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Pavão misterioso

Enigmático e de múltiplas cores, o cantor Ney Matogrosso sobe ao palco do Theatro Guarany na próxima terça-feira (30)

27 de Abril de 2019 - 21h34 Corrigir A + A -

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Sob as luzes do palco repousa um ser exótico, de traje brilhante, voz poderosa e conduta espalhafatosa. A interpretação de Ney Matogrosso é inconfundível, um artista que preza tanto pelo seu próprio envolvimento quanto do público com as canções. Em mais uma passagem pela cidade, o cantor leva ao Theatro Guarany a nova turnê, intitulada Bloco na rua.

Aos 77 anos de idade, sendo 45 dedicados à carreira musical, o sul-mato-grossense encontra-se em plena forma, assumindo a responsabilidade de cumprir uma agenda repleta de shows. A temporada começou em janeiro deste ano através de várias apresentações no Viva Rio. Desde então, ele excursiona pelo país e planeja apresentar, em breve, seu espetáculo no exterior.

O trabalho anterior, Atento aos sinais, passou por esta trajetória. Rendeu mais de cinco anos ininterruptos de turnê e proporcionou duas conquistas na 26ª edição do Prêmio da Música Brasileira: Melhor Cantor de Pop/rock/reggae/hip-hop/funk e de Melhor Álbum do mesmo gênero.

O novo projeto, entretanto, não preza pelo ineditismo. Reúne, em uma hora e 15 minutos de duração, canções assinadas por compositores consagrados, como Rita Lee (Corista do rock), Ednardo (Pavão misterioso), Caetano Veloso (Como dois e dois), Cazuza (Mais feliz) e DJ Dolores (Álcool). Também há espaço para versões atualizadas de O beco e Mulher barriguda, esta última oriunda do primeiro álbum dos Secos e Molhados.

Em entrevista por telefone ao Diário Popular, Ney conversou sobre a concepção do show que chega a Pelotas, a mensagem que busca transmitir com sua arte, a vida na estrada e a possibilidade de lançar CD e DVD de Bloco na rua.

Diário Popular - Por que a canção Eu quero é botar meu bloco na rua, de Sérgio Sampaio, acabou sendo referência para o nome da nova turnê? Como foi elaborado esse repertório?
Ney Matogrosso - Venho elaborando esse repertório há mais de dois anos. Estava fazendo Atento aos sinais quando comecei os roteiros. Queria cantar tudo o que gosto. As pessoas dizem que é um repertório afetivo, e acho que é. São canções que eu gosto, algumas que já gravei, poucas, e algumas que nunca tinha cantado. Conheço Bloco na rua desde a época de seu lançamento e acho ela muito provocadora. Tirei como título porque acho que a canção induz a uma coisa de movimento, de não estar parado. Na verdade, é isso mesmo, levar meus pensamentos às pessoas, por isso selecionei o que fosse coerente ao meu pensamento. Foi uma receptividade instantânea. Quando estreei no Rio de Janeiro, logo na primeira música, já estava todo mundo cantando junto. Surpreendente.

DP - Conte um pouco mais sobre esse repertório afetivo…
NM - Todas as canções são grandes sucessos, bastante conhecidas, algumas já esquecidas até, das décadas de 70 e 80. Minha maior surpresa foi A maçã, que achei que ninguém conhecia... Então, o show começa muito dinâmico e logo na quinta música já envereda para um lado mais romântico. Depois, saio das canções românticas para as duas que gravei com o Fagner em 1975. Canto uma música inédita e, para o final, mudei. Estava terminando com Feira moderna, tendo Mulher barriguda na manga, e acho que com essa acaba mais pra cima, mais rock'n'roll. Brinco com uma mensagem similar à Feira moderna, que termina com a "paz na terra, amém". Mulher barriguda diz que "ainda haverá guerra, mas tomara que não".

