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Quando o protecionismo pode causar a crise

08 de Março de 2018 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Cássio Furtado, professor e jornalista

Na semana passada, o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou um aumento de 25% nas tarifas para importação de aço e de 10% para o alumínio. Na ocasião, afirmou que pretendia reconstruir as indústrias siderúrgica e de alumínio de seu país, enfraquecidas nas últimas décadas.

Trump causou furor nos mercados globais, provocando a queda das bolsas de valores mundo afora. Tornou-se, uma vez mais, uma unanimidade: recebeu duras críticas de líderes políticos e econômicos da América Latina, Europa, Ásia e Oceania.

Em resposta, desdenhando seus críticos, Trump afirmou: - Guerras comerciais são boas e fáceis de ganhar.
Em 2017, Trump já havia retirado os EUA da Parceria Transpacífico, que promove o livre comércio entre as nações americanas, asiáticas e da Oceania. Agora, com o pretexto de recuperar a economia e gerar empregos, favorece megaempresas siderúrgicas locais, ao mesmo tempo em que caminha na contramão da globalização tão defendida pelos EUA.

É certo que o setor siderúrgico do país perdeu cerca de 75% da força de trabalho nos últimos 50 anos, mas a principal responsável chama-se mecanização. Com o avanço da tecnologia, a produtividade de cada trabalhador aumentou 500%, diz estudo da Associação Econômica Americana.

A polêmica decisão de Trump prejudica diretamente as exportações brasileiras. Hoje, o Brasil possui 30 usinas siderúrgicas, e um terço das exportações de aço é para os EUA. Em 2017, de acordo com o Instituto Aço Brasil, o Brasil exportou 4,8 milhões de toneladas para os EUA. Grande parte é de produtos semiacabados, que ainda precisam ser reprocessados antes de serem usados em produtos finais, como carros e eletrodomésticos.

Os grandes produtores mundiais de aço, como China, Japão e Índia, serão gravemente impactados com as medidas protecionistas de Trump. Em 2017, a China produziu 831,7 milhões de toneladas, o Japão 104,7 milhões e a Índia, 101,4 milhões. Os EUA, só 81,6 milhões de toneladas.

Durante a campanha de 2016, Trump já havia prometido duras medidas para proteger o mercado interno e criar empregos em setores em crise, como é o caso da siderurgia. Também é bom lembrar que ele foi eleito pelo Colégio Eleitoral com os votos de trabalhadores desempregados em estados como Pensilvânia, Michigan e Wisconsin, justamente onde grande parte das indústrias siderúrgicas era situada.

O problema com a iniciativa de Trump é que para tentar salvar os empregos de cerca de 150.000 trabalhadores das indústrias de aço e alumínio nesses e em outros estados, ele poderá criar enormes prejuízos para a economia de seu país, aumentando consideravelmente a inflação e ameaçando milhões de emprego.

Na medida em que os preços do aço e do alumínio aumentarem, as indústrias estadunidenses que utilizam tais materiais, como as de construção, manufatura, transportes e equipamentos elétricos, por exemplo, perderão competitividade. 

De acordo com analistas da Brookings Institution, até 6 milhões de trabalhadores poderiam ficar desempregados em estados como Missouri, Louisiana, Connecticut, Maryland, Arkansas e tantos outros.
Afora os possíveis problemas internos, Trump encontrará resistência no exterior. Inúmeros países prejudicados poderão instaurar medidas de retaliação e impor tarifas maiores aos produtos que importam dos EUA, prejudicando outras indústrias do país.

Além disso, é provável que haja uma enxurrada de processos contra os EUA na Organização Mundial de Comércio, alegando que as regras de livre comércio foram violadas pelas ações dos EUA.

O anúncio de Trump não teve nem o apoio de seu principal assessor econômico, Gary Cohn, um ardoroso defensor do livre comércio e ex-presidente do grupo Goldman Sachs. Cohn pediu demissão por discordar da imposição das tarifas.

Com o grande público, pelo menos por agora, há poucas repercussões negativas para as medidas protecionistas do governo estadunidense. Não é demais lembrar que, em dezembro de 2017, o Congresso dos EUA aprovou a reforma tributária proposta por Trump, que cortou cerca de US$ 1,5 trilhão em impostos para empresas e pessoas físicas.

Os cortes de impostos e o crescimento econômico - de 2,3% em 2017 - aumentaram por ora a popularidade de Trump, que era pífia até então. Mas com o infeliz anúncio protecionista da última semana, e a provável inflação e o desemprego que virão como consequências, é difícil imaginar dias melhores para a economia dos EUA.


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