21 de Agosto de 2021 - 09h04

Jornalismo nos EUA: retração do impresso e crescimento digital (assim como no Brasil)

Por: Diário Popular

Um recente artigo da Forbes analisou o declínio dos métodos tradicionais de se fazer jornalismo ao longo dos anos, traduzido pelas perdas de leitores e receitas de anúncios.

Não é difícil entender cada uma dessas retrações:

  • A perda de público pode ser explicada pela capacidade insuficiente (ou até a total incapacidade) de adaptação das empresas jornalísticas aos novos hábitos de consumo do público (scanning das notícias em dispositivos móveis, por exemplo).

  • A perda de receita para outras mídias, principalmente as digitais, está diretamente ligada à mudança dos hábitos de consumo de notícias: se quase todo mundo vive online, é lá que as verbas publicitárias precisam estar.

O encolhimento do jornalismo tradicional não acontece somente no Brasil. Os EUA, por exemplo - que sempre figuram entre os maiores mercados mundiais nas mais variadas indústrias -, apresentou o seguinte cenário em 2020:

De acordo com o estudo State of the News Media, da Pew Research Center, a circulação (impressa e digital) de jornais diários foi de 24,3 milhões, e dos dominicais, 25,8 milhões, sendo que ambas apresentaram uma queda anual de 6%. Em 1990, a circulação de jornais durante a semana era de 63,2 milhões, e a dos dominicais era de 62,6 milhões. 

Em queda constante, a circulação nos EUA atingiu o menor nível histórico em 2020, ano em que a receita de anúncios totalizou uma baixa recorde de US $ 8,8 bilhões - queda de quase 30% em relação aos US $ 12,45 bilhões em 2019.

Para ter uma ideia da gradual perda de receita, em 2005 os jornais estadunidenses geraram um recorde de US $ 49,4 bilhões em receita publicitária.

Circulação mais importante do que publicidade

O estudo observou que os jornais estadunidenses geraram mais receita em 2020 com a circulação do que com a publicidade.

A pesquisa aponta este dado como tendência para os próximos anos:

No futuro, os jornais maiores e mais bem-sucedidos financeiramente (New York Times, Washington Post etc.) dependerão mais da circulação (digital) para receita do que da publicidade. Para jornais menores, sem marca nacional, o futuro será ainda mais desafiador”.

Números do líder

O New York Times é o líder em assinaturas de jornais digitais nos EUA. No primeiro trimestre de 2021, o NYT alcançou a marca de 7,8 milhões de assinantes.

O jornal tem uma meta estabelecida: atingir o número de 10 milhões de assinantes até 2025.

Desemprego no setor

À medida que a receita dos jornais diminui, o mesmo ocorre com o emprego”, relata a matéria da Forbes.

Acompanhe os dados:

Em 2020, o número de funcionários na indústria jornalística dos EUA era de 30.820 trabalhadores - menos da metade dos 74.410 em 2006.

De lá para cá, esse número só caiu… Segundo o relatório da Pew Research, em 2020, um terço de todos os jornais estadunidenses dispensaram funcionários, em comparação com os 24% de 2019. 

A consequência natural desta retração é o fechamento de jornais país afora: com a pandemia de Covid-19, 85 redações locais foram permanentemente fechadas.

Mas a pandemia só tornou mais aguda uma tendência que vem se mantendo há anos. Desde 2004, cerca de 1.800 jornais foram fechados nos EUA (1.700 desses eram semanais).

De 2004 para cá, em média, 100 jornais fecham as portas a cada ano. 

Quer saber qual é a cara dos sobreviventes?

Atualmente, existem cerca de 7.000 jornais na atividade, sendo que mais de 80% deles são semanários localizados principalmente em áreas pequenas e rurais, com circulação inferior a 15.000 exemplares. 

O resultado do crescente fechamento de salas de redação é a inevitável aparição de desertos de notícias no país.

As grandes corporações estão tomando conta

Além da queda de receitas, do aumento do desemprego e dos desertos de notícias, outro impacto negativo da crise do setor são as fusões e as aquisições:

  • Segundo a Forbes, as 25 maiores editoras do país controlam cerca de um terço de todos os jornais (em 2004, eram 20%).

  • Cerca de metade de todos os jornais dos EUA mudou de proprietário nos últimos quinze anos. 

  • Dentre os que foram comprados, a maioria era administrada por uma família ou operada por pequenas editoras regionais privadas. 

  • Os dez maiores proprietários de empresas jornalísticas controlam metade dos jornais diários do país. 

A consolidação para grandes proprietários de mídia e a subsequente perda de propriedade independente retiram as notícias e eventos da comunidade que mantiveram os jornais locais relevantes”, aponta o artigo.

Similaridades com o Brasil

Quem acompanha os artigos do DP no Digital se deu conta de que, não fossem as cifras maiores e outras particularidades, este texto poderia muito bem se tratar do jornalismo no Brasil.

Ao mesmo tempo, fazendo uma autoanálise, o Diário Popular se vê como um ponto fora dessa curva descendente. Afinal, contrariamos a regra do panorama atual em dois pontos essenciais:

  • Apesar da retração ao longo dos anos, os exemplares impressos continuam chegando nos lares dos nossos assinantes em mais de 20 municípios, enquanto a presença digital do DP se fortalece a cada dia que passa.

  • Continuamos independentes dos grupos midiáticos, sem nunca ter aderido a fusões ou aquisições nesses quase 131 anos de existência (e não foi por falta de propostas).

Sorte? Trabalho duro? Visão estratégica?

Podemos dizer que as 3 coisas ao mesmo tempo, mas com peso muito maior nas duas últimas.

Não temos como prever com exatidão o que vai ser do segmento nos próximos anos, mas podemos garantir que estaremos de olho nas mudanças e nas tendências. 

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