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Falar e escrever

27 de Fevereiro de 2018 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Pedro Moacyr Pérez da Silveira, pedromo0987@gmail.com

Do objeto e suas ressonâncias

Para Alcino Alcântara Filho. Há coisas de difícil verbalização; há outras quase infactíveis à escrita. Muitas vezes, o que se conta na esquina ao amigo ganha uma inesperada complexidade para ser posto em um texto, assim como o que se consegue expressar em uma folha possui enorme embaraço expressional para ser expresso pela fala.

Minha vida se confunde com palavras ditas e anotadas. Dou aulas desde uma hoje tão antiga adolescência, e sempre apreciei a produção de apontamentos. Comigo estão velhos e novos poemas e contos. Estão também as colunas que, há ano e meio, deixo às terças-feiras por aqui. Trago uns romances não publicados e uns artigos acadêmicos que por aí andaram. Se tivesse que sentar à mesa para esclarecer esse material, eu precisaria realizar uma troca substantiva de linguagem.

Assim é com todos os que vivem em meio a palavras escritas e faladas, é certo, mas as primeiras têm um nível de responsabilidade maior. Quando escrevemos, temos a mediação racional mais presente do que quando falamos, além de mais tempo para pensar, refinar e dar à luz um pensamento, uma emoção, um entendimento. Palestras possuem menores exigências do que livros. Nas conversas, a instantaneidade do que dizemos institui compromissos menores. A espontaneidade do que é momentâneo na expressão humana demanda menor grau de coerência futura em relação à totalidade discursiva de um indivíduo.

Quando escrevemos, contudo, precisamos nos cercar de outros cuidados. Ao falarmos, se nosso interlocutor disser “hein?”, teremos de repetir alguma frase, ou um certo trecho, quase volátil, que já ia desaparecendo atrás de novas palavras. Nos nossos textos, porém, o interlocutor não está presente - existem apenas olhos distantes e um tanto vagos de um leitor quase abstrato. Não haverá pedidos de repetição ou de renovação narrativa. Ao optarmos por penejar, precisamos dar atenção gentil a quem procurará nos entender: aquele sujeito que irá talvez se recostar numa poltrona ou apoiar-se nalgum balcão de café público, e que se concentrará em nossas linhas. Alguma impressão causamos com essas letras voadoras, que de nossas mãos saem e, sem que saibamos, encontram pessoas em lugares que não supomos. É preciso respeito e delicadeza cordial na remessa que fazemos. Procuro agir assim no Facebook, por exemplo, ainda que por lá eu receba mais diretamente a opinião de quem toma contato com o que escrevo. Não raramente, algumas objeções são inversamente proporcionais à intenção que tenho, particularmente nos últimos tempos, em relação a escritos de natureza política (circunstância que me tem feito comparecer cada vez menos nessa rede social).

De qualquer forma, textos estimulam a produção de pensamentos alheios, seja por concordância ou por negação, e permitem reverberações emocionais um tanto diversas das que nascem naquele com o qual conversamos, ou que nos escuta em plateias. Quanto ao leitor, também a ele aparecem raciocínios menos superficiais e sentimentos mais elaborados. O tempo trabalha no interior da comunicação estabelecida entre autores, ouvintes e leitores, o que faz com que a relação entre o primeiro e os demais tenha diferentes graus de rigor e necessidade. Às falas, laxismo; à escrita, uma circunspecção mais severa. Somos, claro, a mesma pessoa, mas fazemos pensar, rir, sofrer, alegrar, ver e desconfiar de maneiras diversas quando estamos a dizer coisas e quando as lançamos a papéis (monitores são folhas de gramatura especial, não?).

Na semana passada fui ao consultório do meu ex-colega (lecionou Medicina Legal na Faculdade de Direito por muitos anos) e grande amigo Alcino Alcântara Filho. Pondo assuntos em dia, ele me disse “leio a ti no Diário Popular, mas teus parágrafos são longos e em algumas vezes é preciso recomeçar, eu me perco”. Afiancei-lhe que me esforçaria para atendê-lo, e estou então procurando ter esse zelo aqui.

Conversamos sobre isso por não mais do que dois ou três minutos, e entendi melhor a educada e graciosamente falsa reclamação também através do gestual do meu amigo. Essa percepção é possível quando falamos.

Agora, compondo esse texto, noto o tanto que precisei de mais palavras para contar a vocês, cujos olhos não enxergam minha face, como há dimensões distintas entre o entendimento humano que se dá entre mãos e olhos, e o que se dá entre bocas e ouvidos. Informar isso foi preciso por que lhes conto essas coisas por escrito.

Mas há vezes em que os seres humanos não se entendem jamais, e para cuja impossibilidade não há palavras de cura e nem democracia suficiente.


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