24 de Julho de 2021 - 06h51

TV Senado debate o impacto da internet no jornalismo profissional

Por: Diário Popular

“Nos últimos dois anos, os 10 jornais mais tradicionais do Brasil registraram uma queda de 33% na circulação de exemplares impressos, mas, no mesmo período, as vendas online cresceram 25%, prova de que o consumo de notícias por meio de ferramentas digitais está conquistando as pessoas.

Qual é o impacto da internet no jornalismo profissional?

Qual é o futuro da comunicação neste ambiente digital, que torna a competição mais acirrada e abre muitas possibilidades de interação entre o público e os produtores de notícias?”

Esta foi a abertura da edição de 20/07/21 da segunda temporada do programa TV Senado 25 Anos. Nele, o editor do portal Uai, Benny Cohen, e a coordenadora de Comunicação do Instituto Palavra Aberta, Mariana Mandelli, debateram sobre as transformações ocorridas no dia a dia dos profissionais de comunicação com o avanço da tecnologia e da internet.

Preparamos para você um resumo dos pontos altos do programa.

Os jornalistas estão prontos para o mundo online?

O apresentador Ronaldo Martins perguntou para Benny Cohen se os jornalistas já estão preparados para trabalhar as notícias no ambiente digital e quais são as competências necessárias para isso. 

Segundo Benny, as pessoas nunca estão 100% prontas, além do fato de apresentarem diferentes níveis de assimilação dos novos conhecimentos. O momento digital está mostrando a necessidade de treinamento permanente, devido ao constante surgimento de novas ferramentas e de formas de construção das narrativas. 

O mito das gerações que “nasceram como um dispositivo nas mãos”

O apresentador perguntou para Mariana Mandelli se a nova geração lida com a informação de uma maneira diferente, uma vez que a maioria talvez nunca tenha folheado um jornal impresso, por exemplo.

Mariana falou sobre a importância da desconstrução do mito de que essas crianças e jovens são “nativos digitais”, subentendendo que eles já nascem prontos para o uso das tecnologias e que são mais "avançados'' que as gerações anteriores.

Mandelli afirma que isso é um mito porque a relação deles com a informação é muito diferente dos adultos atuais e das gerações anteriores, tanto para o bem quanto para o mal. 

A coordenadora do Instituto Palavra Aberta trouxe o exemplo das redes sociais: ao mesmo tempo em que pulverizaram uma série de discussões anteriormente restritas a pequenos grupos, também ocasionaram efeitos nocivos como o negacionismo e a desinformação.

É nesse contexto que entra a função do Programa Educa Mídia, o qual trabalha com educação midiática para crianças, com o objetivo de ensinar a ler, escrever e participar, de maneira ética e responsável, do mundo conectado. 

O barateamento do jornalismo

Ronaldo Martins apresentou o fato de que a internet barateou o custo de produção do jornalismo, abrindo oportunidades para que determinadas pessoas, sozinhas, distribuam informação. São os chamados influenciadores, que contam com audiências na casa dos milhões nas redes sociais.

O apresentador perguntou aos entrevistados se esses influenciadores são considerados concorrentes e se estão roubando espaço dos veículos tradicionais.

Segundo Benny, qualquer pessoa que esteja produzindo conteúdo é concorrente de um veículo ou de qualquer outra pessoa que também esteja produzindo,  pois a audiência está sendo dividida. 

O jornalista disse que há um aspecto magnífico do barateamento das tecnologias, que é dar voz a um número maior de pessoas, mas, ao mesmo tempo, isso permitiu que iniciativas cheias de má-fé se aproveitem do novo cenário para a disseminação de fake news, as quais chegaram ao ponto de influenciar o destino de países inteiros.

Para Benny, o combate à desinformação passou a ser uma das maiores tarefas das salas de redação ao redor do mundo. Além da produção das notícias, a checagem de fatos agora faz parte da agenda dos veículos comprometidos com o jornalismo sério.

Ameaça à democracia?

O apresentador perguntou se a fragmentação na produção de notícias traz ameaças para o ambiente democrático. 

Mariana concordou, afirmando que o Brasil não está isolado nesse sentido no panorama internacional. Ela citou o exemplo do Whatsapp, o aplicativo mais utilizado pelos brasileiros e que foi o pivô de um movimento de destruição de reputações, incluindo os meios de comunicação tradicionais. 

De acordo com Mariana, relatórios internacionais de liberdade de imprensa apontam que esses ataques - especialmente nas redes sociais - são orquestrados com o intuito de minar a credibilidade de algumas instituições.

A coordenadora disse que, em um ambiente democrático, criticar as instituições é um ato saudável, mas o que vem acontecendo atualmente ultrapassa esse limite, pois muitas vezes há ondas de mensagens sugerindo o fechamento dessas instituições.

Aumento das assinaturas online

Ronaldo Martins trouxe a informação de que, nos dois últimos anos, houve um aumento expressivo nas assinaturas de jornais online, a exemplo do Jornal Estado de Minas (34%), Folha de S. Paulo (34%) e Jornal O Globo (35%).

O apresentador perguntou aos entrevistados sobre o desafio de fazer com que mais pessoas assinem esses jornais em um ambiente onde as pessoas estão acostumadas a consumir conteúdos de graça.

Benny afirmou que a noção de que as pessoas só querem conteúdos gratuitos já foi ultrapassada, trazendo o exemplo dos downloads de música e vídeos: há poucos anos, todo mundo fazia, mesmo com o risco de infectar suas máquinas com vírus; hoje, está popularizada a prática de assinaturas de serviços de streaming, pois as pessoas entenderam que vale a pena pagar.

