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O ideal é transformar

Apaixonados por uma causa, empreendedores criativos agregam valor empresarial a produtos e serviços que de alguma forma impactam positivamente as comunidades em que vivem

22 de Junho de 2019 - 15h50 Corrigir A + A -

Por: Ana Cláudia Dias
anacl@diariopopular.com.br 

Camila (esquerda) e Bruna utilizam insumos orgânicos (Foto: Carlos Queiroz - DP)

Camila (esquerda) e Bruna utilizam insumos orgânicos (Foto: Carlos Queiroz - DP)

Agência Rastro começou com o desejo dos sócios mostrarem a fauna e flora do bioma Pampa (Foto: Rastro  - Especial DP)

Agência Rastro começou com o desejo dos sócios mostrarem a fauna e flora do bioma Pampa (Foto: Rastro - Especial DP)

Projeto educacional Aventureza, feito em parceria, ocorre no sítio Amoreza (Foto: Rastro - Especial DP)

Projeto educacional Aventureza, feito em parceria, ocorre no sítio Amoreza (Foto: Rastro - Especial DP)

"A primeira etapa é se apaixonar por um problema", sintetiza o ecólogo Gustavo Arruda ao falar sobre empreendedorismo social, um conceito relativamente novo no Brasil, mas que tem representantes em Pelotas. Um destes é a Rastro Ecologia Criativa, agência que atua no segmento ambiental, um empreendimento que começou como iniciativa acadêmica há dez anos.

No caso deles o que moveu foi o desejo de espalhar conhecimento e inspirar o respeito à biodiversidade. De um trabalho no curso de Ecologia da Universidade Católica de Pelotas à criação de uma empresa focada em "contribuir com o desenvolvimento sustentável por meio de projetos que promovam a conservação da natureza", foram alguns anos de aprendizado e entendimento de que aquela ideia inicial poderia ser inserida numa nova visão empresarial.

De forma resumida, focado em uma equação produzida pela sociedade, o empreendedor cria produtos ou serviços que irão resolver ou minimizar problemas que envolvem temas como meio ambiente, educação, saúde ou violência, entre outros. E o valor monetário gerado pela ação de um ou mais grupos ou pessoas reverte para a manutenção e ampliação da ideia, além do próprio bolso de quem empreende.
As práticas e conceitos de um empreendimento empresarial se misturam a um novo processo de gestão, focado em produzir um impacto positivo na comunidade onde atua. Foi assim com a Rastro, da qual Arruda é sócio, juntamente com o também ecólogo Gustavo Fonseca.

Alfabetizar pelo Pampa

Em 2009, quando eram acadêmicos da UCPel, perceberam que as crianças se alfabetizavam a partir de exemplos distantes da realidade delas. "Ensinavam o Z de zebra e não de zorrilho." Eles que eram entusiasmados pelo Bioma Pampa, um ecossistema, hoje degradado, que percorre Metade Sul do Rio Grande do Sul, estendendo-se por Uruguai e Argentina, queriam compartilhar esse conhecimento com as novas gerações.

A intenção era gerar conteúdo para as escolas a partir dos livros acadêmicos. Com outros colegas, que se alinharam à proposta, saíam para os campos filmavam e fotografavam o que viam. "Queríamos potencializar o conhecimento ecológico."

O projeto durou cerca de um ano, quando foi gerado um bom conteúdo. Este material deu origem a exposições, por exemplo, mas eles não tinham ideia de criar um negócio. O trabalho era por puro prazer. "Mas é brincando que se é empreendedor", avalia Arruda.

Em 2011, uma prefeitura os procurou para que desenvolvessem uma ação em cinco escolas. Porém, eles não tinham CNPJ e não puderam fazer o trabalho. Foi quando viraram a chave.

Participaram de edital de seleção da UCPel para uma vaga na incubadora de empresas da Universidade, dando início ao empreendimento. A Rastro passou a gerar produtos como curtas-documentários e a promover campanhas de sensibilização e preservação da natureza, como a Cidade Selvagem, esta por meio de financiamento coletivo.

O início gerou dúvida sobre se o empreendimento tinha mesmo potencial para se enquadrar como um negócio socioambiental. Os sócios se questionavam se era possível fazer algo com paixão, em favor de uma causa e ainda assim conseguir viver disso.

Foi quando Arruda conseguiu uma bolsa em um NBA em Gestão de Negócios Socioambientais. "Chega um momento que você precisa de um conhecimento mais embasado." Mesmo assim, Arruda diz que a agência ainda está em processo de adaptação para se tornar um negócio socioambiental.

Hoje atuam como um empresa híbrida, que tem propósito de uma instituição do terceiro setor, de gerar impacto positivo na sociedade, porém utiliza mecanismos do mercado para ter sua sustentabilidade financeira e dar escala às ações propostas. Entre as atividades da agência, por exemplo, está a produção de vídeos para a National Geografic.

