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Mais espaço para conviver

Depois de um primeiro momento de tensão, em Pelotas o público tem deixado de lado o estranhamento e começa a desfrutar dos parklets como um mobiliário que traz conforto e estimula o lazer na cidade

19 de Maio de 2019 - 16h29 Corrigir A + A -

Por: Ana Cláudia Dias
anacl@diariopopular.com.br 

Em uma das ruas mais agitadas,  um local para relaxar e tomar um café (Foto: Jô Folha - Diário Popular)

Em uma das ruas mais agitadas, um local para relaxar e tomar um café (Foto: Jô Folha - Diário Popular)

Alegoria  quer trazer concepção cultural uruguaia para o município (Foto: Carlos Queiroz - Diário Popular)

Alegoria quer trazer concepção cultural uruguaia para o município (Foto: Carlos Queiroz - Diário Popular)

Casa Bender foi o segundo estabelecimento comercial a aderir ao movimento (Foto: Jô Folha - Diário Popular)

Casa Bender foi o segundo estabelecimento comercial a aderir ao movimento (Foto: Jô Folha - Diário Popular)

Depois da polêmica inicial, ao que parece, os parklets ganharam a simpatia dos pelotenses. Essas áreas de convívio têm servido ao lazer não só para quem frequenta os estabelecimentos comerciais que aderiram ao conceito urbanístico surgido nos Estados Unidos há 14 anos. Atualmente em Pelotas estão licenciadas 14 estruturas e, ao que parece, o número tende a crescer.

No Brasil, os parklets chegaram em 2012 e em Pelotas cerca de dois anos depois. Autorizado pela prefeitura, a Bodega 974, na 15 de Novembro, foi pioneira, porém o regramento proposto pela Secretaria de Gestão da Cidade e Mobilidade Urbana (SGCMU) só foi apresentado em 2017.

A arquiteta Carmen Vera Roig, do Departamento de Planejamento Territorial da SGCMU, explica que os parklets são espaços públicos e, como tal, podem ser desfrutados por todos os cidadãos. Os gestores municipais também veem nestes locais mais uma contribuição para a segurança na cidade. "Quanto mais gente nas ruas mais ela se torna segura", diz a arquiteta.

No ano em que foi instituído o regramento, chegaram à Secretaria três pedidos de licença, em 2018 foram nove e este ano mais um. Além de bares e restaurantes, os parklets podem servir para diferentes estabelecimentos comerciais e variados fins. Estes pequenos espaços de lazer podem ser coloridos e podem ter até no máximo dez metros, porém não podem ter cobertura ou pergolados. "O objetivo é criar espaços agradáveis nas ruas."

De acordo com a arquiteta, as autorizações são renováveis de seis em seis meses, mas depois de protocolado o pedido na SGCMU o processo costuma tramitar rapidamente. Cabe a Secretaria avaliar se a via é qualificada para receber esse tipo de equipamento.

Forte repercussão

Proprietário da Casa Bender, Fabrício Bender encarou os desafios impostos há dois anos, quando resolveu colocar o mobiliário. "Toda a mudança gera uma reação", fala resignado.

Na época ouviu muitas manifestações contrárias à instalação do projeto de nove metros na rua Rafael Pinto Bandeira esquina com a rua General Osório. "Quando se colocou o parklet foi um momento meio turbulento, teve uma repercussão superforte, tanto negativa, quanto positiva, mas o pessoal já se acostumou", fala.

A maior reclamação na época era quanto à diminuição das vagas de estacionamento para veículos. Algo que ocorre em todo o local em que o conceito é introduzido.

Mas o que é espanto no início cativou muitos incrédulos e começa a ganhar espaço na rotina das pessoas. Fabrício Bender conta que muitos transeuntes utilizam o espaço construído por ele para descanso e lazer entre uma tarefa e outra.

Nos domingos pela manhã muita gente que sai para passear com seus cachorros para por lá para bater um papo com os amigos. "O pessoal tem utilizado muito, não só quando estamos com o estabelecimento aberto - a gente abre às 17h. Realmente a coisa começou a ser utilizada como a gente sempre quis."

Na própria Rafael Pinto Bandeira há mais estabelecimentos que aderiram ao mobiliário, que, claro, traz também a vantagem de ampliar o espaço dos estabelecimentos. Porém o investimento é todo do requerente. A prefeitura dá a licença, mas quem projeta, constrói e dá a manutenção são os proprietários.

Bender fala que também vislumbrou a possibilidade de um aumento de público no estabelecimento, mas ao longo de pouco mais de dois anos ele não viu uma parcela significativa de visitantes crescer por causa do mobiliário. "O público não muda muito, mas dá mais conforto para quem vem. Dia de calor o pessoal às vezes não quer estar aqui dentro."

