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Sem segredos

27 de Julho de 2019 - 06h00 Corrigir A + A -

Maria Alice Estrella

Buscamos mudanças propondo, a nós mesmos, a aquisição de novos hábitos.

Queremos algo novo, diferente. Alguma coisa que balance o cotidiano, desencaixe as peças do quebra-cabeça para podermos montá-lo de outra forma. Talvez, como escada, trampolim ou asa-delta. Como se isso fosse possível e fácil.

Somos seres em constante mutação, somos movidos a transformar cada instante em cerimônia de inauguração com direito a banda de música, faixa de cetim e discurso.

Impelidos pelo desejo de encontrar uma aurora distinta, mergulhamos no desconhecido em busca de algo variável que nos permita uma perspectiva de reforma. Procuramos, incansavelmente, a linha do horizonte e lançamos o olhar para o infinito, que o firmamento escancara a nossa frente. Somos pássaros de asas invisíveis, querendo voar para distantes e distintas paisagens.

Então, arquitetamos sonhos de mudanças. Sonhamos a vida diferente com cenas de filmes de Hollywood e muitos efeitos especiais. Sonhos coloridos e musicais com roteiro inédito a fim de transformar a monotonia dos nossos dias sempre iguais.

Daí a gente acorda e espanta o sonho para uma próxima vez. Hoje segue tudo na mesma: levantar, abrir as janelas, preparar um café, acordar-se debaixo do chuveiro, escovar os cabelos e ler o jornal. O relógio, olhando para nós como um juiz pronto a proferir uma sentença, esgota os minutos e apressa nossa saída para o trabalho, enquanto a mente rebelde viaja por outros lugares.

Uma insatisfação interior provoca um pensamento, que não é sugestão; é quase uma ordem: Precisamos mudar!

Renovar!

E, se pensarmos nos sinônimos desse verbo, nas ações que eles desencadeiam, só para citar: recomeçar, reiniciar, refazer, regenerar, restaurar, reparar, reproduzir, recompor etc., veremos o quanto se adequa, aos nossos anseios, cada um deles.

Talvez, a explicação para tantos recomeços a que assistimos, e de que, muitas vezes, participamos, seja a necessidade que sentimos de transmutar.

E é nas relações afetivas dos tempos atuais, que se percebem, com um maior número de exemplos, as causas e efeitos dessa ânsia humana de buscar o novo.

Quando tudo parece perfeitamente estável, sereno, completo e até, feliz (por que não dizer?), nos surpreendemos sob o impacto de uma insatisfação nunca dantes imaginada. Uma angústia existencial se abate sobre nossos ombros (ali onde existem as tais asas invisíveis) e desfazemos as relações, quase perfeitas, de afeto para, depois (sabe-se lá como e quando) refazer nossos sentimentos em um amor mais-que-perfeito, que supomos estar esperando por nós logo à frente.

Assim, de recomeço em recomeço, muitos de nós, tentam modificar o marasmo da rotina que apavora.
A sensação que a rotina nos transmite é a de estagnação, como se já tivéssemos chegado ao término da corrida e nada mais pudesse acontecer. É como se soubéssemos o segredo. É como se não houvesse mais segredos.

 

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