14 de Agosto de 2021 - 10h37

Textos longos e nada de anúncios: start-up inglesa aponta um futuro posível para o jornalismo local

Por: Diário Popular

Um pequeno escritório em Manchester, Inglaterra, abriga a redação da startup digital The Mill. O objetivo do empreendimento é grandioso:

Transformar o modo como as notícias são cobertas fora de Londres.

Mesmo sendo uma iniciativa jovem, a empreitada vem dando sinais de sucesso quanto ao crescimento de leitores e, especialmente, da geração de receita.

A seguir vamos nos debruçar no interessante exemplo do The Miil para iniciativas jornalísticas locais, entendendo o seu modelo de negócio e a forma como as notícias são enviadas para os seus leitores.

Distribuição do conteúdo

Todos os dias, The Mill envia uma newsletter (boletim informativo, em tradução livre) por e-mail para seus membros pagantes.

A news contém um artigo longo e aprofundado sobre algum assunto relevante para a população da Grande Manchester. E o mais interessante: o conteúdo chega sem nenhum anúncio.

Preste atenção, pois a startup introduz duas grandes rupturas com o modus operandi do jornalismo na atualidade:

  • Ao invés de entregar várias notícias curtas, feitas para o consumo rápido, The Mill oferece conteúdos longos e aprofundados (vários textos têm cerca de 5 mil palavras).

  • Para a maioria dos jornais online da atualidade, a inexistência de anúncios é simplesmente inconcebível, pois eles são, de modo geral, a principal fonte de receitas.

Aposta em um nicho do mercado

Não é todo mundo que quer ler somente conteúdos longos e aprofundados, mas ninguém gosta da ideia de ser interrompido por anúncios.

Com esse modelo de negócio, The Mill aposta em um perfil específico de leitores: os que valorizam a qualidade, tanto dos conteúdos em si quanto da experiência de consumo.

Números do negócio

Até o momento, a startup vem atingindo resultados promissores com a sua proposta inovadora. 

No espaço de um ano, The Mill atraiu 925 membros, os quais pagam até £ 7 por mês e contribuem com mais de £ 65 mil em receitas (equivalente a cerca de R$ 473 mil mensais), valor que financia a operação como um todo.

Além dos 925 pagantes mensais há outros 13,5 mil "Millers" (apelido dado aos leitores da newsletter), os quais assinam gratuitamente uma news semanal.

O número total de assinantes dá ao The Mill estatura e influência suficientes para garantir entrevistas com as figuras mais relevantes da Grande Manchester. 

Como surgiu a ideia do projeto

Segundo o fundador Joshi Herrmann, a ideia de criar The Mill surgiu em uma conversa com o executivo de um jornal local, que descreveu a “dependência contínua do setor da impressão e da publicidade” enfrentada pelo modelo tradicional do jornalismo.

Pensando em formas de driblar essa dependência, Herrmann elaborou o modelo baseado em newsletters e assinaturas.

Devido às suas experiências anteriores como redator para o London Evening Standard e outros títulos nacionais, Herrmann estava perfeitamente ciente do domínio da capital na mídia do Reino Unido. 

Pareceu-me estranho que a Grande Manchester, que é uma das partes culturalmente mais significativas do Reino Unido, tivesse uma oferta de mídia tão escassa”, disse Herrmann em uma entrevista para o site iNews.

Ao inaugurar The Mill, Joshi Herrmann passou a desafiar o Manchester Evening News (MEN), de propriedade do Reach, o maior grupo jornalístico da Grã-Bretanha. Palavras do empreendedor:  “Acho que deveria haver cinco jornais diferentes em cidades como costumava haver nos anos 1900”.

Na contramão dos jornais britânicos online

Segundo o iNews, os conteúdos do The Mill servem como um “antídoto para a tendência dos sites de notícias locais de produzir em massa artigos superficiais tipo clickbait (“isca de click”, em tradução literal), com o objetivo de gerar publicidade digital. Em vez disso, eles oferecem uma experiência sem anúncios, fornecendo aos leitores informações de alta qualidade e uma sensação de conclusão.

Vantagens para os assinantes

Os Millers pagantes podem acessar discussões em um grupo privado do Facebook, onde cerca de 150 superusuários se engajam em debates e ideias. A equipe editorial usa esse espaço para avaliar a escolha de pautas. 

De acordo com Herrmann, “As pessoas sentem que fazem parte de algo que importa e querem isso. Eles não confiam na grande mídia e querem fazer parte de uma alternativa, algo melhor.”

The Mill já é modelo para outros jornais locais

O sucesso da startup influenciou a criação de iniciativas-irmãs semelhantes em outras cidades britânicas. 

O Sheffield Tribune, por exemplo, conquistou mais de 300 membros pagantes em seu primeiro mês. Há um terceiro título, The Post, que será lançado em breve em Liverpool. 

As três iniciativas estão hospedadas na plataforma da Substack, que é especializada na criação de newsletters pagas. 

A Substack ajudou a minimizar os custos de infraestrutura, uma vez que a plataforma permite a publicação dos conteúdos de forma gratuita, sem limites, e começa a cobrar sua porcentagem somente depois que a news está recebendo dos pagantes.

Sacadas finais

Definitivamente, The Mill é uma iniciativa interessante, mas precisará de maior adesão de pagantes ao modelo de assinaturas.

Para que isso aconteça, talvez seja necessária, em alguma medida, uma mudança de hábitos entre os moradores da Grande Manchester, no sentido de abraçarem em massa o formato dos artigos longos e aprofundados.

Enfim, The Mill precisa de um público crescente que valorize a qualidade (tanto das notícias quanto da experiência de consumo), em detrimento dos conteúdos superficiais de leitura rápida.

Daí vem a pergunta:

Você acha que uma iniciativa desse tipo daria certo no Brasil? 🤔

Será que os brasileiros pagariam por um serviço de entrega de notícias que, apesar da exclusividade e da cobertura de assuntos locais, requer tempo para a leitura?

Ou estariam os brasileiros irremediavelmente viciados em vídeos ou em textos curtos e superficiais, postados em redes sociais com títulos sensacionalistas?

Nós, aqui no DP, não temos uma resposta pronta para essa dúvida… Por isso gostaríamos de conhecer a sua opinião.

Escreva nos comentários o que você acha disso! ✍️ 

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