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Temer não é um salmão

14 de Março de 2018 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Pedro Moacyr

A ida do presidente Temer, no último sábado, à residência da presidente do Supremo Tribunal Federal, ministra Cármen Lúcia, foi um acontecimento inacreditável, não fossem eles os personagens que são. De fato, somente se pode crer que essa conversa realmente aconteceu porque se trata de um presidente sem qualquer escrúpulo e uma ministra sem qualquer brio. Recaem sobre Temer, ao que sei, duas denúncias, um inquérito e uma investigação preliminar autorizada. É por conta de decisões de alguns integrantes do STF que Temer teve a autorização de quebra de seu sigilo bancário, de análise geral de suas relações com fornecedores do governo federal e de práticas reiteradas de recebimento de propina. Esses crimes têm designações penais específicas, não sei precisamente os nomes de todos os delitos que lhe imputam. Tudo isso será preciso provar-se, claro, e espero, mesmo que se trate de Temer, que a prova seja robusta, para justificar relação inequívoca entre o que ele possa ter feito e a consequência jurídica que ele então venha a sofrer, como convém a uma normalidade democrática e a uma ordem institucional defensável.

O que fez o presidente da República no dia 2 de março, em meio às sombras da noite? Foi informalmente à casa de Cármen Lúcia (o encontro não estava agendado), para depois alegar que o bate-papo era sobre a segurança pública.

E o que fez a ministra Cármen Lúcia? Recebeu-o, mesmo sendo réu na corte máxima do país, por ela comandada, o homem que apertou a campainha, ressoando as trombetas do apocalipse nacional. Quase cômicas trombetas, mas, enfim, apocalípticas. Poderia - e nisso não haveria nenhuma grosseria pessoal, mas mera cautela justificada do cargo - ponderar-lhe que não o receberia por razões de incômodos óbvios. Mas, não. Ela o recebeu, e cavaquearam.

O encontro, evidentemente, não foi assim, absolutamente súbito e inesperado, com Temer chegando à porta de Cármen sem qualquer aviso. Telefonemas, recados ou mensagens virtuais anunciaram sua vinda, de sorte que haveria tempo para que não fosse a ministra tomada por aquelas sensações, que às vezes temos, de não saber o que fazer com pessoas que apertam as campainhas de nossas casas repentina e inesperadamente.

Há também outra possibilidade: e se foi ela que o chamou à sua casa? Nesse caso, imagino assuntos ainda mais suspeitos, como o adiantamento do que deverá vir pela frente e quais deverão ser os melhores passos a dar. Descarto essa hipótese, contudo, pois eu seria leviano demais em minhas inventividades, ainda que alguma irresponsabilidade criativa me seja estimulada por atores dessa má peça, assanhando-me a imaginar roteiros. Continuo com minha velha dúvida: quem é o dramaturgo que dirige o espetáculo? Convenço-me cada vez mais de que o diretor não é sequer brasileiro. A ida de Sergio Moro para estudar nos EUA, dando continuidade a relações, que não são novas, com órgãos e agências do governo americano sugere boas pistas.

Ainda é cedo para afirmar algo, senão por suposições que não temos como provar, e provas ainda são importantes, apesar da insensatez e da perversidade do Judiciário brasileiro e suas novas caracterizações do fato consumado.

É um bom exercício pensar sobre a pauta dos jornais televisivos e de outros meios de comunicação potentes do país se essa visita se desse entre Lula e Moro. Ah, mas Lula não é mais presidente, é isso? Pois bem, então o coloquemos no lugar de Temer, e o tornemos, para fins exemplificativos, o presidente da República, e Moro, o presidente do STF. Oitenta por cento dos noticiários se encarregariam disso, talvez reativassem panelas (acho improvável, Dilma já caiu), Lula apareceria como um insidioso bandido a tentar impor-se a um juiz, e o próprio Moro cairia em descrédito por haver recebido Lula em casa.

Quinhentos anos de formação elitista dos componentes diretivos de uma nação escandalizam bem menos do que os atos de quem, por quinze anos, tentando nadar um pouco contra a corrente, ainda teima em seguir afrontando essa duradoura organização de poder. É preciso que as culpas estejam concentradas nos quinze anos. Vejam - somos levados a crer que as trombetas do apocalipse são apenas aquelas línguas-de-sogra que sopramos nos carnavais. Os que sobem os rios na direção contrária de seu curso, feito os salmões canadenses, encontram os velhos ursos de sempre sentados nas pedras, esperando-os com suas garras e dentes. Os salmões vêm desovar, gerar descendência, mas são impedidos. A ousadia lhes dá curta vida.


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