01 de Maio de 2021 - 07h40

Publicar menos e escutar mais: uma nova postura para o jornalismo

Por: Diário Popular

“É hora de valorizar a escuta como um ato de jornalismo, acima da obtenção da história - ou então você pode descobrir que menos pessoas estão dispostas a ouvi-lo. ”

Esse convite à reflexão foi feito por Catalina Albeanu, editora digital da Decât o Revistă, da Romênia.

No artigo, Albeanu chamou a atenção para a necessidade dos leitores terem um espaço que reconheça, abrigue e fale sobre suas experiências, emoções e anseios. E, segundo a editora, o jornalismo pode oferecer esse espaço. 

Para as empresas jornalísticas que dependem de receitas vindas dos leitores (como as assinaturas), uma prática que vem se popularizando é a inclusão de diálogos com a audiência no processo de escolha de pautas.

Algo como o Diário Popular faz com o Canal da Comunidade, o grupo do Facebook voltado para estabelecer contato direto com o público da Zona Sul. É nesse espaço que são acolhidas as ideias, as denúncias, o envio de fotos e vídeos e as sugestões de assuntos a serem abordados pela redação do DP.

A prática dessa “escuta ativa” transcende o jornalismo e também representa um dos pilares do marketing digital: o User-Generated Content (UGC, ou Conteúdo Gerado pelo Usuário, em tradução literal). Segundo a Resultados Digitais, o UGC é qualquer tipo de mídia – comentários, posts, fotos, vídeos – que o usuário (ou o consumidor) produz espontaneamente para a empresa ou instituição com a qual está interagindo.

Na atualidade, o UGC simplesmente não pode ser negligenciado por nenhum empreendimento que gere conteúdo para os seus seguidores.

👉 Pense o seguinte: em meio à avalanche de conteúdos online a que as pessoas são expostas diariamente, o fato de algumas delas interromperem suas atividades e - de forma voluntária - interagirem com uma publicação sua deve ser considerado como um verdadeiro privilégio.

E esse é o ponto para as empresas jornalísticas: ouvir mais e publicar menos não significa simplesmente reduzir de forma drástica a produção de conteúdo, mas sim focar essa produção naquilo que emerge de forma sincera da interação com as pessoas.

Enfim, se as opiniões e as necessidades do público ocupam espaço central na escolha de pautas de um jornal, o UGC é um verdadeiro tesouro. É nele que estão estampadas as expectativas da audiência sobre o conteúdo a ser consumido.

Como desenvolver as habilidades de escuta?

Catalina Albeanu listou algumas práticas adotadas na Decât o Revistă para acertar a mão na receita de ouvir mais e publicar menos, mas de forma mais assertiva:

  • estender (se preciso) a duração das entrevistas, uma vez que as perguntas são muito necessárias neste momento;

  • realizar eventos online, tanto para abrir espaço para questões do público quanto para mostrar o quanto elas são importantes, respondendo a cada uma delas;

  • dar atenção para o que os próprios colaboradores da empresa estão dizendo diretamente sobre o que poderia ser melhorado.

A armadilha da “necessidade” de volume de conteúdo

Albeanu alerta para uma ideia equivocada e que é bastante presente em empresas jornalísticas cuja receita depende - pelo menos em parte - das assinaturas dos leitores:

“Se você é jornalista em uma organização que depende das contribuições dos leitores, é fácil sentir que não está fazendo o suficiente por aqueles que lhe deram seu apoio. E o instinto é fazer mais - o que no mundo do jornalismo muitas vezes se traduz em publicar mais”.

Acontece que, provavelmente, o maior volume de conteúdos não seja o que mais importa para os leitores neste momento. Ao invés disso, é fundamental oferecer notícias que respondam suas perguntas, que instruam seus próximos passos, enfim, que facilitem suas vidas de alguma maneira.

É fácil perceber que o volume não é o segredo

Quer ver? Basta analisar o seu próprio comportamento quando está consumindo conteúdo online, seja em sites, blogs ou redes sociais. 

Quando você está rolando o feed, é provável que 90% do que aparece na sua tela seja sumariamente ignorado. Afinal, a quantidade de opções não tem fim.

E a maioria tem a mesma cara, certo? Nesse balaio de gatos, o que mais aparece são marcas/empresas/instituições falando de si mesmas ou simplesmente reproduzindo o que outros já disseram. Nada se destaca.

Mas daí, de repente, você se depara com o conteúdo de um jornal que chama a sua atenção pelo fato de responder uma questão que lhe interessa ou por simplesmente você se sentir representado por aquela publicação.

Então, em outro momento, você vê outra notícia desse mesmo jornal, que, de novo, se afina com o tipo de conteúdo que você gosta de ler online. E esse padrão se repete de forma consistente, até você se dar conta: “Eu gosto desse jornal!”. 😍

🎯 Pronto. Essa empresa jornalística acaba de conquistar um seguidor. Quem sabe até um assinante… 

E note o seguinte: mesmo que esse jornal hipotético publique 10 conteúdos por dia, e seu concorrente direto supere esse número em 10 vezes (mas com cara de “mais do mesmo”), quem vai conquistar os corações da audiência é o primeiro. 

A hora da verdade

Catalina Albeanu convoca as empresas jornalísticas a consolidarem suas rotinas de escuta junto aos leitores, de modo a evitar que estes percam o interesse por manchetes genéricas e impessoais:

“Para organizações de mídia que se baseiam em assinaturas ou para aquelas que esperam aumentar a importância da participação dos leitores na captação de receita de forma significativa, 2021 pode ser um ano de sucesso ou fracasso para relacionamentos com a comunidade”.

Resumindo, a relação entre os jornais e as pessoas que consomem suas notícias está se aproximando cada vez mais do tom conversacional. E todos nós sabemos que ninguém gosta de monólogos. Boa parte da qualidade da comunicação depende da escuta. Afinal, quem só fala e nunca ouve se torna chato e acaba perdendo a audiência. 😒

 

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