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A música da emoção
Por: Amanda Santo - amanda@diariopopular.com.br
Creio que todo mundo é rendido a voltar à infância diante de uma música especial. Ou um álbum inteiro. No meu caso, uma coleção de discos. São dezenas de cantores e autores que marcam por algum motivo os áureos tempos da nossa inocência. Mas, justo hoje, em meio à minha lista de canções nostálgicas uma se destaca, latejando em mim como de propósito. É o hino do Grêmio Esportivo Brasil.
Sei que pode parecer estranho - principalmente para quem não é ligado a futebol - que uma canção assim traga uma saudade particular. Mas é que, ao menos para mim, esta canta diferente. Nos contratempos da batida que fala da história do clube, há o relato dos domingos em que eu acordava ao som da melodia marcante e das palavras que ecoavam as cores, o sangue e a raça daquela paixão. Foi assim que conheci o Xavante. Aquilo era o Xavante para mim: o hino tocando no aparelho de som, meu pai sentado na sala, o chimarrão fumegante.
Jogo foi coisa que conheci bem depois. Não morávamos em Pelotas e, por isso, era difícil ver no campo a tradução daquele sentimento todo. A única coisa que conhecia eram as histórias que ouvia dos tempos em que, ainda jovem, meu pai passava de casa em casa reunindo os amigos para se dirigirem a mais um espetáculo na Baixada - percurso feito sempre com um bandeirão rubro-negro em punho.
Era tão bonito imaginar. Ainda mais quando, ao fundo dos relatos do torcedor, tocava o som de estrofes, refrões e tudo o mais. Em tango, samba, salsa ou na versão original. O CD continha mais de dez faixas com a mesma música, cada uma com um ritmo, todas com a mesma contemplação. Hoje, a canção já não é a mesma, porque da vida já carregou muitas e muitas outras histórias. Lembrando o filósofo espanhol Ortega y Gasset, que diz que nós somos nós mais nossas circunstâncias, digo que assim é o hino do Brasil: é ele mais as minhas, as suas e as nossas circunstâncias.
A infância passou. E ficou. As preciosidades são assim; ficam como marcas indissolúveis ao tempo. Assim como também são as histórias comuns aos rubro-negros. As boas e as ruins. Nenhuma será esquecida, como música saudosa. Mas todas, cada qual com seu ritmo, contemplam a mesma coisa; fazem com que revivamos as emoções proporcionadas pelos grandes personagens. Emoções que devem ser aplaudidas sempre que lembradas ao som de um hino ou de uma típica batida da charanga. Hoje, o Xavante para mim é isso: o hino na infância, a emoção da torcida, a lembrança de Milar, Régis e Giovani, a esperança em novos tempos e um chimarrão que parece permanecer para sempre quente