Com o mobiliário móvel (mesas e cadeiras) o parklet da Casa Bender acolhe de 15 a 20 pessoas, números que variam de acordo com o clima. O início de inverno espanta um pouco, mas o comerciante investiu em aquecedores para trazer o conforto térmico ao local.

Outra preocupação do comerciante está relacionada com a vizinhança. Em função dos moradores próximos, o atendimento no parklet é feito até as 23h. Nenhum copo pode sair de dentro da casa depois desse horário.

A segurança também é outro ponto de atenção, por este motivo foi contratado o serviço de uma empresa privada. Mas Bender diz que naquela zona não costuma ter problemas. "Primeiro porque a gente está numa esquina de grande movimento e é iluminada, tem muita gente passando. Nunca aconteceu nada."

Vaga viva

Bem na área central da cidade a cafeteria Orion, na rua Anchieta, é outro local que dispõe do parklet. A proprietária Júlia Tunes conta que o desejo de construir o mobiliário surgiu como apoio aos clientes cadeirantes.

A comerciante explica que, como a calçada é curta, o cliente não teria como contornar para subir uma rampa de acesso. Com o espaço, a manobra ficou facilitada. Além disso os usuários do local ganharam mais um ambiente para desfrutar.

A estrutura foi montada pouco depois da inauguração do café, que fez dois anos no mês passado. "Ele amplia possibilidades. Os clientes podem esperar aqui fora, também é opção para os fumantes e é uma possibilidade de dar uma desafogada nos carros", fala Júlia que apoia a utilização de bicicletas como veículo de locomoção.

Para Júlia a estrutura não é só um objeto, mas uma vaga viva para pessoas e um respiro, especialmente na área central, onde os veículos ocupam as ruas. "Para mim é também a garantia de que um caminhão não vai estacionar bem na frente do café."

Ser público e utilizável por outras pessoas, além dos seus clientes, nunca foi um problema para a proprietária, que cuida do local e o enfeita com flores. A única questão que Júlia levanta é a deseducação das pessoas, que furtaram a lixeira do local.

A falta de segurança faz com que ela veja com reservas possíveis investimentos no parklet. Atualmente tudo que é móvel, incluindo as flores nos vasos, é recolhido por volta das 17h30min, meia hora antes do fechamento do café. "Também é uma forma de sinalizar aos clientes que estamos nos preparando para fechar."

Público, o espaço abriga muitos passantes, especialmente pela manhã. "Geralmente quem usa não está consumindo." Mesmo assim, Júlia vê como positivo o investimento. "Falta um pouco desse fazer diferente, falta para muitos ver o que espaços como esse podem dar para a cidade."

Espaço de ocupação

Inaugurado em maio do ano passado, o Alegoria Casa Bar é outro estabelecimento que aderiu ao parklet. O proprietário Luis Guillermo Ceballos conta que o propósito foi agregar ao espírito da casa mais uma área pulsante. "A calçada é um espaço importante de ocupação. A ideia de ser uma casa e um bar pressupõe esta compreensão, um lugar de acolhimento desde a calçada", argumenta.

Natural do Uruguai, país onde a população cultiva o hábito de colocar mesas e cadeiras nas calçadas para que se possa desfrutar de um momento de lazer a céu aberto, Ceballos diz que com os problemas da urbanização as pessoas perderam o hábito de levar as cadeiras para a rua como há algumas décadas. "O pôr do sol nesta rua é muito lindo", diz.

Além da atividade noturna com apresentações musicais, o Alegoria também tem aberto espaço para uma feira cultural que vai além das dimensões do bar, localizado na rua Antônio dos Anjos.

O empresário diz que é uma maneira de se de pensar estes espaços públicos, além de um local para se estacionar os veículos. "Ver os espaços não como lugares de separação: Brasil/Uruguai, dentro/fora, casa/rua. Mas pensar que sentar na calçada e contemplar o céu numa noite de verão ou inverno é um privilégio."

O mobiliário do Alegoria integra uma proposta de se fazer dos espaços da casa locais para acolhimento para arte e cultura, o que inclui a rua e o bairro. "Por isso estamos abertos à exposições e mostras de artistas plásticos", fala.

Feliz com a repercussão do mobiliário no seu estabelecimento, Ceballos diz que nem o frio desestimula a utilização. Muitos clientes preferem, em todas as estações. Mas a seguir, o local deve receber aquecedores a gás, previsto no projeto original. O que os uruguaios chamam de "la vereda", fala o empresário, é algo que está na cultura deles e para ele parece muito bom ser permitido em Pelotas.

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