Opinião

A esperança que nasceu da tragédia

01 de Março de 2018 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Cássio Furtado, Professor e jornalista

Emma Gonzalez é uma adolescente de 18 anos. Mas seus discursos e ações nas últimas semanas podem ter um impacto profundo na sociedade e na política dos Estados Unidos.

Emma é uma sobrevivente do ataque à Stoneman Douglas High School, em Parkland, na Flórida, no dia 14/2. Naquele dia, Nikolas Cruz, de 19 anos, um ex-aluno, invadiu a sua antiga escola armado com um rifle AR-15, atirando em alunos e professores. Matou 17 pessoas e feriu 14.

Desde então, Emma e seus colegas, sobreviventes da tragédia de Parkland, criaram o movimento #NeverAgain, ou Nunca Mais, que demanda que o acesso às armas automáticas e semiautomáticas seja restringido, além de solicitar laudo psicológico para que o cidadão comum possa comprar uma arma de fogo.
Em um emblemático discurso dias após a tragédia, Emma afirmou:

- Nós estamos aqui, juntos, porque se tudo o que o governo e o presidente podem fazer são discursos e orações, então está na hora das vítimas serem a mudança que nós precisamos ver.

Ela não foi a única a confrontar abertamente as autoridades do país. Em uma aparição ao vivo na rede CNN, Cameron Kasky, outro estudante da Stoneman Douglas High School, pressionou Marco Rubio, um senador Republicano, a se comprometer publicamente a não aceitar mais doações da Associação Nacional de Rifles, a NRA, principal entidade de defesa e lobby das armas nos EUA, e que gastou mais de 50 milhões de dólares patrocinando políticos como ele somente na última eleição.

Os movimentos criados e compostos por jovens foram vitais, ao longo da história, para as transformações e os questionamentos nas sociedades.

Mahatma Gandhi, por exemplo, criou o Congresso Hindu em Durban, na África do Sul, aos 25 anos. Seu objetivo era defender a significativa população indiana no país da severa discriminação racial.

Quando Martin Luther King liderou o boicote ao sistema de ônibus em Montgomery, no Alamaba, em 1955, ele tinha 26 anos. Na década seguinte, King seria um dos principais responsáveis por mudar as leis dos EUA e dar à população negra dos estados do Sul o direito ao voto e igualdade perante a lei.

A oposição à Guerra do Vietnã, nas décadas de 60 e 70, foi liderada por estudantes. Há uma clara explicação para isso: também eram os jovens, muitos de 18 e 19 anos, os enviados para a luta no Vietnã. Sob o pretexto de impedir o avanço do socialismo mundo afora, morreram cerca de 60 mil soldados estadunidenses e cerca de 1,2 milhão de vietnamitas naquele período.

Jovens também são a essência do movimento Black Lives Matter, criado para denunciar o racismo e a violência policial contra pessoas negras. Fortalecido após a execução de Michael Brown, um jovem negro de 18 anos, por um policial branco em 2014, o movimento espalhou-se da nanica Ferguson, no Missouri, para ocupar espaço nas principais cidades dos EUA.

Os mais jovens, em geral, estão dispostos a serem mais criativos com suas táticas e a tentarem novas estratégias, além de serem experts nas redes sociais. E, nos dias de hoje, as redes são fundamentais para a conscientização coletiva em questões como imigração, discriminação racial e de gênero e, certamente, para o controle de armamentos pesados.

O principal obstáculo para o controle de armamentos é que as armas são uma questão vital para a maioria dos conservadores nos EUA. Para eles, o direito de portar armas é tão importante quanto as liberdades individuais, como a liberdade de expressão e de movimento. E, para os políticos do Partido Republicano, os votos dos donos de armamentos e o apoio financeiro do lobby das armas são sinônimo de sucesso eleitoral.

Trump, por exemplo, prefere propostas estapafúrdias, como a de armar professores para evitar tiroteios nas escolas, a qualquer debate mais sério e profundo sobre o tema. Por outro lado, a pressão dos sobreviventes de Parkland fez com que empresas gigantescas, como as companhias aéreas Delta e United Airlines, as locadoras de automóveis Avis e Budget e a seguradora MetLife encerrassem suas parcerias com a NRA nos últimos dias. Emma Gonzalez, em pouco mais de duas semanas, ganhou quase 700 mil seguidores nas redes sociais.

Jovens como Emma, Cameron e seus colegas têm a oportunidade única de obterem mudanças históricas na questão de controle de armas nos EUA, uma sociedade conservadora e que, ao longo das décadas, não esteve disposta a impor limites para o porte de armas. Por mais difícil que seja a tarefa, os jovens são a mais pura esperança de que Parkland tenha sido o último massacre promovido pela insanidade armamentista estadunidense.


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