Estilo
Crônica

Desajeitados

11 de Maio de 2019 - 09h31 Corrigir A + A -

Por Maria Alice Estrella - malicestrella@yahoo.com.br

Nunca fiz assunto dessa falta de jeito que muita gente tem para mostrar e evidenciar emoções. Até então, se eu observava, deixava de lado como coisa que estivesse fora do meu alcance, questionando a mim mesma sobre a minha facilidade de revelar o que sinto, dando de ombros ao retraído comportamento de outros nas expansões de afeto.

Na semana que passou, por coincidência ou não, fui testemunha de simultâneas situações em que percebi a dificuldade de alguns em demonstrar as emoções que lhes nascem na alma. Abortam todo e qualquer sinal de expressão que os possa tornar vulneráveis. Em contrapartida, são peritos em disfarces e camuflagem. Gestos pela metade. Aliás, quase tudo pela metade: meio sorriso, meio abraço, meia lágrima. Retranca geral! Freio de mão puxado.

Ao perceber essas manifestações entrecortadas, que mais parecem soluços e suspiros num brinquedo de esconde-esconde, um alvoroço me desacomoda por dentro.

Pois de emoções genuínas é confeccionada a rede da vida e de emoções se nutre a sucessão dos dias por mais que as queiramos encobrir e disfarçar.

Acredito na emoção como combustível, como balão de oxigênio, como primeiros socorros, como benção, como milagre. E falando em milagre, inúmeros têm acontecido em nome da emoção.

Faço um rescaldo nos meus momentos e salvo o que valeu, o que sobreviveu, o que ficou, e chego a um denominador único: tudo aquilo vivido com emoção não foi destruído.

E se procuro definir a emoção, encontro uma simples arquitetura de palavras, construindo o óbvio. Emoção é o toque que, a orquestra dos sentidos, provoca na superfície da pele da alma. Emoção é a carícia das sensações na epiderme do espírito.

De emoção em emoção, construo a minha história e a escrevo com a tinta colorida de um arco-íris constante, faça sol ou faça noite.

Afinal, me emociono comigo e contigo, que lês o que escrevo, mesmo que nunca tenhamos conversado pessoalmente. Mergulhas nas minhas expansões num abrir e fechar de olhos, entre um passo e outro, num suspiro e num sorriso, numa lágrima e num silêncio. Mesmo que, ao final, fique eu sem saber o que sentes e o que pensas nesse anonimato em que vivem os leitores.

Mas o que quero registrar é a percepção que me veio de que nem todos possuem o descaramento e a extroversão que me são peculiares para deixar correr livre o que vai na alma sem travas, sem trancas, sem ferrolhos.

Respeito o outro lado da moeda dos que são opostos e reservados e desajeitados nas suas manifestações e que conservam as emoções em compartimentos secretos. Como descreveu Julio Dantas num trecho da Ceia dos Cardeais: “... como em capela de ouro há cem anos fechada, onde não vai ninguém, mas onde há festa ainda!”

No que a mim se refere conservo olhos, ouvidos sempre atentos para registrar e expor, do momento, a emoção que ele comporta, reparte e multiplica por todos os cantos da alma.

Comentários Comente

REDES SOCIAIS

Diário Popular - Todos os direitos reservados