DP - Eu quero é botar meu bloco na rua possui um forte viés político e, ao oferecer destaque para essa canção, acaba-se por transmitir uma mensagem. Desta forma, acreditas que, em momentos nos quais a cultura encontra-se sob ameaça, é importante os artistas se manifestarem a respeito?
NM - Não é um viés político partidário. Não quero ser filiado a algum partido, assim como não torço por um time de futebol ou uma escola de samba. Ninguém é obrigado. Prefiro estar solto no mundo. Isso é importante para mim. Quando li que milhões de brasileiros estão abaixo da linha da pobreza, decidi cantar que tem gente com fome. As pessoas entendem qual é a minha mensagem. É muito clara. Todos entendem imediatamente, quando canto Jardins da Babilônia e ofereço a imagem de uma favela, das casas se embrenhando ali, as pessoas entendem a minha mensagem. Não sei ficar conversando com a plateia, no máximo dou "boa noite" e "obrigado". Vou lá cantar e espero que as pessoas entendam que através da música eu digo o que penso.

DP - Falaste em imagens… o que se pode esperar da turnê? Alguma novidade referente a cenário, figurino ou outros detalhes importantes?
NM - Tenho seis telas de um metro de largura e cinco de altura, e ali projeto imagens que não são aleatórias, corroborando com o que eu estou dizendo. Sem ser óbvio. Quanto a figurino, apenas um dourado. Já a iluminação é requintada e a banda é a mesma de Atento a sinais. Sempre mudo de banda, mas queria dar um próximo passo com eles. O repertório anterior era mais pop, enquanto esse é mais MPB. Não queria uma MPB careta, então preferi manter a banda para cantar essas músicas.

FOTO II

DP - Existe a possibilidade do show Bloco na rua vir a se tornar um álbum, assim como aconteceu com Atento aos sinais?
NM - Vai se tornar um álbum, sim. Prefiro fazer a turnê antes. Em geral, quando um trabalho vai direto para o estúdio ainda não está maduro, não se compreendeu tudo o que se pode com as músicas. Faço esse processo há muitos anos. Primeiro a turnê, depois o CD e, após um ano, o DVD.

DP - A última turnê rendeu cinco anos de apresentações por todo país e ainda no exterior. Como é voltar à estrada? O palco, a performance e o contato com o público é uma necessidade para ti? Essa vida nômade contribui no processo criativo?
NM - Parei em abril do ano passado e voltei agora em janeiro. Teve esse intervalo. E a estrada é o que meu trabalho pede. Posso, às vezes, chegar num lugar e estar com sono e preguiça, mas na hora de entrar, eu entro de verdade. Entro para apresentar o melhor que eu posso. Agora te confesso que tem uma hora que é cansativo estar na estrada - muito avião, muito show. Para fazer um show são três dias na minha vida, um dia para ir ao lugar, outro para o show e outro para voltar para casa. Nesta passagem pelo Sul, vou emendar Curitiba, Pelotas e Porto Alegre. É uma maratona, tenho que "ficar piano", não saio, não vou para lugar nenhum, fico concentrado. Sobre o exterior, já recebi propostas para levar o show para fora esse ano. Argentina em julho. O figurino, porém, é uma roupa que não me protege muito, e nessa época é frio lá. Não sei… (risos)

DP - Como será 2019 para ti? Dedicação total à turnê ou mais algum outro projeto?
NM - O ano será voltado apenas para o show. Nunca imaginei que faria cinco anos com o anterior, mas não sei quanto tempo esse pode durar. Tenho que descobrir se tenho gás para fazer ele. No começo, uma fonoaudióloga mandou eu tomar coisas que atleta toma, porque é um show que exige muito de mim fisicamente. Não gostei daquilo. Era tão artificial... Voltei ao meu sistema antigo e vejo que dou conta.

O quê: show Bloco na rua, de Ney Matogrosso
Quando: dia 30, terça-feira, às 21h
Onde: Theatro Guarany
Ingressos: antecipados à venda na Ótica Lume (rua 7 de Setembro, 376), CVC (Hipermercado Big) ou on-line no site www.diskingressos.com.br/event/9396

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