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Um negócio inacabado

03 de Março de 2018 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Os ventos ideais de liberdade política provenientes da França e da Inglaterra se espalham pelas 13 colônias britânicas da América. Em 1773, em Boston, a Festa do Chá protesta contra os impostos sobre a importação do produto. Dois anos após, conflitos armados ocorrem entre a milícia patriótica e as poderosas forças britânicas. Em 4 de julho de 1776, por ocasião do Segundo Congresso Continental, presentes os 56 delegados das 13 colônias, é assinada a Declaração de Independência dos Estados Unidos.

Todavia, faz-se necessária uma guerra longa e cruel para tornar a independência uma realidade. Os dois exércitos - o britânico, em razão das dificuldades de enviar forças em massa para a América; e o dos colonos, porque sempre lhes faltam meios de levantar e equipar qualquer grupo militar significativo - se confrontam, ao longo de seis anos, em uma série interminável de pequenos combates. Derrotados em Saratoga, em 1777, os britânicos sofrem sério revés: a França ingressa na guerra e declara seu apoio aos colonos rebelados. Finalmente, em 1781, em Yorktown, na Virgínia, os ingleses se rendem, mas somente dois anos depois a coroa inglesa reconhece a independência do novo país.

Na primavera de 1787 ocorre uma convenção constitucional na Filadélfia. A Constituição escrita, formalizada e proposta, somente será ratificada de modo provisório em junho do ano seguinte, e mesmo assim após longas disputas. O resultado final é a declaração de uma nova forma de governo. E a Carta Magna é tanto uma declaração de direitos quanto um projeto para um governo ideal, cujos poderes se vigiariam entre si.

Os pais fundadores do país americano estavam corretamente otimistas a respeito do potencial dos Estados Unidos, mas erraram em resolver uma questão crucial. O primeiro esboço da Declaração de Independência, proposto Jefferson, declarava a escravidão “um comércio execrável” e “uma guerra cruel contra a própria natureza humana”. Porém, para acalmar os estados escravistas do Sul e os comerciantes de escravos do Norte, essas afirmações radicais somente seriam removidas muito mais tarde. Serão necessárias uma guerra fratricida e a morte de 620 mil americanos - quase 90 anos! - para colocar um ponto final nessa prática e completar aquilo que Abraham Lincoln via como “um negócio inacabado” da Declaração de Independência e da Carta Magna dos Estados Unidos.


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