Benny afirmou que, no caso do jornalismo, essa seria a saída:

Ter um grande universo de assinantes a um preço baixo mensal. Mas, para convencer as pessoas que o investimento vale a pena, é preciso produzir conteúdo de qualidade, a ponto de os assinantes terem a sensação de que, para estarem bem informados, eles precisam ler os conteúdos disponibilizados pela assinatura.

Esse status, segundo Benny, seria alcançado com a produção de reportagens exclusivas e investigativas, preocupadas com a qualidade da informação, além de desmentir conteúdos inverídicos e tendenciosos.

O jornalismo online precisa de um novo formato?

O apresentador falou sobre a vocação do jornalismo tradicional para a organização das notícias em determinados recortes do tempo, citando o exemplo dos telejornais, que elencam as notícias mais importantes do dia, e do jornal impresso, que resume o que aconteceu de mais relevante no dia anterior.

Ronaldo Martins perguntou para Mariana se, no mundo digital, onde tudo é muito rápido e instantâneo, seria necessário que os veículos tradicionais pensassem de outra maneira, como a circulação imediata e ininterrupta de notícias.

Mariana disse que a circulação ininterrupta, aliada à falta de hierarquização das notícias, representa uma das maiores dificuldades para as gerações anteriores ao lidarem com a informação digital. Citou, inclusive, um estudo do Facebook, o qual apontou que os idosos são sete vezes mais suscetíveis ao compartilhamento de desinformação. 

👉 Mariana disse que as gerações anteriores se acostumaram com a hierarquização dos conteúdos, onde matérias de capa e de topo de página eram mais importantes, por exemplo. Hoje, no ambiente virtual, as timelines das redes sociais são fluídas, sem distinção de importância, além do fato de que os algoritmos não apresentam tudo o que foi publicado. Para a audiência que não está educada midiaticamente para operar nesse formato, o consumo da informação se torna uma tarefa mais complexa.

Mariana ilustrou a situação dizendo que, em um simples scroll de um feed, uma notícia sobre o andamento de uma CPI pode ser seguida de um vídeo com gatinhos ou por um blogueiro que fala o que aquela pessoa quer ouvir. Resumindo, agora são as próprias pessoas que fazem a curadoria de conteúdo apresentado.

A adaptação dos meios tradicionais às redes sociais

Mariana afirmou que, de modo geral, as empresas jornalísticas se adaptaram bem à agilidade das redes sociais, uma vez que é corriqueiro o fato de uma notícia aparecer antes em um feed ou timeline do que nas próprias plataformas online desses jornais.

A coordenadora citou o exemplo do uso de máscara como prevenção contra a Covid-19. As pessoas entenderam que essa é uma medida fundamental a partir dos conteúdos digitais dos veículos jornalísticos, uma vez que o governo atual não se empenhou em esforços educativos durante a pandemia.

Como anda a credibilidade dos veículos tradicionais?

👉 Benny Cohen chamou a atenção para o fato de que, em momentos de exceção - a exemplo da pandemia -, a população acaba recorrendo aos veículos profissionais, uma vez que, mesmo que de forma inconsciente, há uma relação de credibilidade atrelada às empresas jornalísticas tradicionais.

De acordo com Mariana Mandelli, as fake news (mentiras com formato jornalístico) devem ser entendidas como um “ataque ao coração do jornalismo”, por usufruírem da credibilidade da imprensa para espalhar desinformação. 

Apesar disso, Mariana acredita que o jornalismo sai fortalecido desse cenário, uma vez que as pessoas, no fundo, sabem que é a ele que devem recorrer.

A coordenadora disse também que o jornalismo tem feito um bom trabalho ao chamar influenciadores e especialistas em áreas da saúde, os quais construíram suas reputações nas redes sociais, para se tornarem fontes de informação, aliando esforços com o jornalismo tradicional.

Dessa forma, a imprensa conseguiu se aproximar das audiências no ambiente digital.

Novas possibilidades de interação com o público

Benny disse que a internet é a plataforma por excelência da narrativa, porque nela cabem todos os formatos.Hoje, o repórter tem a oportunidade de construir a história dele usando da melhor maneira possível as ferramentas que tem à disposição”, explicou o jornalista. 

Nessa liberdade cabe a escolha do formato mais adequado para contar a história, seja texto, vídeo ou podcast, entre outros.

Benny falou sobre a diferença das formas de atuação entre o jornalista do passado e o online:

👉 Antes, o repórter ia para a rua, coletava os dados, voltava para a redação, criava o texto e entregava para o editor. Hoje, a maior parte do trabalho vem depois da coleta das informações porque, no digital, não adianta criar uma belíssima matéria se ninguém vai lê-la. Para isso, é preciso trabalhar bem as redes sociais e cumprir as regras de SEO (Search Engine Optimization - Otimização para os Motores de Buscas) para que o conteúdo seja visto neste oceano de matérias em circulação.

Em resumo...

Segundo o jornalista Benny Cohen, o segredo para o sucesso do jornalismo no ambiente digital é a atuação conjunta entre redação e departamento tecnológico, de modo que a aliança boa reportagem + boa divulgação esteja sempre afinada e ágil.

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O que você achou das opiniões dos entrevistados? O jornalismo digital já acertou o passo ou ainda está tateando no escuro?

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