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Drummond na veia

05 de Março de 2018 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Paulo Rosa, Hospital Espírita, Caps Porto, Ambulatório Saúde Mental - prosasousa@gmail.com

Drummond é pau pra toda obra. Tanto serve para tratamento, quanto age qual vacina, desviando-nos ou melhorando-nos de males, de corpo e alma, à espreita em cada santa esquina. Serve a adultos e crianças. Cedo leio Drummond para meus netos, os muito pequenos aproveitam-lhe o som das palavras, os taludinhos vão além, já capinam significados, todos reconhecem o Altamirano nas fotos, o que me deixa feliz e crente de que o mineiro aí está para ajudá-los. Gosto de ir além dos seus livros infantis, como O elefante ou História de dois amores, e mostrar-lhes um Drummond com O avesso das coisas, o livro de aforismos de um Drummond (tr)avesso.

[Voto] O voto, arma do cidadão, dispara contra ele./O voto obrigatório estendido ao analfabeto anuncia o analfabetismo obrigatório. [Visita] Suspiramos pela visita que não recebemos, e abominamos a recebida./A visita é alegria ou aborrecimento, conforme o visitante ou a hora. [Virtude] Excesso de virtude, pecado contra a natureza./O tédio e a virtude vivem mais unidos do que esta desejaria. [Vício] O vício é criação da virtude para mais se valorizar. [Vinho] O vinho conduz à verdade, desde que ele também não seja falso./A mistura de vinhos e queijos prova que o paladar tem horror à solidão. [Vice-presidência] Aquilo que é e não é ao mesmo tempo.

“Andei reunindo pedacinhos de papel onde estas anotações vadias foram feitas”, informa o poeta sobre a origem do livro, onde ele quer “enveredar pelo avesso das coisas, admitindo-se que elas tenham um avesso...”, mostrando assim e antecipando o calhamaço de 400 páginas do Geneton Moraes Neto, Dossiê Drummond, de 2007.

Mais vadiagem. [Amor] Amar sem inquietação é amar sem amor./Nossa capacidade de amar é limitada, e o amor infinito; este é o drama./Entre um e outro amor, é aconselhável um pouco de respiração./Há vários motivos para não amar uma pessoa, e um só para amá-la; este prevalece. [Anedota] Não se inventou ainda a anedota triste, para ocasiões fúnebres. [Animal] Não se sabe por que os irracionais falam tão pouco, e os racionais tanto. [Apocalipse] Os cavaleiros do Apocalipse, apenas quatro, não dão conta do serviço.

Drummond do contra. Avesso, como corresponde, aos hiperbólicos mentais, escreveu também para sacanear semióticos, fazendo o devido exorcismo em Exorcismo: “Da estruturação semêmica/ Do idioleto e da pancronia científica/Da reliabilidade dos testes psicolinguísticos/Da análise computacional da estruturação silábica dos falares regionais/Libera nos, Domine/Do vocoide/Do vocoide nasal puro ou sem fechamento consonantal/Do vocoide baixo e do semivocoide homorgânico/ Libera nos, Domine. Livrai-nos da mente barroca, Senhor.

Drummond amoroso. “Deus me deu um amor no tempo de madureza/quando os frutos ou não são colhidos ou sabem a verme/Deus - ou foi talvez o Diabo - deu-me este amor maduro/e a um e a outro agradeço/pois que tenho um amor”.Tese: Drummond, pau pra toda obra.


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