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22-10-2009 - 08h59min

Personagem da vida real

Por: Luísa Roig Martins – luisa@diariopopular.com.br

Ao oferecer um prato de comida que havia sobrado do restaurante, Rodrigo me pediu - caso eu não me ofendesse - que eu provasse um pouquinho. Peguei um fio da massa e comi. O menino me observava e esperava o momento em que eu me intoxicasse. Vendo que eu não morreria naquele minuto, disse-me sorrindo: "Sabe como é, né moça? Sou meio desconfiado".

Rodrigo é um guardador de carros da zona do Porto, em Pelotas. Esse cargo, entretanto, é mais teórico que prático. Rodrigo compete com outras pessoas pelas quadras que circundam a universidade. E quase sempre perde: além de ter um problema na perna, sequelada a partir de um tiro, não tem a carteirinha necessária para desempenhar a função. Mais que isso, Rodrigo não tem documento de identidade. A certidão de nascimento, pela qual pagou dolorosos R$ 12,00, é a única coisa que o faz ter certeza de quem é.

Encontrei Rodrigo outra noite, sentado no meio-fio da calçada, fazendo a contabilidade dos vales-transporte recebidos. Talvez faltasse dinheiro para o café e balinhas de menta que o fazem perder a vontade de fumar. Sentei e contei que estudava Jornalismo. Descobri uma vida cheia de calos, dores, injustiças, arrependimentos.

Aos nove, perdeu uma irmã. Aos dez, a mãe foi vencida pelo álcool. Tinha recém feito 11 quando o pai foi assassinado. Indignado, Rodrigo fez loucuras que traçaram seu caminho à Febem, onde ficou por dois anos e meio. Não quis me contar tais loucuras porque “eu ficaria brava”, mas diz que se arrepende - e eu acredito. O olho de Rodrigo é verdadeiro, embora raramente encontre o olho daquele com quem conversa. Sempre no céu ou no chão. Sempre preocupado.

O desconfiômetro nunca mais foi desligado desde que Rodrigo, passando fome e sede, implorou por comida e bebida em uma casa: "Recebi suco com xixi e pão com geleia misturada com as necessidades", desabafou. Não se aproxima das pessoas por medo de ser traído. Não tem amigos. Para se divertir, monta sua pista de "tampacross" na esquina de casa - e prefere jogar sozinho. Também gosta de cantar: “Adoro Bruno e Marrone, mas acho bonito mesmo é esse tal de inglês”.

No teto que divide com a outra irmã, sente falta de um sofá e de um guarda-roupas. Não reclama da luz das velas: “É até romântico, mas não tenho namorada”, adiantou Rodrigo, adivinhando a minha próxima pergunta. Na despedida, disse-me que um dia queria voltar a estudar. Completou apenas a segunda série do Ensino Fundamental. “Se não fosse esse teu estudo todo, tu não estarias escrevendo pro jornal”, encorajou-se.

Rodrigo é uma súplica. Suplica por uma assistente social que não sabe como contatar, suplica por espaço e algumas moedas. Suplica pelo perdão divino, suplica por mais um dia vivo. É um personagem da vida real. Na guerra da existência, Rodrigo já nasceu perdendo. Mas espera, pelo menos, que um dia ganhe uma batalha.

+ COMENTÁRIOS (3) comentário
  • Luí­sa, minha amiga, quanto orgulho de ti!!! Parabéns e muito sucesso em tua carreira!!! Bjão

    Fabiane Bergmann - 24-10-2009 - 18h46min
  • Parabéns Luísa, muita sensibilidade nas palavras!

    Carlos Milman - 24-10-2009 - 12h01min
  • Ótimo texto, fiquei realmente emocionada. Parabéns!!! Um abraço.

    Juliana Farias - 22-10-2009 - 09h48min
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