Também assumiram a comunicação social e a captação de recursos para o Instituto Baleia Franca em Garopaba, Santa Catarina. Com a experiência e o trabalho feito, a Rastro tem potencial para assessorar outras ONGs.

Um destes trabalhos é feito no Morro Redondo, em parceria com o Sítio Amoreza, onde desenvolvem o Aventureza, projeto voltado a estudantes de escolas públicas e privadas. Arruda diz que cada vez mais a Rastro quer ajudar outras instituições. "Como virar um produto ou serviço que gere valor para todas as pessoas, é o grande trunfo dessas empresas. Não é fácil mas é possível", diz o ecólogo.

O maior desafio para os sócios é perceber os resultados, quando o seu trabalho é influenciar pessoas a terem uma postura diferente. "Tem que avaliar a cada ano, é uma ferramenta que está sempre se reinventando."

Vida nova

Pedro Vieira se mudou com a família para o sítio Amoreza há dez anos. Mas só três anos viram que o conceito de uma vida em harmonia com a natureza poderia ser o impulso para um negócio.

Tudo começou com a vontade de criar um produto com o que eles tinham. O que foi possível a partir da criação do roteiro Morro de Amores, gerenciado por uma associação. "A gente passou a enxergar o turismo como um negócio sustentável."

Dentro dessa fase empreendedora, há dois anos Vieira e Gustavo Fonseca, que eram amigos, revolveram juntar as propostas. Vieira conta que já recebia escolas no sítio, com a parceira do Rastro criaram o Aventureza, que oferece a crianças e adolescentes uma experiência ecológica em meio à biodiversidade local. "A educação ambiental do Bioma Pampa voltada para a nossa região ainda é muito pouco difundida. As crianças não conhecem nossos animais, nossa fauna e flora", fala Vieira.

Dentro desse processo, Vieira aponta as capacitações que fez, através do Sebrae, como fatores para abertura de horizontes. "Nos capacitou para ter um negócio e para criar o Aventureza." 

Para Vieira o trabalho que desenvolvem no Amoreza se insere no conceito de empreendedorismo social, por ter como base a disseminação de práticas sustentáveis e por meio destas conseguir o sustento da família.

Praticamente todos os ganhos financeiros são desenvolvidos por produtos que têm a sustentabilidade por trás, começando pelas refeições oferecidas que é feita com ingredientes orgânicos do grupo de produtores Amoreza, formado por sete famílias assessoradas pelo empreendedor.

Alimentação e ecologia

Além do Aventureza, um dos sócios da agência Rastro está envolvido em outro empreendimento com perfil socioambiental, o Natural Burguer. A hamburgueria de Gustavo Fonseca e Bruna Moura une alimentação e ecologia por meio de várias ações, que começam na produção do lanche, passando pela utilização de embalagens biodegradáveis até chegar na distribuição feita de bicicleta.

Bruna Moura, que é nutricionista, conta que apesar de o hambúrguer ser feito com proteínas vegetais, alternativa ao uso da carne de origem animal, a empresa não quer ser identificada como vegetariana ou vegana, mas como um empreendimento que faz um convite ao consumidor refletir sobre o que come diariamente.

O funcionamento atual é só por delivery, até há alguns dias havia um foodtruck, mas os sócios optaram por focar só no segmento da tele-entrega. O lanche chega por bicicleta. A aposta neste meio de transporte tem a pegada antipoluição sonora e ambiental.

Os insumos também são todos orgânicos e vêm de produtores locais, comprados em feiras da cidade e na banca 78 do Mercado Central, por exemplo. "Queremos incentivar a diminuição do consumo da carne e mostrar que o produto orgânico não é tão caro quanto as pessoas imaginam", diz Bruna.

No mercado há um ano, o produto já tem público fiel e muitos dos clientes não são veganos ou vegetarianos, mas buscam uma alimentação mais saudável e simpatizam com a causa. Junto com a preocupação com a qualidade dos alimentos está o cuidado com o meio ambiente. Por este motivo, as embalagens são biodegradáveis e a hamburgueria não utiliza plástico, alumínio nem isopor.

São embalagens biodegradáveis de papelão. Como são para armazenar o almoço, optaram por um material que se degrada em 180 dias.

Bruna fala que o material que envolve papel é mais fácil de encontrar. Outros tipos, como o que usa bagaço da cana de açúcar, que se decompõe rapidamente, ainda tem custo elevado. "Mas ainda quero trazer para cá", fala Bruna.

O cardápio respeita a sazonalidade dos ingredientes, por isso é alterado conforme a estação. Esta semana, Bruna e a chef de cozinha Camila Martins, que trabalha na hamburgueria, apresentaram os novos lanches. "A nossa causa é trazer coisas novas, nosso desafio é criar produtos que tenham sabor e textura, que sejam bonitos, mas com o que tem na época."

