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CADERNO ESTILO

Conto

Carinhosamente, Arnaldo

Mamãe, papai é mau?

Não, meu filho. Teu pai fez coisas erradas, mas não é mau.
Na escola me disseram que ele nunca mais vai sair.

Mentira, Marquinhos. Não dá bola, querem te incomodar. Ele vai sair, sim. Ainda pode demorar um pouquinho, mas ele vai sair. 

O que ele fez?

(Neste instante, a mãe, encurralada com a chegada àquele momento, precisa optar entre a verdade, que faria o menino odiar o pai, tão horrendo o crime cometido, e a mentira. Não sem dor, fica com a segunda opção)

Teu pai atropelou um homem, que acabou morrendo. Mas foi sem querer.

Se não foi por querer, por que ele ainda está preso?

Porque nem tudo é certo neste mundo, meu filho.

Eu tenho tanta saudade do carinho dele, mamãe!

Eu também, meu filho. Eu também.

Papai não pode ser mau, não pode. Ele não conseguia me ver triste, por qualquer coisinha que fosse, que logo arranjava um jeito de me fazer dar risada, de mexer, de brincar comigo.

Isso mesmo, meu filho, isso mesmo. Teu pai não é mau.

Eu tenho medo, mamãe.

De quê?

De que façam algo com ele lá dentro. De que batam nele, machuquem…

Não vão fazer isso, Marquinhos, a polícia cuida.
-–

O desenlace exato da história, como tudo na vida, é insabido. De certo, pelo que testemunharam várias fontes fidedignas, tem-se que Marquinhos jamais voltou a ver o pai. Cansado de sofrer abusos na cadeia, o homem se matou. Atirou-se do terceiro andar. No bolso, uma carta escrita à mão, com caneta de tinta vermelha. Dela omitirei alguns detalhes do dia-a-dia do homem no presídio, omitirei as tantas e sempre novas maneiras com que os colegas - e até mesmo um guarda - faziam dele a menininha do lugar, a bonequinha mais usada. E o resto não se diga. Do relato desesperado, deixo contigo, neste final sem luxo, comum em tudo, apenas umas breves palavras, as mais sentidas e tristes.

"(...) Não alimento ódio. Mas também não tenho mais amor. Ando de sombra em sombra. De miséria em miséria. Caminho, mas é como se não caminhasse. Como, mas é como se não comesse. Restei no mundo só - e não há palavra que possa significar o que sou. Morro de novo. Morro de vez. Que Deus me perdoe, se Deus houver. Que meu filho se lembre do bom de mim, se algo bom de mim nele ficar. Saio de cena. Sem forças. Sem coragem."

 

Por: Pablo Rodrigues - pablo@diariopopular.com.br

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