros veículos entre 2012 e 2018, o que gerou R$115 milhões em gastos da saúde pública. E incontáveis custos emocionais ao indivíduo e suas famílias, que vivem na expectativa de qual será o próximo acidente.

É urgente que falemos sobre isso. Quem vive o trânsito sabe o cenário: como ciclista ou motorista. Para falar de segurança, é necessário pontuarmos direitos e deveres tanto de quem usa a bicicleta como dos demais veículos. Na pressa das rotinas, o menor muitas vezes fica menor ainda, quase invisível. Muitos motoristas desconhecem algumas leis que regem a boa-convivência no trânsito. Alguns ciclistas não cooperam, também. Precisamos conversar!

O que o Código de Trânsito diz sobre isso?

Artigo 29 do Código de Trânsito: Pedestres têm prioridade sobre ciclistas; ciclistas têm prioridade sobre outros veículos. Os Veículos de maior porte serão sempre responsáveis pela segurança dos menores. Pela lei e pela lógica, o maior protege o menor. Inclusive, isso passa pela famosa “fechada” nos ciclistas – Artigo 38: durante a manobra de mudança de direção, o condutor deverá ceder passagem aos pedestres e ciclistas, aos veículos que transitem em sentido contrário pela pista da via da qual vai sair, respeitadas as normas de preferência de passagem.

Há quem pense que é permitido “dar um susto” no ciclista quando ele não está com uma conduta adequada. Ameaçar o ciclista com o carro é infração gravíssima, passível de suspensão do direito de dirigir e apreensão do veículo e da habilitação (Art. 170). Aqui podemos incluir também colar na traseira do ciclista ou apertá-lo contra a calçada (Art. 192) – deixar de guardar distância de segurança lateral e frontal é infração grave. Há outras formas de correção, mais seguras. Avalie se na situação haveria outras opções para o ciclista. Fale com um agente de trânsito, ou com o próprio ciclista. Uma carcaça metálica motorizada de uma tonelada pode gerar muito estrago na vida de quem pedala, protegido apenas pelo seu capacete, pele e osso.

Sobre capacete, embora não seja obrigatório por lei, eu fortemente recomendo. Quem já passou por acidentes de trânsito sabe bem o que estou falando. O capacete salva vidas. Ciclistas, agora o papo é com vocês: prevenção. Não esperem o pior para tomarem providências. O incômodo na cabeça é menor do que o no hospital.

No cruzamento, a preferência é de quem?

Ciclofaixas e ciclovias: ao contrário do que muitos pensam, elas podem comportar trânsito nos dois sentidos, mesmo em ruas de um só para os carros. Nos cruzamentos, a preferência é do ciclista. Lembre-se da máxima ao cruzar vias preferenciais onde ocorre esse descompasso – “carros vão, bicicletas vêm e vão”. A título de exemplo, observemos a ciclofaixa que conecta o Centro e o bairro Areal de Pelotas aos balneários do Laranjal: bicicletas vêm e vão, e é dever dos carros atentar para elas ao entrar ou sair da pista de rolamento. Sem a presença de ciclofaixas ou ciclovias, o ciclista deve seguir também o Código de Trânsito Brasileiro e andar em concordância com o sentido da via, preferencialmente pelo bordo direito da mesma.

Existem muitos pontos que podemos levantar aqui para discutir e informar a todos nós, usuários do espaço público. Lugar de ciclista é na rua. Precisamos com urgência aprender a viver em harmonia, respeito, diálogo e segurança.  Peço para que você, que leu até aqui, difunda essa discussão em seu meio social. Família, amigos, colegas de trabalho. Todos nós temos rotinas, problemas e famílias para quem queremos retornar ao final do dia. Precisamos conversar!

              

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