A cozinheira Camila Martins confessa que quando conheceu o projeto não acreditava que um hambúrguer poderia ter muito sabor sem a proteína animal. Chef de cozinha de outro restaurante, foi conquistada pela iniciativa e pelas receitas de Bruna. "Me encantou a proposta de sustentabilidade, de trabalhar com produtores locais, fazendo com que essas pessoas apareçam e que a comunidade entenda a importância disso."

 

Fique por dentro

Sebrae-RS responde algumas perguntas sobre empreendedorismo socioambientais

1 - O que são negócios de impacto socioambientais? Citar alguns exemplos.

Os negócios de impacto socioambientais são empreendimentos que têm como prioridade gerar impacto socioambiental positivo, mas, também buscam resultado financeiro. São negócios que possuem como seu principal foco (core business) gerar esse impacto e não somente o resultado financeiro. Não estamos falando de empreendimentos que realizam ações sociais, empresas que destinam parte de seu lucro para instituições carentes ou organizações sem fins lucrativos. São modelos de negócios rentáveis, mas que buscam melhorar a vida das pessoas e o meio ambiente.

Existem inúmeros casos de negócios de impacto socioambientais espalhados pelo mundo e nos seus diversos modelos de operação. Existem empresas que buscam reinvestir os lucros advindos de seus produtos e/ou serviços na empresa ou repartindo os mesmos entre os sócios. E ainda, dos mais variados setores, sendo o Rio Grande do Sul, mais representativo em setores como agronegócios, mobilidade urbana, saúde, educação e reutilização de materiais e produtos orgânicos. Temos vários exemplos de empresas que geram esse tipo de impacto, desde empresas que buscam soluções para a destinação correto de rejeitos, bem como empresas que geram impacto diretamente na vida das pessoas e na comunidade como um todo como a ARCO, RAKS, Loop e Sumá.


2 - Também se existe alguma estatística aqui no rio Grande do Sul envolvendo esse tipo de empresa?

14% dos negócios de impacto social estão instalados na região Sul do país, de acordo com o Mapa de pacto 2019 realizado da Pipe Social. No Rio Grande do Sul, de acordo com o Sebrae RS, existem mais de 80 negócios de impacto espalhados por todo estado. Ainda, 81% desses empreendedores possuem mais de 26 anos e 90% já completaram o ensino superior.

Apesar de ser um setor que está em amplo crescimento, os negócios ainda demonstram pouca maturidade quanto aos aspectos de gestão e de modelo de business, onde 46% deles ainda se encontram antes da etapa de validação do MPV (mínimo produto viável), 43% não possuem faturamento e onde 76% iniciam com capital próprio, de acordo com a Pipe Social. Ou seja, ainda existem grandes desafios para que o setor se estruture ainda mais.

Dentre esses desafios estão a falta de informações sobre como ter uma boa administração da empresa, falta de conhecimento de como mensurar e gerir os impactos gerados, dúvidas em como alinhar impacto social, lucro e crescimento exponencial e de como utilizar os benefícios gerados pela empresa para autopromoção.


3 - Outra dúvida se refere ao esclarecimento do que é esse tipo de negócio? Uma empresa pode obter lucro e impactar positivamente a sua comunidade?

Existem inúmeros casos de negócios de impacto socioambientais espalhados pelo mundo e nos seus diversos modelos de operação. Existem empresas que buscam reinvestir os lucros advindos de seus produtos e/ou serviços na empresa ou repartindo os dividendos entre os sócios. Ou seja, esses negócios podem sim obter lucro e impactar positivamente a sua comunidade, pois esse é o seu principal objetivo, impactar positivamente, mas ao mesmo tempo gerar resultado financeiro. Entretanto, o como esse lucro será utilizado vai depender muito da estratégia de cada empresa.

4 - É difícil? Há interessados ou as pessoas ainda desconhecem? Quem estiver interessado em empreender, quais caminhos devem seguir? Onde pedir ajudar?

Para todo negócio que está iniciando o caminho para se estruturar, pensar o modelo, validar sua atuação e entrega aos clientes, de acordo com o propósito da empresa é desafiador. Há pessoas interessadas em empreender com esse viés de impacto socioambiental e, de acordo com o Mapa de Impacto produzido pela Pipe Social em 2019, existem 9 fases que todo negócio de impacto passa: Ideia, validação, protótipo, piloto, MPV, organização do negócio, tração, pré-escala, escala.

Existe diversas instituições no Brasil e no RS que podem contribuir nessa caminhada. No Sebrae RS temos o projeto AGIR – Aceleração e Geração de Impacto social no RS. Esse projeto é destinado para quem está explorando o mercado, está desenvolvendo uma solução, fazendo as primeiras entregas de valor e para quem já está trabalhando em tempo integral no seu negócio e precisa escalar o mesmo. Para mais informações, entrar em contato com o Sebrae RS através do 0800 570 0800 ou diretamente por e-mail com o Luciano Gil (lucianog@sebraers.com.br).

 

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