Opinião
06-07-2009 | 09h18min
Artigo
O jornalismo e a moral de Ratatouille
"Qualquer um pode cozinhar", nos ensinou com profundidade filosófica, por assim dizer, Auguste Gusteau. Entretanto, ele mesmo acaba agregando que só os audazes chegam a ser chef. O crítico de culinária Antón Ego também afirma que embora um grande artista possa surgir de qualquer lado, não é qualquer um que o será.
A assertiva de Gasteau dirige-se a todos os homens e as mulheres de boa vontade que pretendam aprender a cozinhar e, analogicamente, na vida real brasileira, também a fazer jornalismo. A polêmica comparação entre jornalistas e cozinheiros feita pelo presidente do Supremo Tribunal Federal brasileiro, Gilmar Mendes, ao defender a extinção da obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão de jornalista nos faz pensar que o ministro tenha sido motivado pela inspiradora mensagem desses dois personagens da animação da Disney-Pixar, Ratatouille.
Mendes deverá haver refletido que se trocamos o ato de cozinhar por qualquer outra atividade em que supostamente a exigência principal é a mera capacidade criativa, então deve-se, por força judicial, evitar os preconceitos contra o possível aflorar de talentos. Some-se a isso o instigante fato do protagonista da animação em questão ser um rato. Os ratos do filme correm, saltam e escalam. São ratos que às vezes nos dão asco, outras vezes nos fazem rir e podem provocar, inclusive, respeito. Metaforicamente, pensou o ministro, igualzinho aos jornalistas.
A lógica juvenil de Gilmar Mendes faz todo o sentido enquanto não se conotar novamente o jornalismo e o jornalista. Os argumentos em favor da especialização da profissão que tenham como base apenas a técnica e a linguagem jornalística são facilmente contestados com a poderosa realidade de que o jornalismo, como técnica, é conteúdo de manual. É triste constatar que a maioria das faculdades de jornalismo do Brasil continua despejando nas ruas descerebrados reféns acríticos da ditadura do mercado em lugar de gente com formação filosófica e humana.
Mas isso não justifica a leviandade de alguns em defender a posição do Supremo. É tão óbvio que o que está em jogo não é o direito acadêmico ao jornalismo, senão a própria natureza da disciplina, que concluímos logo: muitos dos aplausos a Gilmar Mendes partem de pessoas ingênuas ou mal-intencionadas. As que se apressaram em dizer que o fim da exigência do diploma põe fim à injustiça de não se considerar o valor do "dom" e da capacidade criativa para o exercício do jornalismo parecem também influenciados pela moral de Ratatouille. É verdade que os especialistas e todos os cidadãos podem opinar com precisão e elegância, mas o uso desse direito não pode ser confundido com a atividade jornalística.
Essa posição é conservadora, ignorante e medíocre. Não se trata de defender um diploma, mas sim o valor científico das humanidades. A crítica e a ética podem ser aprendidas também em uma qualificada instituição universitária. A Internet democratiza o acesso à informação e ao direito de produzir opinião, mas não será a responsável, nem mesmo com blogs e twitters, por formar jornalistas.
O debate sobre jornalismo no Brasil representa hoje o lugar em que ganha relevância o papel das universidades na formação do indivíduo crítico. A formação do jornalista é o exemplo mais concreto de batalha contra a atual estrutura hostil ao jornalismo. O que se precisa é o estudo em comunicação num sentido amplo, necessariamente humano, de eixos pelo menos filosófico, sociopolítico, linguístico e semiótico. Investimentos em favor da qualidade do ensino que, dentro de suas especificidades, poderiam realizar outras ciências humanas contra possíveis ataques de moral de Ratatouille.
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Concordo com sua opinião, de que esse tipo de ação isolada é muito mais populista do que qualquer outra coisa, mas você nunca observou a questão pela ótica de que a exigência de diploma para jornalismo nada mais é do que mais um expediente da ditadura para inibir o fluxo de informações e de opiniões? Digo isso do alto do exercício de uma profissão não regulamentada, onde o diploma é, assim como agora no jornalismo, opcional. A escolha por cursar uma faculdade é somente mais uma forma de aprender. José Vahl, Cientista da Computação e, agora, jornalista!
José Vahl - 17-07-2009 - 19h49min

