27 de Março de 2021 - 08h13

Jornalista educador: saber ler é bem diferente de conseguir entender

Por: Diário Popular

“A ascensão do jornalismo ao status social cuja transcendência equivale à da educação na sociedade contemporânea.”

É sobre esse conceito, elaborado pelo jornalista Carlos Castilhos, que nós vamos conversar agora.

Para entrar no clima, pense sobre essas duas questões:

  • O que acontece quando o fenômeno chamado “comunicação social baseada na notícia” começa a exercer um papel tão importante quanto a educação formal em escolas e universidades?
  • Estaremos nós vivendo uma época em que a capacidade de interpretar a informação e tomar decisões adequadas aos nossos interesses compete em importância com a própria alfabetização?

Calma. Antes que você diga que as perguntas acima são exageradas, pare um pouco para analisar a influência da internet - e, mais especificamente, das redes sociais - no atual processo de informação da população.

Carlos Castilhos explica essa teoria em um artigo publicado no Observatório da Imprensa:

Até agora, notícia era o que chegava até nós através de jornais, revistas, emissoras de rádio ou TV. Mas a partir da virada do século XXI isto mudou e passamos a ter acesso às novidades também pela internet e redes sociais, o que acabou criando um novo sistema de produção e disseminação de notícias, algo que os especialistas acadêmicos batizaram de Comunicação Baseada em Notícias (News-based Communication, no jargão inglês).

O conceito de Comunicação Baseada em Notícias surge a partir da mudança de função da notícia: antes, seu objetivo primordial era informar e ser um produto comercial simultaneamente; agora, a prioridade é ser um “gatilho do conhecimento”.

Este ponto é fundamental para o entendimento da mudança: 

👉 A notícia, que antes da popularização da internet era tratada especificamente como um mix de informação e produto comercial, agora avança a passos firmes na esfera do conhecimento. Não é que a função comercial tenha sumido: na verdade, a importância da notícia dentro da comunicação social foi turbinada.

E por conhecimento entenda-se a habilidade para operar dentro da sociedade, tanto em termos de relações pessoais quanto profissionais. Tem a ver com se dar bem ou mal em meio ao coletivo. O sucesso ou a frustração depende da sua capacidade de acessar essas notícias, filtrá-las e saber o que fazer com o que foi aprendido. 

Mais importante ainda: esse tipo de conhecimento tem a ver com a sua capacidade de separar o que realmente é do seu interesse daquilo que manipula o seu comportamento na direção dos interesses de outros.

Castilho também analisa os desdobramentos da mudança de paradigma da notícia em outro artigo, publicado no site da objETHOS, no qual fala sobre a atribuição do papel de novos “educadores do público” aos jornalistas:

A incorporação de milhões de indivíduos no sistema digital de circulação de notícias adicionou um novo componente ao processo de produção jornalística. Se antes a totalidade das notícias eram formatadas e comercializadas como um produto para ser comprado e vendido, na era digital, a notícia passou a ser a matéria prima para a produção de conhecimentos e, por meio destes, inovações em nosso modo de vida e nossa visão de mundo.” (grifo nosso).

Para Carlos Castilho, a consequência natural do novo paradigma é a adaptação dos jornalistas em “curadores e professores do público”. Afinal, em meio à enxurrada diária de conteúdos a que somos expostos, alguém precisa ajudar o povo a saber o que fazer com tanta informação. Do contrário, o que nos resta é o caos e a crescente geração de pessoas inaptas a distinguir o benéfico do prejudicial.

Castilho explica:

Em termos bem simples, nós, jornalistas, estamos deixando de ser basicamente assalariados de empresas que publicam e comercializam notícias, produzidas por nós, para transformar-nos em curadores, analistas ou tutores de pessoas atualmente definidas como audiência, mas que ganharam a condição de protagonistas da produção de conhecimentos graças às TICs*”. *Tecnologias da Informação e Comunicação.

Como consequência, Castilho aponta a grande mudança do papel do jornalismo na era digital: agora, a informação tornou-se “o item mais importante da movimentação da engrenagem social, especialmente na interação entre indivíduos”. 

O que os jornalistas acham disso?

Se você perguntar aos jornalistas se foram eles que chamaram para si a atribuição de educadores do povo, é bem provável que a grande maioria diga que não.

Ao mesmo tempo, é interessante observar que assumir - ou não - essa responsabilidade é justamente o que separa o joio do trigo nessa profissão: 

▶ Existem os jornalistas que só querem garantir o salário e não questionam em nada as pautas sugeridas (ou, pior ainda, participam voluntariamente de jogos de interesses por meio da produção de notícias enviesadas).

▶ Por outro lado, uma parte considerável da categoria mantém firme o voto assumido no dia em que receberam seus diplomas. São esses os que aceitam o papel de curadores / educadores, pois entendem que, na atualidade, não há como se isentar dessa responsabilidade sem que haja efeitos nocivos na sociedade.

Carlos Castilho elenca as adequações necessárias para o exercício da atividade no atual cenário:

Os jornalistas terão que alterar rotinas, regras e valores para poder se enquadrar nesta nova função. É um desafio duplamente difícil porque terá que superar a cultura legada pelo caráter comercial na produção de notícias e, ao mesmo tempo, explorar um espaço desconhecido no conhecimento humano, tudo isto num momento de incertezas.

Depois do turbilhão, a volta ao ponto central

O exercício do novo papel do jornalista perpassa uma série de conceitos bastante subjetivos, como responsabilidade, ética e empatia - todos eles embalados pelo compromisso de fazer da sociedade um lugar harmonioso, com menos ruídos e maior clareza dos objetivos comuns. 

Não há fórmula pronta para fazer isso dar certo, até porque o processo de transformação está em pleno andamento. Também não adianta depositar somente nas mãos dos jornalistas a responsabilidade de fazer isso acontecer. 

As empresas jornalísticas, que pagam seus salários (no caso dos contratados) e estipulam as pautas, precisam direcionar suas ações no sentido de dar suporte às linhas de frente, abraçando essa nova visão e aceitando os desafios impostos por ela.

A era da notícia como mero produto vendável está acabando. Chegamos em um ponto onde a responsabilidade pelos efeitos das notícias que entram em circulação não é negociável. 

A revolução causada pelas redes sociais no ato de informar virou a sociedade de pernas para o ar, para depois nos jogar de volta a um dos pilares centrais do jornalismo: a ética - aquela para a qual é jurado o compromisso no ato do recebimento do diploma.

Na verdade, isso nunca foi negociável. Se hoje vivemos o caos da informação é devido ao fato de que a produção de conteúdos ficou acessível a qualquer pessoa, mas também porque alguns profissionais esqueceram - ou fizeram vista grossa - para o compromisso assumido lá na formatura.

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