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Em vez de cacos de vidro, castelos!
Por: Michele Ferreira – michele@diariopopular.com.br
Queria apenas fazer um buraco na areia. Voltar à infância, soltar a imaginação. Criar castelos, dar vida a bolinhos, em diferentes formatos, como fazia no início da década de 1980. De novo o cenário são as praias do Laranjal. A diferença é que hoje, quando pego a pá cor-de-rosa, sou a mãe da minha pequena Cecília, de dois anos. Não sou mais a filha, caçula, que passava horas de estripulia com as irmãs na areia, em revezamento para definir quem seria a próxima a ficar deitada, enterrada, só com a cabeça de fora.
Impossível simplesmente desligar. Tenho precisado dividir a atenção entre a brincadeira e o catar lixo. Remover riscos que transformem o dia de lazer em choradeira, curativos ou pontos. Sei lá. A cabeça de mãe sempre voa na frente. No último domingo, mais uma vez, a nossa mateira de couro precisou virar depósito. Voltei para casa com quase dez cacos de vidro. Não adiantaria simplesmente arremessá-los ao longe, até que uma próxima Cecília os encontrasse em meio à diversão. Baganas, papéis, palitos de picolé e de kreps, tampinhas de garrafa, canudos... já não provocam surpresa, embora indignem quem costuma retornar para casa com os bolsos melados de papel de bala.
Até aí são resíduos - relativamente - inofensivos aos pés, às mãos e às cabeças da criançada que rola solta pela areia. Claro que não daria para dizer o mesmo com relação ao meio ambiente, que sofre com a degradação, longa, de todos eles. Até aí nenhuma surpresa, de novo. A todo momento o homem dá demonstrações de que seu universo gira em torno do umbigo.
Aproveito este espaço, então, para deixar um convite aos amigos leitores. São dois tipos de exercícios, ao gosto do freguês, e um bem coletivo. O primeiro: procure reunir todo o seu lixo, num cantinho, para de uma vez só despejar tudo em uma lixeira. E, olha, que todas as vezes em que estive no balneário Valverde, nesta temporada, os tubos de concreto improvisados de lixeira estavam, sim, revestidos com sacos pretos. O segundo: leve sua própria sacola plástica; aí não há desculpas para preguiça em levantar da cadeira nem reclamações sobre a escassez de lixeiras. É simples. Experimente.
Gostaria de poder ornamentar os castelos apenas com pedrinhas, conchas, coquinhos e folhas secas. Cacos de vidro e pregos enferrujados, com os do domingo, 17 de janeiro, prefiro dispensar. Quero apenas um programa, em família, no Laranjal. Com direito a sonhos, à beira da Lagoa dos Patos. Com direito a uma chuveirada, se as águas estiverem impróprias ao banho. Isso, se aqueles mesmos do universo umbilical, permitirem. Se as torneiras não voltarem a ser quebradas. É tão simples. Basta exercitar o respeito ao outro. Fica o apelo.


