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A Síria, a Síria

07 de Março de 2018 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Pedro Moacyr Pérez da Silveira, Do objeto e suas ressonâncias
pedromo0987@gmail.com

Tenho a impressão de que o homem, este animal perigoso que caminha sobre a Terra, dedicou maior atenção para inventar caminhos de aflição e horror do que para cultivar prazeres e alegrias. Com seus deuses dúbios de amor e ódio, procurou feitiçarias gerais para auspiciar a si próprio uma boa, mas imprecisa, sorte na vida. Pintou cavernas, esculpiu monumentos de adoração, apercebeu-se de que deveria continuar amando seus mortos e criou os cemitérios, descobrindo a hipótese da alma. Com um gesto de suprema esperança, acreditou que a alma não desaparecia feito os corpos ulcerados das tumbas ao tornarem ao pó, e tratou de inventar cultos, venerando os falecidos e respeitando seres invisíveis.
Olho para a Síria.

Aos poucos, esse homem foi admitindo vantagens no ato de matar os outros e notando a importância de não se deixar matar por eles. Aprendeu a desculpar-se pelo ato extremo. Sua crescente piedade, vinda com a experiência dos próprios passos e com as grandes lições morais, afastou-o da esganadura e do esmagamento de crânios com porretes que fabricava noutros tempos, com seu medo defensivo e suas mãos de ataque. Milênios depois de suas antigas violências, disfarçou um pouco mais seu coração impiedoso e conheceu as facilidades de matar mais anonimamente com o uso de exércitos, sofisticando suas armas.

Supõe-se que dos rios vieram os antiquíssimos povos gregários que fundaram as cidades. Nelas, floraram pensadores e inteligências, mobilizando a racionalidade e sistematizando com ideias o funcionamento do mundo. Cultivaram-se ideologias e lançaram as bases de religiões mais amplas e de um só deus. No Ocidente, duas dessas religiões estabeleceram nossa civilização e, juntas, dominaram todos os campos da atividade humana por bem mais de dois milênios, mas hoje as forças da fé se distribuem entre tantos templos quanto as piores vilezas do dinheiro são capazes de construir e cooptar. Continuo a olhar para a Síria.

Esse homem, já de todas as religiões, cansado de ver manobras estranhas daquele que chamou de Senhor do Céu, fundou há cinco séculos um conhecimento sobre a natureza e sobre si mesmo independente de escrituras sagradas, e assim se entreteve, maravilhado, com a ciência e suas garantias, bem maiores que as da filosofia e das crenças. A partir daí, provou o bem social trazido por alguns engenhos tecnológicos, modificou o sistema de produção e de distribuição de renda, fundando o sistema capitalista e o Estado Moderno, alicerçado na espantosa Revolução Industrial aparecida um século antes.

Os grandes países demonstram o poder que têm através da economia que possuem, grande parte haurida através do empobrecimento e da submissão de outros povos. Entretanto, o animal perigoso que somos também é feito de fina e criativa substância - atualizou e lançou à vida moderna uns primitivos conceitos de estado, sociedade, direito, pobreza, riqueza, utopia e realidade. Mantendo as características antropológicas do sentimento e da racionalidade, o pobre animal, contudo, sempre trouxe consigo - mas hoje há mais riscos destrutivos - o infortúnio da terrível dúvida sobre o que fazer, apesar de tanto progresso desde suas remotas e enfumaçadas origens. A perversidade dos séculos ressecou sua pele de ancião fatigado de si.
Não consigo deixar de olhar para a Síria.

Nasci e vou morrer. Eu também sou um fragmento do “Homem”, ainda que ele não morra, pois existe independentemente da finitude da vida do homem individual. Não tenho claros deuses, preservo meus sonhos, comovem-me humanismos. Sou de escasso dinheiro, trabalho para sobreviver, busco compreensões gerais. O Homem (que, sob vários aspectos, é o “eu-transcendental” de Kant, eleva-se sobre a materialidade de todos para servir de representação ideal de cada um) leva sobre mim enigmática vantagem: ele não existe, e no entanto ele é todos, ao passo que eu existo, sendo nada além de mim mesmo. O Homem é minha implacável espécie. Enquanto ele é todos nós, não conseguimos ser mais do que um indivíduo pungentemente solitário. Ele não tem vestuário, não se alimenta, não labora, nunca é visto, mas dizem que tem um amor e um escândalo por dentro e ninguém sabe se nele há lugar para sofrimentos, ainda que ele seja a matriz de todas as dores e de toda a felicidade. Mas eu também tenho esse amor e esse escândalo, e cá estou, no meu tempo e no meu lugar, vivendo como um fragmento extraído do homem geral, e sofro.

Homem, a Síria, a Síria!

Ah, por que não deste a todos teus filhos a compaixão?


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