Opinião
13-09-2009 | 10h38min
Aleksander Aguilar
Meu Brasil é Pelotas
Durante uma animada refeição familiar salvadorenha no ano passado, quando tinha pouco tempo de haver chegado a América Central depois de dois anos vivendo em Londres, minha tia, que nasceu e viveu quase toda a vida em El Salvador, faz a pergunta inevitável sobre o comportamento dos britânicos. Ela se referia àquela fama da típica fleuma e frialdade que aos próprios ingleses, cientes do estereótipo construído e arraigado no imaginário internacional, lhes parece pitoresca. É representada, por exemplo, no conhecido filme Garotas do calendário. Narra a história de um grupo de senhoras, com mais de 60, que decidem posar nuas para um calendário, com o objetivo de arrecadar fundos para um hospital do lugarejo onde vivem na Inglaterra. Em uma das cenas, uma das senhoras está tomando o café da manhã com o marido que, sem mais movimento que empurrar em direção à esposa o jornal que está lendo, declara: “Você está nua nesse jornal”. A mulher congela e depois de dois segundos de silêncio ele retoma: “Passe-me o bacon, por favor”.
A noção do que é “típico” nesses contextos corresponde à construção, histórica e social, às vezes com algum fundamento e outras com preconceito, de generalizações, na maioria dos casos reprochável. Nem todos os britânicos são aristocratas, nem todos os salvadorenhos são ilegais, nem todos os pelotenses são metidos.
O que nos falta é perspectiva e ela é imprescindível para que possamos traçar paralelos que na famosa relação com “o outro”, definidora da própria identidade, esses olhares que intercambiamos superem o estereótipo, reconheçam limites, valorizem a experiência, apreciem a opinião, catalisem a crítica.
A falta de perspectiva não é simplesmente uma condição optada ou conspirada, mas também uma miopia involuntária, resultado do jogo de possibilidades de acesso. Se Paris é para Pelotas o centro de um suposto mundo de tradições é porque esse foi o acesso de um recorte da Cidade Luz permitido a um certo tipo de pelotenses de uma época, reforçando estereótipos.
A imagem que temos da Europa é aquilo que achamos que sabemos da Europa segundo o jogo de importações de estereótipos, segundo nossas leituras mais ou menos críticas, e até conforme - para os mais prósperos - nossas impressões de turistas depois de uma viagem de férias. E esse jogo de ideias generalistas é de mão dupla, entre os de lá e os de cá. É uma Londres como terra da neblina e gente pomposa que gosta de chá, um México cheio de bigodudos de sombrero tomando tequila, e um Brasil de futebol e mulheres de bunda grande (que podem até ganhar títulos de “melhor do mundo”).
Como explicar para um inglês sem perspectiva que o meu Brasil não é tropical, que não sei sambar e o time de futebol do qual sou torcedor é local e não Flamengo ou São Paulo? Como explicar para um pelotense sem perspectiva que ser uma cidade supostamente tão úmida quanto Londres, mas sem infraestrutura, não significa nada mais que passar muito frio, que morar na Europa não é estar em um hotel com vinhos e lareiras (lareiras são proibidas nas casas de Londres há muitos anos), que os famosos ônibus vermelhos na hora do rush são mais superlotados que os da antiga empresa que fazia a linha para o Laranjal?
A própria noção do suposto traço pelotense típico, da vaidade e arrogância, merecidamente criticado na cidade pelas vozes que se levantam em favor da “Pelotas moderna”, está muitas vezes fundamentando na ideia de que o “pelotino” (gentílico metafórica e popularmente criado para designar o cidadão natural de Pelotas com origens em berço de ouro, pretensioso, conservador, deslumbrado e muitas vezes, sem admitir, economicamente falido) segue aferrado a essas imagens distorcidas e cheias de clichê do mundo ao qual quer comparar-se.
Entretanto, a esse grupo do apelo ao moderno, que acertadamente não quer importar clichês, tampouco lhe importa olhar para mais além da Lagoa dos Patos com abertura ao diálogo, pois acha que já conhece suficientemente o mundo através da internet. Quando porventura alcança esse olhar, tende a reproduzir novos clichês, diferentes dos do passado da Belle Epoque, mas ainda assim clichês, defendendo a construção de shopping centers, ignorando expressões culturais das periferias, depreciando demandas de movimentos sociais. São aqueles que, para ilustrar, afirmam que são a favor do estímulo ao uso de bicicleta e de políticas públicas para o meio, “como se faz em Barcelona”, por exemplo, desde que e sempre quando, não atrapalhe o tráfego. Nos falta perspectiva.
Esta coluna que hoje estreia no Diário Popular pretende dar uma modesta contribuição a esses possíveis e distintos ângulos de observação, apontando, quinzenalmente, para novas perspectivas entre o local e o global. Para não deixar a historia sem final, à minha tia em El Salvador respondi que há muita gente fleumática no Reino Unido, mas que em Pelotas, lugar onde ela viveu por algum tempo, poderia haver tanto quanto. Ela sorriu, e concordou.
*Aleksander Aguilar é jornalista, vive em Londres e é mestre em Estudos Internacionais – aleksaguilar@yahoo.com
-
Pois é. Pelotas é uma coisa estranha. Há tantas visões sobre o que é ser de Pelotas. O que pensa um Pelotino/Pelotense? Mas no fundo o que eu acho é que existe uma certa dose de alienamento do que seja Pelotas hoje. Parece-me que o que melhor ilustra Pelotas e suas contradições é o Mercado Municipal. Isto, Pelotas é a cara do Mercado Municipal. É uma pretensa obra de arte no seu exterior, como os prédios de Paris (porque não? Não temos uma caixa d'água importada da Suíça e chafarizes da França?) e ao mesmo tempo é uma favela no seu interior (como qualquer grande favela de qualquer grande cidade do mundo). Assim é a alma do Pelotino/Pelotense. No mais, em Pelotas se ficar parado mofa.
jorge viana - 14-09-2009 - 20h55min -
Como explicar que meu brasil não é samba, é frevo? Como explicar que os rios do Recife são os símbolos da cidade? Mas, também, como entender os vários brasis dentro desse brasil imenso? Acho que o que tu tratas no "macro", a perspectiva necessário para traçar-se paralelos entre os povos, também pode ser aplicada no "micro". Talvez cada um de nós seja um estrangeiro aonde quer que vá, dentro ou fora das fronteiras de seu país.
Juliana Vitorino - 13-09-2009 - 15h10min

