27 de Fevereiro de 2021 - 08h22

Como fica o jornalismo online na era da leitura rápida?

Por: Diário Popular

Em 2016, a produtora de conteúdos digitais e especialista em publicidade online Simone Stolzoff publicou um texto no Observatório da Imprensa, no qual expressou sua opinião sobre as atuais “regras do jogo” para fazer com que um conteúdo online seja consumido pelo público-alvo.

Stolzoff ironizou o fato de que, na verdade, gostaria de ter intitulado o artigo comoSobre o ato de escrever”, mas que, se o tivesse feito, quase ninguém o leria. Motivo: o título não seria atrativo o bastante.

Então, de forma estratégica, acabou batizando o texto como Cinco desafios para a sustentabilidade do jornalismo online.

Admita: se o assunto jornalismo online lhe interessa - acreditamos que sim, tanto é que você está lendo as nossas linhas até agora 😏 -, em qual dos links você clicaria: em Sobre o ato de escrever ou em Cinco desafios para a sustentabilidade do jornalismo online?

Segundo Simone Stolzoff, “O título é o principal fator que usamos para determinar se algo merece nossa atenção e nosso precioso tempo”.

Mas a preocupação com a capacidade de sedução do título é somente a ponta do iceberg das “regras do jogo” citadas por Stolzoff. Tem muito mais coisas envolvidas na arte de acertar em cheio o formato que os leitores querem consumir. 

É sobre isso que falaremos agora.

A influência das redes sociais é maior do que você imagina

Entidades onipresentes em nossas vidas, as redes sociais conseguem ser, ao mesmo tempo, as plataformas que ditam as tendências de consumo de conteúdos, influenciando seus formatos, e também um lugar obrigatório para quem produz esses conteúdos.

Vamos explorar cada uma dessas características: a influência no formato dos conteúdos e a obrigatoriedade de estar presente nas redes sociais.

Muitas notícias, pouca atenção

 A atenção da audiência está super seletiva, com períodos de foco cada vez mais curtos. Obviamente, as redes sociais não são a única causa desse fenômeno, mas, certamente, são responsáveis por uma boa parte dele.

Feeds e timelines repletos de posts, em um scroll infinito, não rimam com leitura detalhada. Para passar pelo filtro da escolha, de modo geral, os posts precisam:

  • ter títulos atrativos;
  • ter imagens atrativas;
  • apresentar uma leitura curta, direta, não aprofundada, de preferência com o sentido do conteúdo sendo entregue de forma “mastigada” para o leitor.

Lá em 2014, um editorial do New York Times já criticava essas condições:

“O fluxo ininterrupto de informação no Twitter, Facebook, Vine* e no Instagram é parte integrante destas plataformas e acaba nos impedindo de prestar atenção a alguma coisa por um tempo mais longo. É a praga da era de informação”.

*Em 2014, a rede social Vine ainda existia.

Leituras rápidas e fáceis, em detrimento da abordagem mais aprofundada dos assuntos. Eis uma das maiores heranças das redes sociais, no que tange o formato dos conteúdos publicados.

As redes sociais como megafones dos conteúdos

Se as empresas jornalísticas não mantivessem perfis ativos nas redes sociais, o número de leitores orgânicos (não-pagantes) cairia drasticamente. Hoje, não há como depender somente do tráfego orgânico direto nos portais de notícias (por exemplo, quando uma pessoa digita “diário popular” no Google). 

Os jornais com presença digital precisam fazer com que as redes sociais apontem links para a leitura completa dos textos em seus sites, gerando assim volume de tráfego orgânico.

Aqui no DP, aprendemos essa lição faz tempo. Tanto é que mantemos nossas páginas no Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn sempre ativas, com notícias atualizadas 24 horas por dia, nos sete dias da semana.

Resumindo: se você quer volume de leitores online - e não há empresa jornalística que não queira -, é preciso ocupar espaço de forma consistente nas redes sociais. 

Os algoritmos escolhem por você

Com relação às sugestões de conteúdos para serem consumidos, de modo geral, os algoritmos funcionam assim:

🔎 Seus comportamentos anteriores de consumo de conteúdos são catalogados e analisados, e o resultado dessas análises norteiam o oferecimento de futuras notícias para você, seja nas páginas de resultados do Google ou nos feeds das redes sociais (assim como o entretenimento na Netflix e, no caso de produtos, nas sugestões de compras da Amazon, entre outras).

Preste atenção: os algoritmos trabalham a partir de comportamentos passados, ou seja, suas preferências anteriores. E aqui nós temos um problema preocupante: como efeito prático dessa “curadoria” automática de conteúdos, há um bloqueio de informações novas, diferentes das que você consumiu ontem. Enfim, a ampliação da visão, que só é ocasionada pelo consumo diversificado de assuntos, formatos e fontes de informação, acaba por ser bloqueada pelos algoritmos. 

Para que os algoritmos possam operar na zona de segurança, oferecendo somente aquilo que você já demonstrou ter gostado - e mantendo assim a sua assertividade -, é preciso que você sacrifique a possibilidade da ampliação dos seus horizontes.

Resumindo: você acaba lendo o que os algoritmos escolheram como o “mais adequado” e, como consequência, há o cerceamento da possibilidade de expansão do seu background.

Se esse é o jogo, vamos jogá-lo da forma mais responsável possível

Não estamos nos queixando sobre a parcialidade dos algoritmos ou o esvaziamento de leituras mais aprofundadas na web. Isso não é do nosso feitio. Se a equipe do DP fosse do tipo acomodada e ressentida com as mudanças, não teríamos nos envolvido nessa empreitada online lá em 1998, quando nossa versão impressa já circulava há 107 anos. 😲

Hoje, mesmo com toda a tradição do jornal impresso construída nesses 130 anos de atividade, mantemos o olhar sempre atento ao que acontece no virtual. Não somos idealistas românticos, que torcem o nariz para a necessidade de escolher as palavras certas para compor os títulos dos posts e de redigir textos que caiam na simpatia do Google.

Se hoje, para o bem da leitura dos nossos conteúdos, é necessário escrevermos artigos mais enxutos, que assim seja. Só não abrimos mão do compromisso com a qualidade empregada nesse número reduzido de palavras.

Com o tempo, compreendemos a diferença entre o formato e o conteúdo em si. No fim do dia, o que mais importa é o segundo. Formato é roupagem, muda com o tempo. Lá no início, escrevíamos o F com PH. Quando essa grafia caiu, abraçamos a novidade. E continuamos aqui, pois a seriedade constante com que abordamos os conteúdos só se solidificou com o passar dos anos.

 

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