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Na Virada dos tambores

Evento toma conta da cidade a partir das 22h deste sábado (17) com variada programação cultural

17 de Novembro de 2018 - 12h15 Corrigir A + A -
Kako Xavier e a Tamborada celebram o batuque pelotense no ápice das atividades (Foto: Divulgação - DP)

Kako Xavier e a Tamborada celebram o batuque pelotense no ápice das atividades (Foto: Divulgação - DP)

Renato Borghetti é umas principais atrações do domingo (Foto: Divulgação - DP)

Renato Borghetti é umas principais atrações do domingo (Foto: Divulgação - DP)

Edição realiza homenagem ao tambor de sopapo (Foto: Divulgação - DP)

Edição realiza homenagem ao tambor de sopapo (Foto: Divulgação - DP)

Nenhum gênero estará imune ao batuque dos tambores na realização da 4ª Virada Cultural, que ocorre das 22h deste sábado até as 22h do domingo. Serão cerca de 30 atividades artísticas espalhadas pela cidade, tendo, tanto na abertura quanto no encerramento, apresentações musicais ao som de instrumentos percussivos. A edição 2019 do evento homenageia Pelotas como a "cidade do tambor".

A busca por este reconhecimento está sendo efetuada pela Secretaria Municipal de Cultura (Secult), que foi selecionada para receber consultoria técnica do Ministério da Cultura, a fim de preparar candidatura ao Programa Rede de Cidades Criativas da Unesco. Caso aprovada, Pelotas pode se tornar uma cidade criativa na área da música, tendo como identidade o tambor de sopapo.

A Virada Cultural deste ano aproveita a preparação para obtenção do título e celebra os tambores locais. "A gente possui uma riqueza que é natural da cidade e, por muitos anos, perdemos a oportunidade de valorizá-la", comenta o músico Kako Xavier, idealizador do projeto Tamborada, que integra a programação.

O tambor de sopapo é um instrumento pelotense oriundo do início do século 19, feito com casca de árvore e casco de cavalo. Kako explica a origem do objeto: "A cidade foi voltada para a produção do charque e tinha um protagonista que pouco se falou. O sopapo era tocado pelos escravos como uma permissão aos orixás para sangrar o gado". A conversa com as divindades permitiria a realização do sacrifício.

O sopapo é tratado como o "tambor-rei", conforme chamavam Mestre Batista e Giba Giba, dois grandes estusiastas do instrumento, sendo responsáveis por recuperar, no final do anos 90, uma prática quase extinta. O incentivo tornou possível a construção de novos tambores, a realização de oficinas, a inserção em escolas de samba e a criação de grupos musicais.

A maior parte dos dados históricos obtidos sobre o sopapo foram reunidos na tese de doutorado do professor Mário Maia. O documentário O grande tambor (2012) também é uma fonte de destaque, uma vez que narra a diáspora africana no Rio Grande do Sul.

Conexão musical
Vários tambores farão parte da programação da Virada Cultural deste ano, distribuída entre o Palco Cidade, montado no largo do Mercado Central; o Tablado Cênicas, instalado no jardim do Casarão 2 e programas artísticos desenvolvidos no Centro Histórico, no Simões Lopes e na praia do Laranjal. Todas as atividades podem ser consultadas em box, no fim da matéria. 

A abertura do evento será com o grupo Cocô de Zambê, nome que faz alusão a um ritmo africano que nasceu no Rio Grande do Norte. Utilizam tambores construídos com troncos de árvores, tendo sua música caracterizada por um canto puxado pelo mestre Mião e respondido por um coro de vozes. Inclui, ainda, dança em roda com tocadores no centro, reverenciando o tambor. A vinda dos artistas direto da cidade de Tibau do Sul (RN) é patrocinada pelo projeto Sonora Brasil, do Sesc.

A instituição também apoia o comparecimento do Grupo de Cultura Popular Zingado, natural de Caxias do Sul, que trará ritmos da cultura popular brasileira, valendo-se da percussão, da dança e do canto coletivo. Os "zingadeiros" evidenciam a riqueza da diversidade que caracteriza o país.

O nome mais chamativo entre as atrações é do músico Renato Borghetti, que realiza show oferecido pela Sagres, CMPC e OtroPorto. Com 34 anos de carreira e mais de 20 discos lançados, o gaiteiro transita por vanerão, chote, milonga e chamamé. Antes da apresentação, os seus alunos do projeto Fábrica de Gaiteiros subirão ao palco acompanhados pelas crianças da Escola Municipal de Ensino Fundamental Dom Francisco de Campos Barreto.

Oito apresentações locais, sendo quatro de música, duas de dança e duas de teatro, foram selecionadas via edital da Secult. Os quatro programas (Comida de Rua, Samba no Simões, Vivência da Cultura Yorubá e Atelier do Artista II) também foram escolhidos desta maneira. 

