11 de Setembro de 2021 - 08h14

Pesquisa ponta que o maior obstáculo da credibilidade jornalística é a indiferença

Por: Diário Popular

Engana-se quem pensa que o maior desafio do jornalismo na atualidade, com relação à credibilidade dos conteúdos, é o enfrentamento da rejeição proveniente de diferenças ideológicas.

De acordo com uma reportagem publicada recentemente pelo Reuters Institute for the Study of Journalism (Instituto Reuters para o Estudo do Jornalismo), “[...]a indiferença, não a hostilidade, é o principal desafio para os jornalistas quando tentam aumentar a confiança nas notícias”.

Para a criação do relatório foram entrevistadas cerca de 2 mil pessoas em cada um dos seguintes países: Brasil, EUA, Reino Unido e Índia.

Como resultado, o Instituto Reuters descobriu que, em todos os quatro, “[...] aqueles que geralmente não confiam nas notícias não são necessariamente os mais barulhentos e irritados com a cobertura de notícias (que são, em um exame mais detalhado, muitas vezes pessoas que confiam seletivamente em certos provedores de notícias). Em vez disso, os “geralmente desconfiados” tendem a ser os menos informados sobre jornalismo, os mais desligados de como ele é praticado e os menos interessados nas decisões editoriais e nas escolhas que os editores e editores fazem diariamente ao produzir as notícias”.

Em resumo, o maior desafio para o jornalismo na missão de conquistar credibilidade e alcançar mais pessoas é vencer a indiferença.

Estrutura da pesquisa

Os pesquisadores usaram uma definição diferenciada de confiança:

Ao invés de perguntarem o quanto os entrevistados acreditavam em empresas jornalísticas específicas, eles sondaram o quanto as pessoas confiam nas "informações provindas da mídia de notícias”.

A pesquisa usou uma estrutura de “resposta forçada”, na qual os entrevistados tiveram que escolher uma das quatro categorias apresentadas, sem oferecer opções evasivas como "nem confia nem desconfia". 

Fique a seguir com os principais resultados da pesquisa feita no Brasil.

Variação da confiança nas notícias

Confiar nas informações da mídia de notícias...

a) … que você escolhe usar:

  • Não confio em nada: 5%

  • Não confio muito: 15%

  • Confio um pouco: 66%

  • Confio completamente: 14%

b) … na mídia de notícias em geral no Brasil:

  • Não confio em nada: 10%

  • Não confio muito: 18%

  • Confio um pouco: 64%

  • Confio completamente: 8%

Segmentando o público pelo número de empresas jornalísticas em que disseram confiar

Esta é a porcentagem classificada em cada grupo de acordo com o número de marcas consideradas confiáveis "um pouco" ou "completamente":

  • Geralmente desconfiado: 7 a 17%

  • Confiança seletiva: 50%

  • Geralmente confiando: 9 a 17%

De acordo com o estudo, existem algumas semelhanças entre aqueles que os pesquisadores classificaram como "geralmente desconfiados" em relação às marcas de notícias em geral:

As lacunas na confiança podem ser claramente atribuídas às atitudes que as pessoas têm em relação à polarização de líderes políticos ou partidos, mas não de uma maneira ideológica uniforme. Também encontramos algumas tendências mais consistentes com respeito a variáveis demográficas específicas: pessoas mais velhas, aqueles sem diploma universitário e, em um grau um pouco menos consistente, pessoas que são brancas ou que vivem em cidades menores ou áreas rurais tendem a ser mais concentradas entre o grupo que chamamos de "geralmente desconfiados".

Veja o caso do Brasil, especificamente:

População inferior a 50 mil pessoas

  • Geralmente desconfiando: 23%

  • Geralmente confiando: 26%

População entre 50 mil e 200 mil pessoas

  • Geralmente desconfiando: 23%

  • Geralmente confiando: 26%

População entre 200 mil e 1 milhão de pessoas

  • Geralmente desconfiando: 25%

  • Geralmente confiando: 24%

População acima de 1 milhão de pessoas

  • Geralmente desconfiando: 23%

  • Geralmente confiando: 27%

E os pesquisadores complementam:

Encontramos os padrões mais consistentes em relação à idade: pessoas com 55 anos ou mais geralmente não confiam, enquanto aquelas com menos de 35 anos costumam estar super representadas entre os segmentos do público que geralmente confiam”.

Perfil resumido do público “geralmente desconfiado” no Brasil

Demográficos

  • Idade: mais velhos

  • Gênero: maior propensão a serem homens

  • Religião: mais probabilidade de não ter uma religião declarada; menos provável de ser católico

  • Raça/etnicidade: maior propensão a serem brancos

Classe socioeconômica

  • Emprego: mais frequentemente autônomo

  • Renda: menos provável entre famílias de baixa renda

Preferências políticas

  • Partidarismo: mais provavelmente não filiados; menos provável para petistas

  • Classificações de favorabilidade: tendem a avaliar Jair Bolsonaro positivamente

Divisões geográficas

  • Região: mais provável na Região Sul

A confiança nas mídias de notícias, em comparação a outras instituições da sociedade

A pesquisa do Instituto Reuters aponta que, no Brasil (assim como nos demais países pesquisados), a confiança geral na imprensa é menor em comparação com várias outras instituições da sociedade, ficando atrás de…

  • Cientistas

  • Igreja Católica

  • Igreja Evangélica

  • Forças Armadas

  • Cortes (Judiciário)

  • Polícia

Desta forma, a confiança geral dos brasileiros na imprensa só está à frente dos governos nacionais e estaduais/locais.

Conclusões

Em resumo, estas foram as principais conclusões da pesquisa do Instituto Reuters sobre a confiança nas mídias de notícias:

▶ O estudo apontou que, de modo geral, os “geralmente desconfiados” em relação às notícias tendem a ter menor escolaridade, serem mais velhos e estarem desconectados dos centros urbanos - padrões que são consistentes na maioria dos países.

▶ Uma das principais conclusões alcançadas pela pesquisa é o fato de que, ao contrário do perfil de críticos “barulhentos” que expressam suas queixas abertamente, os “geralmente desconfiados” costumam ser indiferentes ao jornalismo em geral.

Nesta indiferença entram a…

  • despreocupação com a forma como as organizações de notícias devem se comportar;

  • pouca (ou nenhuma) familiaridade com termos e conceitos jornalísticos básicos e…

  • não-diferenciação entre as marcas e seus posicionamentos ideológicos.

A questão aqui não é tanto uma profunda diferença de opinião sobre o valor das notícias, mas uma relativa falta de interesse no que as notícias são ou deveriam ser. [...] Essa indiferença pode estar enraizada, pelo menos em parte, na experiência mais limitada de usar notícias ou interagir com jornalistas, mas também em baixas expectativas sobre como as notícias podem e devem ser praticadas”, aponta o estudo.

Mas um dos principais insights trazidos pela pesquisa é a reflexão sobre o elemento-chave dessa indiferença:

Os jornalistas e meios de comunicação acreditam que o valor das notícias independentes e produzidas profissionalmente é naturalmente percebido pelo grande público, MAS NÃO É. 

Assim, é preciso deixar de lado a ideia de que o trabalho fala por si e buscar formas de mostrar o valor do jornalismo PARA CADA INDIVÍDUO e, a partir daí, criar o entendimento sobre esse valor para a sociedade em geral. 

Este é o verdadeiro desafio.  

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P.S.: Confira aqui o estudo na íntegra.

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