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19-01-2010 - 09h24min

Nossas forças no Haiti

Camila Weinmann – camilaw@diariopopular.com.br

O desastre natural ocorrido na nação mais pobre das Américas deixou em choque boa parte da população do Brasil. O desespero foi maior entre as famílias e os amigos dos mais de 1,3 mil brasileiros que atuam na Missão de Paz estabelecida pela ONU, dos quais 18 já tiveram a morte confirmada. Pouco impacto tem, no entanto, a localização de 50 mil corpos de haitianos entre os destroços. Diante de tantos lamentos sobre a tragédia, questiono: alguém parou para pensar sobre o que nosso Exército está fazendo no Haiti?

Em 2006, o tema instigou a mim e a outros estudantes de Jornalismo. O documentário produzido após longo trabalho de pesquisa acabou evidenciando o trauma e as sequelas psicológicas deixadas nos militares que presenciaram a violência oriunda também das tropas brasileiras. Mostra ainda que, em busca de uma vaga permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas, nossas Forças Armadas embutem na cabeça dos militares a ideia de que precisam ser vitoriosos, já que o Brasil está no comando. Mas no comando de que mesmo?

Embrutecidos pelo contato com a realidade do país, muitos perdem essa noção. Quando, em 2004, o Exército verde-e-amarelo assumiu a liderança da operação Minustah, a meta era a estabilização do Haiti. Ou seja, dar condições para a manutenção da paz e evitar que os conflitos armados instalados na região se tornassem ameaça à segurança internacional. Quase seis anos se passaram, os chamados capacetes azuis continuam lá e os resultados são poucos.

Um dos objetivos da missão era fiscalizar a polícia local, acusada de executar civis e violar os direitos humanos. Porém, nas entrevistas feitas para o nosso vídeo, soldados contam que acabaram por acompanhá-la, subindo morros e participando de chacinas, o que mudou a percepção dos nativos em relação aos nossos homens.

Além disso, outros interesses foram atendidos com o envio dos nossos braços fortes à América Central. Tropas brasileiras substituíram as norte-americanas. Estas, por sua vez, ocuparam-se com causas do Oriente Médio, em países como o Iraque e o Afeganistão. Tire suas próprias conclusões.

Não quero com estas palavras diminuir o heroísmo dos militares daqui. E sim, indagar: o que são 18 mortes perto do sofrimento instalado no Haiti, onde mais de 80% da população vive abaixo da linha da pobreza? Onde conviver com cemitérios a céu aberto não é realidade apenas quando há um terremoto? Para esse povo, a morte pode até ser menos dolorosa do que a vida.

Mas e nós? Estamos contribuindo para acabar com isso? Nossos guerreiros estão lá, patriotas expostos a catástrofes diárias. Não tenho dúvida, naquela terra toda a ajuda humanitária é bem-vinda. Mas de lutas armadas o Haiti está cheio. Por lá, o chão já tremeu há muito tempo.

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