Os shows musicais ocorrem no Mercado Central, enquanto as encenações serão reunidas no Tablado Cênicas, que estará ligado à feira gastronômica montada em frente ao Theatro Guarany. Oito restaurantes da cidade participam do projeto Comida de Rua, que contará com apresentações de Jukebox Orchestra, DJ Hello e Solo Fértil.

Festa rítmica
O encerramento de toda programação ficará a cargo de Kako Xavier, a Tamborada e convidados. Atualmente, o projeto possui 20 integrantes, sendo utilizados tambores de sopapo, tambores praieiros (do litoral norte) e tambores chico (de origem uruguaia). Os participantes cantam, dançam e tocam tambores em uma grande festa. 

A Tamborada foi criada em 2009, através de um percurso por algumas cidades gaúchas onde Kako morou, como Porto Alegre, Osório e Lajeado. Em 2016, quando o músico voltou a se fixar em Pelotas, iniciou um processo de transformar sua residência em um espaço de arte. Nasceu a Casa do Tambor, um local multiartístico que já recebeu festival de dança, apresentações teatrais, oficinas de culinária e de costumização de bonecas, além de ensaios musicais.

Embora tenha ganho corpo pelo discurso da negritude, o projeto envolve negros, brancos, homens, mulheres, crianças, jovens, adultos e idosos. Todos os tambores são feitos artesanalmente. Kako se responsabiliza pelos tambores praieiros e a dupla Maurício Polidori e Rogério Gutierres pelos tambores de sopapo, cada vez sendo mais aprimorados, com melhor som e acabamento. 

A Tamborada já foi levada para escolas do Estado, via FAC-RS, tendo as crianças como participantes do processo de composição musical. "Pegamos canções da minha carreira e também escrevemos letras sobre o Laranjal, o vento, a areia, o pescador, enfim, as belezas que estão à nossa frente e muitas vezes não valorizamos", conta. 

A primeira apresentação fora da Casa do Tambor foi em novembro de 2017, no Mercado Central. Foi quando Kako percebeu que o projeto tinha um forte apelo popular, transformando um movimento, um bloco de rua, durante o último verão. Em maio deste ano lançaram o álbum Agora somos nós, na Bibliotheca Pública Pelotense. "É como Kako Xavier no formato de voz e violão, somado a 20 tambores", resume o músico. 

O convite para encerrar a Virada Cultural veio da Secult, a fim de celebrar uma tradição do município. Serão diversos convidados: Renato Borghetti, Clube do Choro, Candombes do Guillermo, Zingado, Academia do Samba, Diego Garcia (Solo Fértil), Eduardo Freda (Be Livin), Mister Negrinho, Igo Santos (ConeSoul) e Trio Di Boa. Outras personalidades como os mestres griô Dona Sirley e Dilermando Freitas, Dona Maria e Zé Batista, família do Mestre Batista, Richard Serraria (Alabê Ôni) e o professor Mário Maia também devem estar no show.

A apresentação deve durar cerca de duas horas e reunir diversos estilos musicais ao ritmo dos tambores, entre eles rock, samba, choro, reggae e rap. Serão aproximadamente 50 tambores no palco, todos juntos, para gritar forte que Pelotas é a cidade do tambor de sopapo. "Quanto mais tambores, mais visibilidade", diz.

PROGRAMAÇÃO 

PALCO CIDADE
Sábado
22h - Côco de Zambé
23h - Grupo de Cultura Popular Zingado

Domingo
0h - The Experience Nebula Room
1h - Bruxa de Sade
16h - Fábrica de Gaiteiros e Escola Municipal Francisco Barreto
16h45min - Clube do Choro
18h - Banda Afroentes
19h - Renato Borghetti
20h30min - Kako Xavier, a Tamborada e convidados

TABLADO CÊNICAS
Domingo
16h - Ou dá ou Décio/Falando de tudo, de Décio Ferret
16h45min - Poesia do gesto, de Stúdio de Dança Thomas Marinho
17h30min - Missivas de enfil ou saudade, de Rodolpho Furtado
18h15min - Quando você me toca, de Tatá Núcleo de Dança-Teatro

EVENTOS PARALELOS
Domingo
10h - Programa Vivência da Cultura Yorubá, com oficinas de música e história, na Casa do Tambor
10h às 22h - Programa Atelier do Artista II, com oficinas, exposição, feira de arte e diversas atividades, na Travessa Conde de Piratini
12h às 22h - Feira gastronômica Comida de Rua, em frente ao Theatro Guarany
14h às 21h - Programa Samba da Consciência: 16ª edição - Samba no Simões Lopes, com shows de Márcio Jaguarão, Tok de Samba, banda Arerê e rodas de samba, na avenida Visconde da Graça, 683
17h30min - DJ Helô em frente ao Theatro Guarany

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