06 de Março de 2021 - 07h47

O jornalismo e o impacto da tecnologia nas vidas cotidianas

Por: Diário Popular

Vivemos a era do “jornalismo tecnológico”. A expressão, usada pelo professor da Escola Annenberg de Comunicação e Jornalismo da USC (University of South California), Mike Ananny, não se refere ao jornalismo que fala de tecnologia, mas sim do que se utiliza dela para fazer uma leitura da sociedade, a partir da qual se originam as pautas.

Segundo Ananny, “a tecnologia molda e reflete a vida social, política, econômica e cultural” na atualidade. E tamanha influência nas vidas das pessoas não é vista com bons olhos de forma unânime…

O próprio jornalismo encampou a luta pela conscientização sobre o grau de influência da tecnologia nas sociedades. Em um artigo publicado na série Predictions for Journalism 2021, da NienamLab, Ananny listou alguns exemplos de pautas levantadas pelo jornalismo nos últimos anos, como as críticas ao aprendizado de máquina (machine learning), às tecnologias de vigilância (a exemplo do polêmico reconhecimento facial) e à exploração do trabalho remoto, entre outras.

De acordo com o professor, essa pressão provocou resultados práticos, como ações judiciais antitruste e proibições do reconhecimento facial, assim como avanços na moderação de conteúdos e na supervisão de algoritmos.

Mas Mike Ananny acha que está na hora de o jornalismo tecnológico dar um passo evolutivo. E é sobre as ideias do professor que conversaremos a partir de agora. 

As 3 perguntas-chave para os jornalistas tecnológicos em 2021

Mike Ananny valoriza as conquistas do jornalismo tecnológico, mas acredita que, a partir de 2021, seu papel na sociedade precisa crescer em relevância.

Para isso, o professor sugere que os jornalistas tecnológicos mantenham em mente 3 perguntas-chave:

  1. Quem são minhas fontes habituais e de onde elas vêm?

  2. Quão bem eu entendo a pesquisa acadêmica em tecnologia?

  3. Que visão de vida pública minhas reportagens assumem?

Vamos entender o que cada uma representa.

1. Se as suas fontes são as redes sociais, sua visão de mundo está distorcida

Segundo Ananny, pesquisas apontam que “os jornalistas confiam muito no Twitter”. O professor alerta que essa confiança cria vieses, uma vez que há a confusão entre o que é veiculado nos feeds e timelines e o que é realmente a opinião pública.

“Esses [...] vieses e falsas equivalências não apenas excluem muitas mulheres, pessoas trans e de diferentes raças, mas também alimentam imagens distorcidas da fama da mídia social entre os acadêmicos, disse Ananny.

Resultado: o recorte da realidade expresso por pautas embasadas em redes sociais é distorcido, e essa distorção influencia o trabalho de acadêmicos e pesquisadores que analisam essas redes. 

Como solução para o problema, o professor sugere que os jornalistas tecnológicos avaliem suas fontes de forma crítica e afastem de vez a suposição de que “o Twitter é a vida real”.

2. Pesquisadores e jornalistas tecnológicos, uni-vos!

Mike Ananny critica a inexistência da conexão direta entre os acadêmicos / pesquisadores dos efeitos da tecnologia nas sociedades e os jornalistas - os quais, conforme citado anteriormente, acabam por pautar seus textos na visão enviesada das redes sociais sobre a influência das tecnologias nas vidas das pessoas.

Por não haver uma linha direta de comunicação entre eles, tanto pesquisadores quanto jornalistas deixam de contribuir o tanto quanto poderiam para uma maior compreensão do papel da tecnologia no nosso dia a dia.

Por isso, Ananny apela: 

"[Jornalistas de tecnologia]: ajudem-nos a ajudá-los. Vejam nossos dados como dados reais [...] e nos ajudem a criar culturas em que é normal que as pessoas que trabalham em empresas de tecnologia falem conosco sem medo. Juntos, poderíamos entender as tecnologias muito melhor do que agora.”

3. Como você enxerga a vida pública?

Ananny propõe o seguinte questionamento:

“Jornalistas de tecnologia, que imagem da vida pública impulsiona suas reportagens e as tecnologias que vocês cobrem?”

Segundo o professor, não existe uma visão correta da vida pública, e diferentes jornalistas responderão a essa pergunta de maneira diferente.

O ponto aqui é outro: 

Os jornalistas precisam transcender a visão de vida pública que é gerada somente por dados e estatísticas, assim como não devem simplesmente seguir a onda dos assuntos mais quentes nas redes sociais. 

É preciso haver um equilíbrio entre as pautas que retratam os ânimos (e que muitas vezes são difíceis de verificar suas fontes) e as que são única e exclusivamente originadas por análises de dados, alheias às subjetividades da vida em sociedade.

No final das contas, Mike Ananny afirma aos jornalistas tecnológicos que é possível criar um novo tipo de vida pública - em parte, por meio de melhores pautas a respeito da tecnologia e das suas contribuições para a sociedade.

Como vemos isso tudo

Inteligências artificiais, algoritmos e outras tecnologias que vêm se desenvolvendo em ritmo galopante têm potencialidades praticamente infinitas para facilitar a vida humana em sociedade.

O ponto crucial dessa questão é: como elas são usadas?

Se um algoritmo é programado para detectar padrões de consumo, com o objetivo de oferecer mais produtos com melhores chances de serem comprados, isso é uma coisa. Por outro lado, se um algoritmo fosse programado para detectar problemas reais de uma determinada comunidade, a partir das manifestações de seus integrantes em determinada rede social, por exemplo, a sua relevância atingiria outro patamar.

A mesma reflexão pode ser trazida para a prática do jornalismo. Obviamente, o uso de dados para a orientação de pautas é importante. Mas que dados são esses, e de onde eles vêm?

Por isso, Mike Ananny salienta a importância da aproximação entre jornalistas e pesquisadores do impacto da tecnologia nas sociedades. O banco de dados oferecido por esses acadêmicos tem muito mais a ver com os interesses de uma comunidade do que relatórios gerados por ferramentas para sugerir pautas com potencial de viralizar entre a audiência.

No fim do dia, o que precisamos é da revisão constante das nossas motivações. Afinal, queremos exercer nosso papel de agentes transformadores da sociedade - no sentido mais positivo possível - ou o nosso negócio é apenas colecionar likes e arregimentar seguidores, sem contribuir efetivamente para a melhoria de suas vidas?

Estamos com o primeiro grupo. 💪

 

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