20 de Fevereiro de 2021 - 07h31

Iniciativas digitais levam o jornalismo até os recônditos do Brasil

Por: Diário Popular

De acordo com o Observatório da Imprensa, é dado o nome de desertos de notícias aos “espaços carentes de presença de jornalismo local” - leia-se os recônditos do país onde não há produção jornalística feita in loco. Nessas regiões, os conteúdos que chegam à população vêm de agências de notícias ou são materiais produzidos em grande parte pelos conglomerados de comunicação da Região Sudeste. Ou seja, não há notícias locais.

Os desertos de notícias são reforçados à medida que jornais impressos fecham suas portas. No outro lado da balança, esses desertos são diminuídos quando pequenas iniciativas digitais entram em cena. 

As operações digitais têm custo operacional infinitamente inferior aos antigos parques gráficos e às extensas folhas de pagamento das tradicionais empresas jornalísticas. Sendo assim, o baixo custo operacional é um dos principais motivos para o número de novos jornais online seguir em ascensão.

De acordo com a quarta edição do Atlas da Notícia, de 2021, foram identificados 1.170 novos veículos digitais em relação à edição anterior, de 2019. Essas iniciativas podem ser entendidas como um antídoto para o problema dos desertos de notícias. Enquanto jornais impressos continuam em uma linha crescente de encerramento de atividades, novos portais de notícias online florescem por todo o Brasil.

Segundo o Observatório da Imprensa, o Atlas da Notícia é a maior pesquisa nacional de dados abertos sobre o jornalismo brasileiro. O levantamento de 2021 registrou em sua base de dados um total de 13.092 iniciativas jornalísticas, o que representa um aumento de 10,6% em relação à edição anterior.

Veículos digitais seguem firme rumo ao topo

O Atlas da Notícia aponta que, atualmente, os veículos digitais são a segunda maior categoria de comunicação no Brasil, perdendo apenas para as rádios.

Estes foram os números da 4ª edição do Atlas da Notícia a respeito do total de veículos mapeados no Brasil, divididos por segmento:

  • Rádio: 4403

  • Online: 4221

  • Impresso: 3229

  • Televisão: 1239

Veículos que encerraram as atividades

O Atlas da Notícia levantou dados sobre o encerramento de atividades ao longo dos últimos 30 anos no país (ou últimos 20 anos, a depender da mídia). Os veículos impressos encabeçam a lista:

  • Impressos: 395

  • Online: 173

  • Rádio: 25

  • TV: 9

Os dados mostram que 602 veículos brasileiros de jornalismo fecharam as portas nos últimos 30 anos, sendo 61 deles em 2020. Desde 2010, mais de 350 iniciativas jornalísticas deixaram de circular no Brasil (uma média de 32 por ano). 

O Atlas da Notícia ressalta que esses números podem ser ainda maiores, uma vez que são raros os registros de fechamento de empresas jornalísticas fora dos grandes centros urbanos.

A democratização da informação

São considerados atores de grande importância no atual cenário os veículos não tradicionais, que englobam iniciativas nativas como redes sociais e blogs individuais de notícias

Devido à expressividade dessas iniciativas, os veículos não tradicionais passaram a ser incluídos na categoria digital do Atlas da Notícia a partir de 2019. Para se ter uma ideia da força desses meios, eles representam um terço de todos os veículos digitaiscadastrados no levantamento - com destaque para a Região Nordeste, onde o percentual sobe para 66%.

Os veículos não tradicionais ajudam a levar as notícias a comunidades anteriormente desassistidas de informação. Esses empreendimentos amenizam a carência de conteúdos locais, que pautem os interesses e as necessidades das sociedades às margens das metrópoles.

Os números da 4ª edição do Atlas da Notícia

Na edição deste ano foram identificados 3280 desertos de notícias, os quais impactam as vidas de 33,7 milhões de brasileiros.

O Atlas da Notícia utiliza as seguintes classificações, de acordo com a realidade de cada região analisada:

  • Nenhum veículo de jornalismo = deserto de notícia

  • 1-2 veículos de jornalismo = quase deserto

  • +3 veículos de jornalismo = não deserto

A atual edição apresenta dados mais otimistas, quando comparados ao estudo anterior. Segundo o levantamento, o número total de desertos de notícias sofreu retração em todas as regiões do país.

Sendo mais específico, houve queda de 5,9% no número de municípios considerados como desertos de notícias (3.280 municípios) e, respectivamente, de 9,6% na população desses desertos (33,7 milhões de habitantes).

É preciso prestarmos atenção nos quase desertos de notícias

Segundo o Observatório de Imprensa, os municípios considerados como quase desertos de notícias (com a presença de uma ou duas iniciativas jornalísticas) apresentam características preocupantes:

  • o risco de facilmente voltarem a ser desertos de notícias (basta as iniciativas locais cessarem as atividades);

  • a falta de concorrência pode afetar a transparência, influenciando diretamente a qualidade dos conteúdos veiculados.

É importante salientar que 29,6% da população brasileira se encontra entre os desertos e quase desertos de notícias.

Isso quer dizer que essa população não tem acesso à produção local de notícias ou, pior ainda, é servida de informações que podem ter sido geradas à margem dos critérios essenciais ao jornalismo sério e responsável. Nesse caso, há sempre o risco de exposição a conteúdos não verificados, a partir de pautas enviesadas que atendem a interesses políticos ou comerciais.

Conclusão

Os dados apresentados pela 4ª edição do Atlas da Notícia nos levam a sensações conflitantes, de otimismo e preocupação simultâneas. 

Aqui no Diário Popular, consideramos o acesso à informação de qualidade um direito inalienável da humanidade. Acreditamos na missão do jornalismo de informar a população, representando seus interesses e noticiando acontecimentos relevantes para as suas vidas.

Mas essas notícias devem ser levadas a sério durante todo o processo de gestação, desde a escolha das pautas até a forma com que elas são entregues ao público, passando pela diligência durante a pesquisa e pelo cuidado durante a redação do conteúdo.

Realidades como as dos municípios considerados quase desertos de notícias inspiram cuidado. É muito fácil iniciar uma empreitada jornalística longe dos principais critérios éticos e de responsabilização pelos conteúdos veiculados. A ausência da concorrência e de uma fiscalização atenta é terreno fértil para a desinformação e para a manipulação da opinião pública. 

Nessas horas, o peso de um nome forte e tradicional se apresenta como uma chancela de qualidade. Empresas jornalísticas com grande presença no mercado são constantemente escrutinadas, tanto pela concorrência quanto pela própria comunidade. Não há como relaxar quanto à seriedade do trabalho, sob o risco de perder assinantes e, mais grave ainda, a credibilidade.

O desafio do jornalismo brasileiro está lançado: precisamos ir mais longe, com iniciativas locais que atendam às populações mais carentes de informação, mas sem desrespeitar a vocação sagrada de noticiar com isenção, sem vieses ou interesses obscuros. 

Os números do Atlas da Notícia apontam o crescimento dessas iniciativas. Isso é ótimo. Esperamos que todas elas sejam sérias.

 

Comentários Comente

Diário Popular - Todos os direitos reservados